Tema
18. Defesa pessoal e familiar
A reportagem do Metrópoles, publicada em 18 de julho de 2026, conta a história de Ítalo Augusto Souza Araújo, de 25 anos, zagueiro de Belo Horizonte que passou por Cruzeiro, América, Goiás, Paraná, Vila Nova e Capital. Segundo o texto, ele começou a apostar aos 21, durante a pandemia, por diversão e com valores pequenos. Nenhum detalhe dessa fase é dramático, e é por isso que ela importa: o começo de quase toda história de aposta problemática é banal. Com o tempo o valor cresceu. A reportagem registra que, na virada de 2024 para 2025, ele perdeu R$ 3 mil durante um único voo e continuou apostando no quarto de hotel depois de chegar. No total, calcula-se que ele tenha perdido cerca de R$ 100 mil. A carreira foi afetada, ele acabou deixando o futebol profissional, tirou dinheiro da família, pegou empréstimos em banco e com agiotas e vendeu equipamentos. O texto também registra que houve um momento de pensamentos suicidas.
O que desfez o silêncio, segundo a reportagem, foi pequeno e doméstico. Por volta de maio de 2025, a mãe descobriu a situação financeira dele depois de um pedido de dinheiro para pagar uma fatura. Pouco depois ele foi a uma primeira reunião dos Jogadores Anônimos. A parte do relato que interessa a este capítulo vem depois, e é uma lista de objetos práticos. Ele recebeu um diagnóstico de transtorno do jogo e toma medicação. Vai a reuniões duas vezes por semana. Bloqueou o próprio CPF, de forma permanente, junto às casas de apostas, pelo sistema de autoexclusão do governo federal, acessado pelo Gov.br. Parou de acompanhar futebol para evitar gatilhos, inclusive durante a Copa do Mundo de 2026. Quando se sente vulnerável, entrega o celular à mãe, que passou a administrar as finanças dele. Recusou uma proposta de R$ 5 mil para divulgar uma casa de apostas num projeto comunitário que apoia. Na data da reportagem, ele contava nove meses sem apostar e uma recaída pelo caminho.
Repare no que há de comum entre esses gestos. Nenhum deles é força de vontade em estado puro. São todos decisões de arquitetura: tirar o dinheiro de perto, colocar outra pessoa no circuito, remover a pista que dispara o desejo, criar um custo para o acesso. Ele não reuniu coragem para resistir ao produto. Reorganizou o terreno para que o produto tivesse menos onde se apoiar. Este capítulo é sobre isso, e é o mais prático do livro: depois de dezessete capítulos explicando como as máquinas são desenhadas para prender, a pergunta é o que você faz amanhã de manhã.
O livro não diagnostica ninguém, e este capítulo também não. Quem lê pode usar o celular demais, apostar e estar preocupado, ser pai ou mãe de um adulto que está sumindo, ou ser só curioso, e as ferramentas abaixo servem a todos em graus diferentes. Se algo aqui pesar, o CVV atende no 188, a qualquer hora, e em risco imediato o SAMU atende no 192. O CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial do SUS, aparece no fim das seções mais sensíveis.
O que você vai levar deste capítulo
Defesa eficaz quase nunca depende de resistir no momento da tentação. Ela depende de decidir antes, em momento frio, e de pôr atrito, tempo e outras pessoas entre você e o produto. Existem ferramentas reais no celular, no banco e na lei, mas cada uma tem um buraco, e a lista de buracos é mais útil que a lista de promessas. O tratamento para o transtorno do jogo tem evidência, com ressalvas importantes: ajuda bastante logo depois e a evidência de efeito duradouro é mais fraca. Família ajuda mais com estrutura do que com ultimato, e proteger o dinheiro do resto da casa não é traição. A lei do superendividamento existe, tem passos concretos e é mais acessível do que parece.
Por que a defesa começa no ambiente, e não na vontade
O capítulo 1 apresentou o ponto de parada, o momento em que o produto dá a você uma razão natural para decidir se continua. Quem lucra com tempo e repetição remove esses momentos. O capítulo 3 mostrou que a velocidade de ciclo, o número de repetições por minuto, é o que transforma uma pequena vantagem da casa numa perda grande. A defesa pessoal é a operação inversa das duas ideias: recolocar pontos de parada onde o produto os tirou e desacelerar o ciclo onde ele foi acelerado.
Isso muda a pergunta que a maior parte das pessoas faz. A pergunta típica é "como eu me controlo". Ela parte da premissa de que o problema é um defeito de caráter a ser consertado no momento da tentação. A pergunta mais produtiva é "o que está entre mim e o produto às 23h40, quando estou cansado, entediado e a um toque do primeiro giro". Se a resposta for nada, o ambiente está contra você, e nenhuma resolução feita de manhã resolve isso à noite.
Fora da tela: a rua do bar e a carteira em casa
O mundo físico sempre soube disso. Quem trata alcoolismo repete uma orientação simples: nos primeiros meses, não passe na rua do bar. A recomendação não presume que a pessoa seja fraca. Presume que o desejo é dependente de pista, tema do capítulo 2, e que a pista mais forte é o lugar, o horário e a companhia. Quem muda de caminho não está fugindo; está tirando do cenário o gatilho que faria a decisão de agora ser pior do que a de ontem.
A carteira deixada em casa tem a mesma lógica. Quem sabe que gasta demais num bar, num cassino ou numa feira de eletrônicos sai com dinheiro contado, ou sem cartão. Isso funciona porque transforma uma decisão contínua, repetida a cada rodada, numa decisão única, tomada uma vez, em casa, com a cabeça fria. A máquina de cassino, lembre-se do capítulo 6, vive de impedir que a pessoa tenha um momento de decisão. A carteira em casa devolve esse momento.
Ulisses e as sereias
A imagem mais antiga é a de Ulisses. Na Odisseia, ele sabe que não resistirá ao canto das sereias quando ouvi-lo. Em vez de contar com a própria firmeza, manda a tripulação amarrá-lo ao mastro e ordena que ninguém obedeça a nenhum pedido dele para mudar de rota enquanto o canto durar. A tripulação, com cera nos ouvidos, não ouve nada. Ele ouve tudo e não pode agir. Economistas e psicólogos chamam essa estrutura de pré-compromisso: uma decisão tomada hoje que limita o que o eu de amanhã pode fazer. É a ferramenta mais importante deste capítulo, e quase tudo o que vem depois, do limite de Pix ao celular entregue à mãe, é uma variação dela.
Duas propriedades fazem o pré-compromisso funcionar. A primeira é que o custo de sair do compromisso precisa ser maior do que o impulso do momento, ou ao menos vir com demora. A segunda é que ele precisa ser decidido num estado em que você ainda enxerga bem. O desenho que mais falha é o compromisso fácil demais de desfazer, um aviso na tela que você dispensa com um toque. O que funciona é o compromisso que exige tempo, outra pessoa ou as duas coisas.
O que a pesquisa diz sobre "se-então"
Existe uma literatura sobre a versão pequena e cotidiana disso, as intenções de implementação, estudadas pelo psicólogo Peter Gollwitzer. A ideia é trocar a intenção vaga ("vou apostar menos") por uma regra do tipo "se acontecer X, então faço Y". Cenário ilustrativo: "se eu abrir o aplicativo do banco depois das dez da noite, então eu fecho e ligo para o meu irmão antes de qualquer transação". A regra funciona porque entrega a decisão a uma pista do ambiente, em vez de depender de você lembrar de ter força naquele instante.
A meta-análise de Gollwitzer e Sheeran, de 2006, reuniu 94 testes independentes e encontrou um efeito de tamanho médio a grande, com d de 0,65 sobre o cumprimento de metas. Há uma ressalva que o livro deve fazer: segundo relatos secundários, que eu não consegui confirmar no texto original, uma meta-análise posterior de 2024, assinada por Sheeran, Listrom e Gollwitzer e com 642 testes, teria corrigido o viés de publicação e chegado a um efeito bem menor, perto de 0,15. Se for isso mesmo, a técnica continua útil, mas com efeito modesto, e não é a bala de prata que a divulgação vendeu. Além disso, a maior parte desses estudos mede metas comuns, como exercício e vacina, e não compulsão. Trate o "se-então" como um tijolo barato e fácil de testar, não como tratamento.
Contratos de compromisso: pagar para não poder
O passo seguinte ao "se-então" é pôr dinheiro ou terceiros no compromisso. O caso mais citado da literatura é um experimento com fumantes nas Filipinas, de Xavier Giné, Dean Karlan e Jonathan Zinman, publicado em 2010 no American Economic Journal: Applied Economics sob o título "Put Your Money Where Your Butt Is" (um trocadilho que se perde em português). Em parceria com o Green Bank, os pesquisadores ofereceram a cerca de 2.000 fumantes um produto chamado CARES (sigla em inglês para algo como "ação comprometida para reduzir e acabar com o fumo"). A pessoa abria uma conta de poupança e depositava o próprio dinheiro durante seis meses. Se, ao final, um teste de urina não encontrasse nicotina, ela recebia tudo de volta. Se encontrasse, perdia o saldo.
Os resultados merecem leitura honesta, porque cortam para os dois lados. Apenas cerca de 11% dos que receberam a oferta assinaram o contrato; a maioria recusou. Ou seja, o instrumento atrai quem já se conhece e já quer algo. Entre os convidados, a chance de passar no teste de nicotina foi de 3,3 a 5,8 pontos percentuais maior que a do grupo de comparação aos seis meses, e de 3,4 a 5,7 pontos aos doze meses. O efeito é pequeno em valor absoluto, mas aparece também aos doze meses, bem depois do fim do contrato de seis. Um detalhe curioso: o depósito mínimo era de 50 pesos, algo como um dólar, e 90% dos clientes abriram a conta com esse mínimo. O contrato funcionou com pouco dinheiro em jogo. Outra nota de transparência, que os próprios autores explicitam: Karlan preside a stickK.com, plataforma que vende contratos de compromisso online, e Zinman integra o conselho consultivo de pesquisa dela.
A stickK vende o desenho de que ela vive: você define uma meta, deposita uma quantia, indica um árbitro e escolhe para onde o dinheiro vai se você falhar. Não verifiquei se o serviço funciona para usuários brasileiros e não o recomendo por nome. O desenho você pode copiar sem plataforma: dinheiro, árbitro, prazo e consequência combinados de antemão.
Para o jogo, o equivalente doméstico é um acordo claro com uma pessoa de confiança. Cenário ilustrativo: você combina com um irmão que, se houver qualquer aposta em uma conta sua nos próximos seis meses, uma quantia definida vai para uma instituição escolhida por ele. A conta só funciona se a quantia for grande o bastante para pesar e pequena o bastante para você aceitar assinar. E vale o mesmo aviso do estudo filipino: quem mais precisa do contrato tende a ser quem menos o assina. É por isso que, para o jogo, o compromisso que vem de fora (o banco, o aplicativo, a lei) costuma ser mais confiável do que o que depende de adesão voluntária repetida.
Limites de depósito e o pré-compromisso do jogador
Plataformas de jogo online regulamentadas em vários países oferecem limites de depósito ou de perda definidos antes de jogar, o princípio de Ulisses. A evidência é limitada e vem em boa parte de dados das próprias empresas. Auer e Griffiths (2013) registraram queda no gasto de jogadores de pôquer intensivos depois de definirem limites, e Auer, Hopfgartner e Griffiths (2020) olharam o efeito de longo prazo; li só resumos truncados e não cito números. A conclusão prática: onde o limite existir, configure-o em dia calmo, com um valor que pareça quase insuficiente e, se possível, com aumento só após um prazo.
Na tela: configurações que fazem diferença
Pontos de parada digitais são, em sua maioria, recursos que o sistema operacional do celular já trazem e que quase ninguém ativa. A Apple lançou o Tempo de Uso (Screen Time) em 2018, com o iOS 12, e o Google lançou o Bem-estar Digital (Digital Wellbeing) no mesmo ano, no Android 9. Os anos exatos vêm de memória. O capítulo 19 discute por que essas primeiras camadas de atrito vieram das fabricantes do aparelho e não dos aplicativos, e por que quase sempre são tímidas.
Os nomes das telas mudam a cada versão do sistema e conforme o idioma. Em vez de decorar caminhos, procure pelo recurso que eu descrevo. Se não achar, o campo de busca das configurações costuma resolver.
Limites de tempo e a pausa de apps
No iPhone, o Tempo de Uso permite definir limites por app ou por categoria (redes sociais, jogos, entretenimento), agendamentos que deixam só certos apps disponíveis em certos horários, e um código que protege essas escolhas. O ponto central está no código: se você mesmo escolhe e conhece o código, o compromisso é fraco, porque você o desfaz às 23h40 com dois toques. O truque do pré-compromisso é pedir a outra pessoa, um parceiro, um irmão, um amigo de confiança, que defina o código sem lhe contar. Isso é o mastro de Ulisses em versão doméstica. Apple documenta o código e os agendamentos em sua central de ajuda para o uso com crianças, e o mesmo recurso se aplica ao seu próprio aparelho.
No Android, o Bem-estar Digital tem temporizadores de app: quando o tempo diário se esgota, o app é fechado e o ícone fica apagado, e o contador volta a zero à meia-noite. Tem também o modo de foco, que pausa os apps que você escolher, impede notificações deles e pode ser agendado. É um recurso que ajuda mais na distração cotidiana do que na compulsão grave, porque o próprio usuário pode desfazê-lo com facilidade. Vale como atrito leve, e atrito leve ainda interrompe parte do uso automático.
Modo cinza e notificações apagadas
O modo cinza, ou escala de cinza, tira a cor da tela. A razão é a mesma que o capítulo 10 discutiu: a cor vermelha do emblema, o verde do botão e as imagens saturadas são elementos de captura de atenção, e sem eles o app fica menos chamativo. O Android oferece a opção dentro do modo hora de dormir, descrita na ajuda do Google como a mudança da tela para preto e branco. No iPhone, a opção costuma estar em Acessibilidade, em Tela e Tamanho do Texto, em Filtros de Cor, com a escolha de tons de cinza; o caminho exato varia por versão e eu o indico de memória. A evidência de que isso reduz o tempo de uso é pequena e eu não vou fingir o contrário. Vale testar por duas semanas e ver se você sente diferença, porque o custo é zero.
Notificações merecem tratamento mais radical. A regra que proponho é inverter o padrão: tudo desligado, e você liga o que quiser, uma exceção de cada vez. Mensagens de pessoas, alertas do banco e ligações permanecem. Redes sociais, jogos, promoções, "alguém curtiu", "você ficou para trás" e qualquer coisa de apostas ou de corretora saem. Notificação é a pista externa mais barata que o produto tem para chamar você de volta (o capítulo 10 detalha), e quase nenhuma tem a função de informar algo de que você precise em dez minutos.
Tirar o app do caminho
O atrito mais forte que o celular oferece é deletar o app. Parece pouco, mas o que importa é a diferença entre "um toque" e "abrir a loja, entrar na conta, esperar o download, fazer login, passar pela verificação". Cada etapa é um ponto de parada. Para quem sente que está apostando demais, apagar o app e o atalho do site no navegador, sair das contas salvas e apagar o método de pagamento registrado são medidas simples e imediatamente eficazes, ainda que não resolvam sozinhas.
Existem também aplicativos bloqueadores, tanto de uso geral quanto específicos para sites de jogo, criados principalmente fora do Brasil. Não vou citar nomes porque não consegui confirmar a disponibilidade e as condições de nenhum deles em português. O funcionamento é o mesmo do código do Tempo de Uso: o bloqueio vale na medida em que dificulta desligar. Pedir a alguém que defina a senha de administração, ou que configure o bloqueio, reforça o efeito.
O dinheiro como barreira: autoexclusão, banco e Pix
O dinheiro é o ponto de parada mais sólido, porque o jogo comercial passa por ele. Controlar o acesso a ele é a defesa que mais se aproxima de uma barreira física.
A autoexclusão no Brasil, até o fim de outubro de 2026
O Brasil criou, no âmbito da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, uma plataforma centralizada de autoexclusão. Segundo a página oficial lida em 30 de outubro de 2026, o serviço permitia ao usuário, com conta Gov.br de nível prata ou ouro, escolher um período (no mínimo um mês, fixo ou indeterminado) e bloquear o acesso a todos os sites de apostas autorizados pelo governo federal. A mesma página dizia que o serviço é gratuito e listava, como apoio, as unidades básicas de saúde, o CAPS e a linha Ligue 136, da Ouvidoria-Geral do SUS. Foi o mecanismo que Ítalo Araújo usou.
O que vale hoje precisa ser dito com cuidado e datado. A mesma página da Secretaria informa que a plataforma está indisponível, com referência à Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro de 2026, que proibiu em todo o território nacional a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa (o capítulo 7 conta a sequência). A página não diz quando ou se o serviço volta. Pela lógica da medida, os sites autorizados saíram do ar em 5 e 6 de outubro, as autorizações foram extintas em 25 de outubro e o próprio ato de autoexcluir-se de uma lista de operadores autorizados perde parte do sentido. A medida provisória tramita no Congresso, com prazo de deliberação até 23 de novembro, prorrogável, e há ações no Supremo contra ela. Se a medida cair, ou se a regulação voltar de outra forma, a autoexclusão pode ser reativada ou refeita. Se ficar, a proibição transfere o risco para o mercado que a autoexclusão nunca alcançou, o ilegal e o do exterior, onde não existe lista central, nem checagem, nem para quem reclamar.
Esse é o ponto que a notícia de que "as bets saíram do ar" esconde. A proibição reduz a oferta legal, mas não elimina o risco individual, porque ele nunca dependeu só da legalidade. Por isso a defesa no seu aparelho, no seu banco e na sua casa continua tendo o mesmo valor que tinha antes da medida. O que cabe dizer é que, enquanto houver plataforma que aceite sua aposta fora do radar, a barreira mais confiável é a que você ergue com o dinheiro.
Bloqueio no banco: o que o Reino Unido mostrou
Uma ideia britânica merece atenção por causa do seu desenho. A partir de 2018, segundo um relatório da Universidade de Bristol, o Monzo foi um dos primeiros bancos do país a oferecer ao cliente um bloqueio de transações de jogo, que recusa pagamentos a comerciantes classificados como de apostas. Uma reportagem da instituição Money and Mental Health, de novembro de 2019, listava outros bancos que fizeram o mesmo, com uma diferença relevante: o prazo para desfazer. Em alguns, desligar o bloqueio exigia falar com o atendimento e esperar 48 horas (Monzo, Lloyds); em um, havia um período de espera de 24 horas, anunciado na época (HSBC); em outro, um botão que ligava e desligava na hora (Barclays); e o Starling mostrava, na hora de desligar, uma mensagem com a linha nacional de ajuda ao jogador. Isso está datado de 2019 e os bancos podem ter mudado as regras; trate como ilustração do desenho, não como guia atual.
O desenho é o que interessa. O bloqueio com demora de 48 horas é um ponto de parada deliberado: o impulso de uma noite não consegue pagar pela aposta de uma noite, porque o desbloqueio só vale depois. É o princípio da carteira esquecida em casa, executado por software. E o botão que desliga na hora é o mastro com nó frouxo.
No Brasil, não consegui confirmar o que os bancos oferecem hoje como bloqueio específico de transações de aposta, nem se algum já ofereceu e desativou. O que sei, de modo geral, é que a maior parte dos aplicativos de banco permite ajustar limites de Pix por transação e por horário, e que o limite noturno é um ponto de parada que vale conferir. Pergunte ao seu banco, por escrito, três coisas: se há como bloquear categorias de comerciante; se o limite de Pix pode ser reduzido e por quanto tempo fica valendo; e quanto demora para aumentá-lo de novo. Quanto à medida provisória, ela vedou o processamento de pagamentos de apostas de quota fixa por bancos e instituições de pagamento, incluindo Pix, segundo a leitura do texto feita para o capítulo 7. Na prática, o que antes era responsabilidade do cliente virou obrigação legal do banco, mas só para operadores que o banco consegue identificar.
Quando outra pessoa guarda o dinheiro
A defesa financeira mais poderosa de que se tem registro público é a de Ítalo Araújo: a mãe passou a administrar as finanças. Esse arranjo funciona porque separa o acesso ao dinheiro do impulso. O desenho tem de ser combinado com franqueza, com um prazo de revisão e sem humilhação, porque a pessoa que entrega a conta bancária está entregando também parte da dignidade. Veja mais adiante, na seção sobre a conversa em família.
Um cuidado: cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal são portas laterais. Quem entrega a conta e mantém o crédito ainda pode apostar com dinheiro que não tem. Reduza limites, cancele cartões que não usa e peça ao banco para desabilitar o cheque especial.
Tratamento: o que a evidência sustenta e onde ela é fraca
O texto desta seção é curto, de propósito. Não substitui um profissional e não diagnostica ninguém. Se você ou alguém que você conhece reconhece o que está aqui, a primeira conversa é com um serviço de saúde, e o parágrafo final lista onde começar.
Terapia cognitivo-comportamental
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem psicológica mais estudada para o transtorno do jogo. Ela trabalha as crenças sobre o jogo (a ilusão de controle do capítulo 3, a ideia de que "agora vai virar"), os gatilhos, a exposição gradual e as estratégias para lidar com a vontade. A revisão Cochrane de Cowlishaw e colegas, de 2012, concluiu que os dados de nove estudos apontavam benefício da TCC no período imediatamente seguinte ao tratamento, e que havia poucos estudos com acompanhamento mais longo, de modo que pouco se sabia sobre a durabilidade do efeito.
Uma meta-análise mais recente trouxe um retrato parecido, com números. Rory Pfund e colegas, na revista Addiction, em 2023, reuniram 29 ensaios clínicos aleatorizados com 3.991 participantes. Ao final do tratamento, técnicas cognitivo-comportamentais reduziram a gravidade do transtorno (efeito de g igual a menos 1,14, um efeito grande na linguagem da área), a frequência de jogo (menos 0,54) e a intensidade (menos 0,32), em comparação com quem não recebeu tratamento ou recebeu muito pouco. No acompanhamento posterior, porém, não houve efeito significativo. Os autores apontaram viés de publicação e grande heterogeneidade, e concluíram que o efeito imediato provavelmente está superestimado e que a TCC pode não ajudar de modo confiável todas as pessoas.
Entrevista motivacional
A entrevista motivacional é uma conversa estruturada que não empurra a pessoa para a mudança; ajuda-a a explorar a própria ambivalência. A mesma revisão Cochrane de 2012 encontrou, em três estudos, alguns benefícios na redução do comportamento de jogo, mas não necessariamente nos outros sintomas. É a abordagem que mais se parece com o que um familiar pode aprender a fazer em casa: perguntar mais do que afirmar, devolver à pessoa as próprias razões para mudar e evitar a discussão sobre se ela "é viciada".
Medicação
Com este tema o cuidado precisa ser máximo, porque medicação pede médico, e o texto não substitui consulta. O que a literatura diz, em resumo, é o seguinte. Uma revisão Cochrane de 2022, de Dowling e colegas, sobre tratamentos farmacológicos do jogo problemático, concluiu que há apoio preliminar ao uso de antagonistas opioides, classe à qual pertence a naltrexona. Preliminar quer dizer: estudos pequenos, resultados que precisam de confirmação. Uma meta-análise de 2017 sobre naltrexona em dependências comportamentais em sentido amplo encontrou melhora pequena a moderada nos escores em relação ao placebo (diferença padronizada de menos 0,27), mas esse conjunto inclui outros comportamentos além do jogo. E uma revisão holandesa de 2026 observa que nenhum medicamento tem registro específico para o transtorno do jogo, o que quer dizer que qualquer prescrição é, em geral, de uso fora da bula, decidida caso a caso. Medicações também têm papel quando existe outro problema junto, como depressão, ansiedade ou uso de álcool, que é muito comum nessa população. Converse com um médico, de preferência psiquiatra, antes de qualquer decisão, e nunca tome por conta própria o que ouviu em reportagem.
Jogadores Anônimos
Os Jogadores Anônimos (JA) nasceram nos Estados Unidos, com a primeira reunião em Los Angeles em 13 de setembro de 1957, e adaptaram os doze passos dos Alcoólicos Anônimos. Em reuniões abertas, gratuitas, conduzidas pelos próprios membros, a pessoa admite o problema, ouve outros, e se apoia num grupo que se encontra regularmente; a meta declarada é a abstinência de jogo. Existem grupos no Brasil.
A evidência sobre o JA é modesta, e a razão é metodológica: grupos anônimos e voluntários são difíceis de estudar com ensaio aleatorizado, e as pesquisas disponíveis tendem a ter muita desistência. Isso não quer dizer que não funcione; quer dizer que o efeito não foi medido com a mesma firmeza que o da TCC. Para muitas pessoas, o valor está em coisas que um ensaio mede mal: o fim do isolamento, a presença de gente que já passou por aquilo, a reunião marcada na agenda, a rotina que ocupa o horário em que o jogo caía. Na história que abriu o capítulo, Ítalo Araújo combina reuniões duas vezes por semana com medicação e diagnóstico médico. As abordagens não competem entre si, e o desenho mais sensato costuma juntar mais de uma.
O que o SUS oferece
O SUS atende por meio da atenção básica (as unidades básicas de saúde) e dos CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial. Existe uma modalidade específica para álcool e outras drogas, o CAPS AD, e a disponibilidade de atendimento para transtorno do jogo varia por município; em muitos casos a porta de entrada é a unidade básica de saúde ou o CAPS da região, que encaminha. A página da Secretaria de Prêmios e Apostas lista exatamente esses serviços, as unidades básicas, o CAPS e outros profissionais de saúde, e a linha Ligue 136, da Ouvidoria-Geral do SUS. Eu não consegui confirmar a lista completa de serviços por cidade nem horários, e por isso sugiro ligar antes.
Há um ambulatório especializado em São Paulo cuja existência confirmei no site do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP: o PRO-AMJO, programa voltado a pessoas com transtorno do jogo e a seus familiares, fundado em 1997, que atende maiores de 18 anos, com consulta psiquiátrica, psicoterapia e grupos, sem custo para os pacientes voluntários, segundo a página do instituto. A triagem é feita por telefone ou e-mail. Como as páginas que li divergem quanto ao dia da semana e aos números de contato, não os reproduzo; procure o contato atual no site do IPq.
Se o assunto for risco de vida
Pessoas que perdem muito dinheiro, escondem dívidas e sentem vergonha estão, na estatística, num grupo de risco aumentado, tema do capítulo 15. Se você está pensando em se machucar, ou conhece alguém que está, ligue para o CVV no 188, que atende de forma gratuita, a qualquer hora, em todo o país. Em risco imediato, ligue para o SAMU no 192. E procure o CAPS da sua cidade ou uma unidade básica de saúde, que podem acolher sem agendamento prévio em muitos casos.
Como conversar com quem está afundando
Esta é a parte mais difícil do capítulo, porque envolve gente que você ama e um assunto carregado de vergonha. Vale começar por uma limitação do que se sabe. A abordagem mais estudada para famílias de pessoas com dependência que se recusam a tratamento é o CRAFT, sigla em inglês de Treinamento da Comunidade e da Família para Reforço (Community Reinforcement and Family Training), desenvolvida inicialmente para álcool e drogas. A ideia é treinar os familiares em comunicação positiva, em reforçar os momentos de abstinência em vez de punir os de uso, em deixar as consequências naturais acontecerem sem proteger a pessoa delas, e em cuidar da própria saúde e segurança, enquanto aproveitam janelas em que o outro aceita conversar sobre tratamento.
Uma revisão sistemática de Archer e colegas, publicada na Addiction em 2020, concluiu que o CRAFT, em conjunto, foi cerca de duas vezes mais eficaz do que os grupos de comparação para levar a pessoa a entrar em tratamento. Mas houve um dado que o livro não pode esconder: os cinco estudos dessa revisão voltados a jogo tiveram taxas de entrada em tratamento consistentemente baixas. Ou seja, a melhor evidência de que dispomos para ajudar famílias vem sobretudo de álcool e drogas, e a sua aplicação ao jogo é promissora na lógica, mas não está demonstrada na prática. O que o estudo também mostrou é que os programas mais completos, com apoio individual e em grupo ao familiar, saem-se melhor. O familiar, nesse desenho, também é paciente: o que se treina e se acompanha é o cuidador.
O que você pode fazer
Escolha o momento. Não converse quando a pessoa acabou de perder, está em crise de culpa ou sob efeito de álcool, nem quando você está furioso. Escolha um horário em que ambos estejam calmos e tenham tempo. Comece por um fato concreto e pelo cuidado: "Eu vi o extrato, estou preocupado com você, e quero entender como posso ajudar". Evite perguntas que se resolvem em acusação ("por que você fez isso") e rótulos ("você é viciado"). Quem se sente atacado nega, e a negação é o que o produto sempre ensinou a pessoa a fazer.
Faça perguntas abertas e escute mais do que fala, no espírito da entrevista motivacional. Pergunte o que ela gostaria que fosse diferente e o que a preocupa. Quando ela mencionar uma razão para mudar, devolva isso a ela com as próprias palavras. A pessoa precisa ouvir a própria voz dizendo por que quer parar. Proponha o passo menor que cabe, uma consulta, uma reunião, uma conversa com o médico da família, e ofereça-se para ir junto.
Reforce o que for bom. Se a pessoa passou uma semana sem apostar, diga que notou e que valoriza. É contraintuitivo para quem está cansado e com raiva, e é exatamente o que o CRAFT ensina: a atenção positiva deve vir quando o comportamento desejado acontece, não só a atenção negativa quando falha.
O que não fazer
Não pague a dívida sem plano. Quitar o débito de jogo de um adulto, sem que haja tratamento, bloqueio de acesso e um acordo de mudança, é um dos erros mais comuns e mais compreensíveis. Na prática, remove a consequência que talvez fosse o único freio, devolve à pessoa um saldo limpo para começar de novo e transforma o dinheiro da família em novo combustível. Pagar pode ser a decisão certa em casos específicos, como evitar um despejo ou uma cobrança violenta, mas sempre dentro de um acordo escrito: quem paga, quanto, em troca de quê, com administração financeira por terceiro, e sem que isso comprometa o orçamento do resto da casa. Se o dinheiro vem de poupança de aposentadoria, de reserva dos filhos ou de um imóvel, converse antes com alguém de fora, um advogado, a Defensoria ou um profissional de finanças.
Não faça ultimato sem estrutura. "Ou você para ou eu vou embora" pode ser, em algum momento, um limite legítimo e necessário para a sua proteção. Mas, dito no calor, sem plano, ele se transforma em ameaça vazia que a pessoa aprende a testar, ou em ruptura que você não queria. Se o limite for real, formule-o com antecedência, em momento calmo, com uma consequência que você de fato vai cumprir e uma saída (o tratamento) claramente oferecida.
Proteger o resto da família
Esta parte costuma ser a mais negligenciada, porque soa como falta de confiança. Proteger o patrimônio da casa não é punição. É o equivalente a um cinto de segurança. Algumas medidas práticas, que variam conforme a situação e merecem orientação jurídica: separar as contas e os cartões, de modo que a pessoa em risco não tenha acesso a contas da família nem possa pedir crédito em nome dela; rever quem é titular ou avalista de empréstimos; pedir ao banco para reduzir ou cancelar limites; guardar documentos e senhas; e, em regimes de bens que o permitam, buscar orientação sobre o que pode ser protegido. Quem assinou como avalista ou fiador de uma dívida de outra pessoa tem responsabilidade jurídica por ela, e isso precisa ser conferido antes que a cobrança chegue. Para tudo isso, a Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita a quem atende aos critérios de renda, e um advogado de família pode orientar quem não atende.
Cuide também de você. O familiar de quem aposta passa por vergonha, medo e raiva, e muitos adoecem junto. Procure o seu próprio apoio: um grupo de familiares, uma consulta, uma conversa com alguém de confiança. O CRAFT parte da premissa de que o cuidador também precisa de cuidado, e a revisão de 2020 sugere que programas que o oferecem se saem melhor.
Do outro lado: pessoas que saíram
Casos de recuperação existem e são públicos, e contá-los sem romantizar é parte do trabalho. Na CPI das Bets, em 25 de março de 2025, o empresário André Rolim contou, segundo a Rádio Senado, que usou dinheiro da empresa da família para apostar, perdeu a casa e o carro, tinha dívidas com bancos e agiotas, passou quatro meses internado numa clínica e estava, na data, havia quatro anos sem apostar. O jornalista esportivo Leonardo Bertozzi, da ESPN, falou em outubro de 2026 sobre o tratamento que fez em 2025 e a volta ao trabalho, e destacou, segundo o resumo que li, que teve estrutura profissional e médica que muitas pessoas não têm, o que é uma lembrança sobre desigualdade de acesso. E há Ítalo Araújo, cuja história abriu o capítulo, com a recaída que a reportagem registra sem apagar.
O que esses relatos têm em comum, além do apoio de terceiros, é que nenhum descreve uma saída limpa. A recuperação aparece como uma sequência de decisões práticas, algumas delas com recaída pelo caminho, e como algo mantido por estruturas (reunião marcada, dinheiro administrado, gatilho removido) e não só por convicção. Se alguém da sua família recaiu, o recomeço é parte da regra, não prova de que nada funcionou.
Se você leu esta seção com um peso no peito, o CVV atende no 188 a qualquer hora, o SAMU no 192 em risco imediato, e o CAPS da sua cidade acolhe quem precisa.
Dívida: renegociar, proteger o mínimo e pedir ajuda
Quem apostou além do que podia costuma chegar a um ponto em que o problema deixa de ser apenas comportamental e se torna aritmético: há dívida, juros, cobrança. A boa notícia é que a lei brasileira tem instrumentos para isso, e muita gente não os conhece.
A Lei do Superendividamento
A Lei 14.181, de 1º de julho de 2021, alterou o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto da Pessoa Idosa (então Estatuto do Idoso) para tratar do superendividamento. A lei define como superendividamento a impossibilidade manifesta de o consumidor, pessoa natural e de boa-fé, pagar o conjunto de suas dívidas de consumo, vencidas e vincendas, sem comprometer o mínimo existencial (art. 54-A, § 1º). O mínimo existencial, a parcela da renda que preserva o necessário para viver com dignidade, é um direito do consumidor segundo o art. 6º, e o valor concreto depende de regulamentação por decreto, que já mudou desde 2021; confira o valor vigente antes de fazer qualquer conta.
A lei prevê um processo. A pedido do consumidor, o juiz pode instaurar a repactuação de dívidas e fazer uma audiência de conciliação com todos os credores. O consumidor apresenta um plano de pagamento com prazo máximo de cinco anos. Se um credor não comparece sem justificativa, a cobrança dessa dívida fica suspensa e os juros param de correr (art. 104-A, § 2º). Se a conciliação falha, o juiz pode impor um plano compulsório, que deve pagar ao menos o principal corrigido, em até cinco anos, com a primeira parcela em até 180 dias (art. 104-B). Os órgãos públicos de defesa do consumidor, como o Procon, podem fazer a conciliação por via administrativa, inclusive em audiência coletiva com vários credores (art. 104-C). O pedido não é declaração de insolvência civil e só pode ser repetido depois de dois anos.
Três limites precisam ser ditos. O primeiro: a lei exclui as dívidas contraídas de má-fé ou com a intenção de não pagar, e as de compra de bens e serviços de luxo de alto valor (arts. 54-A, § 3º, e 104-A, § 1º). Eu não sei, e não encontrei decisão que diga, como a Justiça trata sistematicamente dívidas decorrentes de aposta; a conversa com um advogado ou com a Defensoria deve começar por aí. O segundo: crédito com garantia real, financiamento imobiliário e crédito rural ficam fora do plano. O terceiro: a lei trata de dívidas de consumo, não de dívida com agiota, que costuma ser ilegal e cobrada com ameaça. Para isso, o caminho é a Defensoria, o Ministério Público ou a polícia, e nunca pagar sob ameaça sem orientação.
Desenrola: o que existe em outubro de 2026
O Desenrola é uma sequência de programas federais de renegociação de dívidas. A fase anterior voltada às famílias, o Novo Desenrola, encerrou as adesões em 31 de agosto de 2026. A versão em discussão agora é o Desenrola Brasil 3.0, criado pela Medida Provisória 1.393/2026, publicada no Diário Oficial da União em 25 de setembro de 2026, o mesmo dia da MP 1.394, das bets. (Parte da imprensa confundiu os dois números; a 1.393 é a do Desenrola.) A medida altera a Lei 14.690/2023 e, segundo as explicações que li, em vez de apenas facilitar a negociação direta entre credor e devedor, autoriza a União a comprar carteiras de dívidas em leilão, com desconto mínimo de 90% sobre o valor de cada carteira, e a transferir esse desconto ao devedor. O programa vai até 30 de junho de 2028 e a MP limita o gasto a R$ 15 bilhões.
As regras gerais lidas são: dívida de valor original inferior a R$ 10 mil, vencida há mais de 720 e menos de 1.645 dias, contados de 25 de setembro de 2026, de bancos ou de credores não bancários que podem negativar (serviços públicos, varejo, serviços). Mas há ressalvas importantes. A dívida só entra se o credor decidir vender aquela carteira; cumprir os critérios não garante a oferta. As fontes divergem sobre se o programa já opera ou se os acordos ao consumidor ficam para 2027. A MP autoriza a aquisição onerosa e a renegociação de carteiras de dívidas inadimplidas, mas deixa regras operacionais para atos do Ministério da Fazenda. Em 30 de outubro, a MP aguardava deliberação no Congresso. Como os critérios detalhados e a oferta ao consumidor dependem de regulamentação e da decisão dos credores de ceder carteiras, não trate as faixas divulgadas na imprensa como elegibilidade garantida. Também não confirmei se dívidas originadas de aposta, como cartão usado em plataformas, entram; o enquadramento depende do tipo de dívida e das regras operacionais. Se a MP perder eficácia, o programa também pode cair. O conselho prático é ver o canal oficial do governo federal quando o programa for operacionalizado e desconfiar de qualquer pessoa que cobre para "liberar" acesso.
Procon, Consumidor.gov.br e Defensoria
Três portas, em ordem de custo crescente. A primeira é renegociar diretamente com o credor, por canais registrados por escrito, e pedir proposta por escrito. Guarde tudo. A segunda é o Procon do seu estado ou município, que pode mediar e, nos termos da Lei 14.181, conduzir conciliação administrativa com vários credores. A plataforma Consumidor.gov.br, do governo federal, permite abrir reclamação contra empresas participantes, o que costuma gerar resposta mais rápida do que o atendimento comum. A terceira é a Defensoria Pública, que oferece orientação e atuação jurídica gratuitas a quem se enquadra nos critérios de renda e pode ajuizar a repactuação de dívidas do superendividamento. Nem sempre a Defensoria tem núcleo especializado na sua cidade, e a fila pode ser longa; ligue ou compareça cedo.
Duas regras gerais de proteção. A primeira é nunca pagar "taxa de liberação" a alguém que promete limpar nome ou renegociar sem advogado: o golpe do "limpa nome" cresce em momentos de programa federal. A segunda é não assinar renegociação que pareça parcela suportável sem checar o custo total, porque o alongamento sem desconto de juros pode dobrar o valor final. A conta que fecha é: valor da dívida hoje, número de parcelas, valor da parcela e soma total. Se a soma total for muito maior que a dívida, o desconto não existe.
Telas em casa, entre adultos
O capítulo 16 trata de crianças e adolescentes, com conselhos para pais e escolas, e eu não vou repeti-lo. Aqui o foco é o adulto, que tem a seguinte vantagem sobre a criança: pode negociar. E tem a seguinte desvantagem: não existe quem imponha regra a ele. A solução é transformar regra em combinado.
Um combinado funciona por três propriedades. Ele é específico: em vez de "menos celular", algo como "celular carregando na sala a partir das 22h". É mútuo, vale para quem propõe, o que impede que vire controle do mais forte sobre o mais fraco. E tem revisão, uma data para avaliar o que funcionou.
O celular fora do quarto é o combinado de maior retorno por esforço. O capítulo 10 mostrou que a notificação é o principal convite do produto, e o quarto, à noite, é onde a decisão é mais fraca: cansaço, solidão, tempo livre. Um despertador barato desmonta o argumento de que "preciso do celular para acordar", e carregar o aparelho em outro cômodo cria um ponto de parada físico que nenhum aplicativo substitui. Quando o celular precisa ficar no quarto por trabalho ou saúde, deixe-o longe da cama, de tela para baixo, em modo de foco.
O segundo combinado é o padrão de notificações desligado, já descrito. O terceiro é a refeição sem tela, o mais frágil e o mais cobrado. O quarto é a conversa franca sobre o que cada um usa e por quê, porque quem trabalha com redes tem um uso diferente de quem só rola o feed.
Uma ressalva de honestidade: não há prova sólida de que esses hábitos específicos mudem desfechos de saúde mental em adultos, e o debate do capítulo 4 sobre "vício em celular" segue sem consenso. O argumento é prático: o custo é baixo, o sono é um alvo plausível e você descobre quanto do uso era automático. Combinado entre adultos não é tratamento. Se o problema é aposta ou dívida, a resposta é o capítulo inteiro.
Verdades desconfortáveis
A primeira é que boa parte das defesas descritas aqui funciona justamente por ser incômoda, e é por isso que as pessoas as desligam. O produto vive de tirar o atrito, e você só ganha se o atrito for real o suficiente para doer um pouco. Quem escolhe o bloqueio mais fácil de desfazer está escolhendo, sem perceber, a derrota.
A segunda é que a defesa individual é um remédio injusto para um problema coletivo. Os capítulos 15 e 17 mostraram que o dano se concentra numa minoria que perde muito, e que as melhores medidas funcionam quando valem para todos. Pedir a cada pessoa que construa o seu próprio mastro é pedir que ela pague um custo que a empresa não paga. O livro defende que você se proteja e, ao mesmo tempo, diz que essa proteção não deveria ser necessária no nível em que é.
A terceira é que o tratamento tem evidência de curto prazo melhor que a de longo prazo, e que a recaída é comum. Isso não é uma razão para desistir. É uma razão para tratar a recuperação como manutenção, e para não condenar quem recai.
A quarta é que a proibição das apostas de quota fixa, se for mantida, não encerra este capítulo. O mercado ilegal e o do exterior não têm autoexclusão, nem fiscalização de publicidade, nem para quem reclamar; e outros produtos de risco, como o jogo do bicho online, os jogos de azar disfarçados de jogo e as plataformas de cripto alavancadas, seguem existindo. A atenção do leitor deve ir do endereço do produto para a estrutura da própria vida.
Para quem constrói
Se você trabalha em produto, growth, marketing, fintech ou jogo, este capítulo também é para você, porque descreve o que o seu cliente mais vulnerável faz para se proteger de você. Um checklist curto:
- Ofereça limites de tempo, de depósito e de gasto que o usuário possa definir, e faça com que o aumento só valha depois de um prazo de espera. O limite que sobe com um toque não é limite.
- Permita bloqueio feito por terceiro: um código ou uma configuração que o usuário possa entregar a alguém de confiança. É o mastro de Ulisses como funcionalidade.
- Torne a saída tão fácil quanto a entrada. Cancelamento, exclusão de conta e autoexclusão que exigem mais passos que o cadastro são sinal de que o produto cruzou a linha.
- Respeite as ferramentas do sistema operacional: não construa o app para driblar o Tempo de Uso ou o Bem-estar Digital, nem desenhe notificações para furar o modo de foco.
- Não use dados de comportamento para aumentar a pressão sobre quem mostra sinais de perda de controle: aumento de depósitos após perdas, sessões longas à noite, recarga logo depois de saque cancelado. Use-os para reduzir a pressão, interromper ou oferecer ajuda.
- Métrica que denuncia: a proporção da receita que vem de uma pequena fração de usuários e o número de pedidos de limite, bloqueio ou exclusão que ficam sem resposta. Se você nunca olha para isso, não sabe o que o produto está fazendo.
Para quem se defende
Um checklist para ler sem pressa e executar em ordem.
- Celular: ative o Tempo de Uso (iPhone) ou o Bem-estar Digital (Android), peça a uma pessoa de confiança que defina o código ou a configuração sem lhe contar, e ponha limites nos apps que mais lhe tomam tempo.
- Notificações: desligue tudo e religue só mensagens de pessoas, ligações e o banco.
- Cor: teste a escala de cinza por duas semanas.
- Apps: apague os de aposta, corretora e jogos que você sente que usa além do que quer; saia das contas e apague o cartão salvo.
- Banco: peça por escrito o que há de bloqueio por categoria, limite de Pix por transação e por horário, e quanto demora para aumentá-lo. Reduza limites de cartão e de cheque especial.
- Pessoas: conte a alguém. Se o assunto for aposta, considere uma reunião dos Jogadores Anônimos e uma consulta no CAPS, na unidade básica de saúde ou no PRO-AMJO.
- Dinheiro: se há dívida, junte contratos e extratos, calcule o valor total, procure o Procon ou a Defensoria antes de pagar qualquer intermediário e confira o valor vigente do mínimo existencial.
- Família: proponha um combinado de telas que valha para todos os adultos da casa, com revisão em um mês.
- Se estiver mal: CVV 188, a qualquer hora; SAMU 192 em risco imediato; CAPS ou unidade básica de saúde da sua cidade.
Exercícios
- Faça o inventário dos pontos de parada da sua vida digital: liste os cinco apps em que você mais gasta tempo ou dinheiro e, para cada um, escreva o que existe hoje entre você e o uso (senha, demora, limite, nada). Entregue uma tabela de uma página e marque onde não há nada.
- Escreva três regras "se-então" para a sua situação real (horário, lugar, emoção) e use-as por duas semanas, anotando quantas vezes cada uma disparou e se funcionou. Se não funcionou, reescreva.
- Monte um contrato de compromisso de uma página para uma meta sua (não precisa ser jogo): meta, prazo, quantia, árbitro e destino do dinheiro em caso de falha. Mostre ao árbitro e peça que ele aponte a brecha.
- Ligue ou escreva para o seu banco e registre as respostas às três perguntas sobre bloqueio por categoria, limite de Pix e prazo para aumentá-lo. Entregue um resumo e uma avaliação: o banco torna a decisão fria ou a decisão quente mais fácil?
- Em família, redija o combinado de telas dos adultos da casa em dez linhas, com horário, lugar, exceções e data de revisão, e teste por uma semana. Entregue o texto e três ajustes que a prática mostrou.
Prompt de estudo
Atue como um pesquisador cético em tratamento de transtorno do jogo. Compare, em linguagem leiga, o que a meta-análise de Pfund e colegas (Addiction, 2023), a revisão Cochrane de Cowlishaw e colegas (2012) e a revisão Cochrane de Dowling e colegas (2022) dizem sobre terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional e medicação. Aponte o que cada uma não consegue responder e que tipo de estudo faltaria. Não dê conselho clínico.
Tenho um familiar adulto que está apostando além do que pode e eu não sei como conversar com ele. Usando o que se sabe sobre CRAFT e entrevista motivacional, me ajude a ensaiar a conversa: peça primeiro o contexto, depois me dê três aberturas possíveis, três reações prováveis dele e como responder a cada uma sem acusar nem ceder. Diga claramente o que você não sabe sobre o meu caso e quando eu devo procurar um profissional.
Fontes e leituras
- Metrópoles. Reportagem sobre o ex-zagueiro Ítalo Araújo e a recuperação do vício em apostas, 18 de julho de 2026.
- Rádio Senado. Cobertura da oitiva do empresário André Rolim na CPI das Bets, 25 de março de 2025 (li o resumo da matéria).
- Reportagem da ESPN sobre Leonardo Bertozzi, outubro de 2026 (li o resumo, não o texto integral).
- Giné, X.; Karlan, D.; Zinman, J. "Put Your Money Where Your Butt Is: A Commitment Contract for Smoking Cessation". American Economic Journal: Applied Economics, 2(4), 2010, pp. 213–235. Resumo e números conferidos na página do J-PAL sobre o estudo CARES.
- Gollwitzer, P. M.; Sheeran, P. "Implementation intentions and goal achievement: a meta-analysis of effects and processes". Advances in Experimental Social Psychology, 38, 2006, pp. 69–119. A revisão de 2024 (Sheeran, Listrom e Gollwitzer) foi conhecida apenas por fontes secundárias.
- Auer, M.; Griffiths, M. D. "Voluntary limit setting and player choice in most intense online gamblers". Journal of Gambling Studies, 29(4), 2013. Auer, M.; Hopfgartner, N.; Griffiths, M. D. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 23(2), 2020 (li apenas os resumos truncados).
- Cowlishaw, S. et al. "Psychological therapies for pathological and problem gambling". Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012.
- Pfund, R. A. et al. "Effect of cognitive-behavioral techniques for problem gambling and gambling disorder: a systematic review and meta-analysis". Addiction, 118(9), 2023, pp. 1661–1674.
- Dowling, N. et al. "Pharmacological interventions for the treatment of disordered and problem gambling". Cochrane Database of Systematic Reviews, 2022 (li apenas o resumo parcial). Mouaffak, F. et al. European Addiction Research, 2017. Neven, A. et al. Tijdschrift voor Psychiatrie, 2026 (resumo parcial).
- Archer, M.; Harwood, H.; Stevelink, S.; Rafferty, L.; Greenberg, N. "Community reinforcement and family training and rates of treatment entry: a systematic review". Addiction, 115(6), 2020, pp. 1024–1037.
- Brasil. Lei 14.181, de 1º de julho de 2021 (superendividamento), texto no Planalto. Lei 8.078/1990 (CDC), arts. 6º, 54-A a 54-G e 104-A a 104-C.
- Brasil. Medida Provisória 1.393/2026 (Desenrola Brasil 3.0), página do Congresso Nacional lida em 30 de outubro de 2026. Medida Provisória 1.394/2026 (apostas de quota fixa), DOU de 25 de setembro de 2026.
- Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Páginas do órgão e da autoexclusão, lidas em 30 de outubro de 2026.
- Apple. Central de ajuda do Tempo de Uso (iPhone e iPad). Google. Central de ajuda do Bem-estar Digital.
- Universidade de Bristol. A Blueprint for Bank Card Gambling Blockers (relatório). Money and Mental Health Policy Institute. "Gambling blocks: the odds are your bank now offers one", 14 de novembro de 2019.
- Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Páginas sobre o PRO-AMJO e o transtorno do jogo.
- Para os mecanismos de fundo, capítulos 1, 3, 10, 15, 16 e 17 deste livro.