Tema
8. Boticário: a franquia como canal
Uma quinta-feira de julho, e um filme de trinta segundos
Em 16 de julho de 2015, uma quinta-feira, o Conselho de Ética do Conar, o órgão de autorregulamentação da publicidade brasileira, reuniu-se para julgar um filme de televisão. O comercial tinha estreado em 24 de maio, produzido pela agência AlmapBBDO para O Boticário, para o Dia dos Namorados. Mostrava casais trocando presentes da marca. Havia casais de homens e mulheres e casais do mesmo sexo, e a campanha falava em formas de amor, no plural.
A reação foi imediata e dividiu o país. De um lado, pessoas que acharam o filme uma homenagem ao respeito. De outro, pessoas que acharam o filme um desrespeito à família e que pediram boicote à marca. Segundo o G1 e outros veículos da época, entre 20 e 30 reclamações chegaram ao Conar, e, segundo a cobertura, o próprio órgão registrou que as reclamações alegavam desrespeito à família. O processo recebeu o número 088/2015. Na reunião de 16 de julho, o Conselho decidiu por unanimidade arquivar o caso, e o comercial foi mantido no ar.
O livro não vai entrar no mérito do debate cultural, e a decisão do Conar também não entrou. O Conar julga se uma peça publicitária cumpre o código de ética da publicidade, e concluiu que esta cumpria. O que interessa a este capítulo é uma pergunta de estrutura, que o episódio faz com clareza. Quem decidiu a campanha? Uma empresa em Curitiba, a franqueadora. Quem atende o cliente que gostou ou não gostou do comercial? A pessoa atrás do balcão de uma das milhares de lojas, boa parte delas pertencente a um empresário independente, o franqueado.
Uma rede de franquia é isso: uma marca nacional, com uma voz nacional, e uma operação local com dono local. A campanha fala com milhões de pessoas por vez, mas a venda acontece em cada loja, e a loja não é do franqueador. O franqueado herda a reputação da marca sem ter escolhido o comercial. O franqueador herda a qualidade do atendimento sem ter contratado o vendedor. Cada lado depende do outro, e nenhum controla o outro por completo.
É por isso que a história do Boticário é a melhor do livro para estudar canal. A empresa começou como uma farmácia de manipulação, uma loja só, e se tornou, em quatro décadas, um grupo com mais de quatro mil lojas próprias e franqueadas, segundo o próprio grupo, e vendas ao consumidor de R$ 38,1 bilhões em 2025. A tese deste capítulo é que o canal é tão estratégico quanto o produto, e que a rede de franqueados é uma aliança: dura enquanto os dois lados ganham, e quando um deles sente que perde, o contrato vira campo de disputa.
O que você vai levar deste capítulo
Canal é tão estratégico quanto produto: o Boticário cresceu porque descobriu cedo como fazer outras pessoas abrirem lojas com a sua marca, e não por ter um cosmético melhor que todos.
A franquia funciona como aliança de interesses. O franqueador ganha capilaridade sem pôr todo o capital. O franqueado ganha marca, método e produto. Quando a conta de um dos lados deixa de fechar, o contrato é testado em juízo.
Vender para a rede é diferente de vender para o consumidor. A empresa precisa de dois clientes: o franqueado, que compra, e o consumidor, que leva para casa. Perder o primeiro é perder o segundo.
Multimarcas e múltiplos canais ajudam o grupo a crescer, mas o crescimento de vendas pode esconder desaceleração. Em 2025, o grupo cresceu 7% em vendas ao consumidor, contra um ritmo bem maior nos anos anteriores.
Curitiba, 1977: a farmácia que virou fábrica
O caso: a manipulação
O Boticário nasceu em 22 de março de 1977, no centro de Curitiba, quando o farmacêutico Miguel Krigsner abriu uma farmácia de manipulação com o nome de O Boticário. Manipular, no ofício farmacêutico, é preparar a fórmula prescrita pelo médico para um cliente específico: o farmacêutico pesa, mistura e entrega. É um negócio de balcão e de confiança, com pouca escala. Cada receita é um pedido sob medida.
O passo que mudou a história foi trocar o pedido sob medida pelo produto repetível. Segundo o relato institucional da empresa, Krigsner passou da manipulação de receitas à produção de produtos com marca própria. Começou batendo cremes numa batedeira que a irmã tinha ganhado de presente de casamento. Os primeiros itens foram um creme hidratante, um shampoo, uma espuma de banho à base de algas e a colônia Acqua Fresca. A história da batedeira vem da própria empresa e é contada com orgulho, como mito de origem. Convém lê-la assim: é uma narrativa institucional plausível, e o livro não tem outra fonte que a confirme.
O valor econômico do salto é fácil de ver. Quem manipula vende uma fórmula a uma pessoa. Quem produz e embala vende a mesma fórmula a muitas, com marca, preço e prazo conhecidos. A margem unitária pode ser menor, mas o volume cresce, e a marca passa a trabalhar sozinha na cabeça do cliente. É a diferença entre o artesão e a indústria, e o Boticário a atravessou ainda na primeira década.
A loja no aeroporto e a primeira franquia
Em 1979, segundo o site da empresa, abriu a primeira loja exclusiva da marca, num aeroporto da região de Curitiba. A escolha do lugar era esperta: passageiros e tripulações levavam a marca para outras cidades, e a loja funcionava como vitrine nacional sem exigir uma rede nacional. Uma observação de cautela sobre o local: as fontes variam entre o aeroporto de Curitiba, o Afonso Pena e a região metropolitana, e o livro fica com a forma genérica.
A passagem de uma loja para uma rede veio com a franquia. Segundo a literatura acadêmica sobre a empresa, o Boticário começou a franquear por volta de 1980, com a primeira unidade franqueada em Brasília. O ano e o local vêm de estudos acadêmicos e não de documento da empresa, e o capítulo os usa como indicação aproximada. O sentido da decisão é o que importa: em vez de abrir lojas com capital próprio, o fundador convidou outros empresários a abrir lojas com a marca dele, o produto dele e o método dele.
A literatura acadêmica sobre a empresa afirma que Krigsner esteve entre os fundadores da Associação Brasileira de Franchising, a ABF. O livro registra a informação com ressalva, porque vem de relato acadêmico. Aceitando-a ou não, o ponto histórico é que o Boticário foi uma das redes brasileiras que ajudaram a dar forma ao franchising no país.
Em 1982, segundo a mesma literatura, a empresa inaugurou sua primeira fábrica, e o complexo industrial acabou concentrado em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. A fábrica própria importa para o argumento do capítulo por uma razão: quem franqueia sem controlar a produção depende de terceiros para entregar o produto, e quem controla a produção pode prometer ao franqueado um produto de qualidade uniforme.
O mecanismo da franquia
O mecanismo: capital dos outros, marca sua
Para entender por que a franquia vale a pena, faça a conta pelos dois lados. Os percentuais abaixo são inventados para a conta fechar, e não correspondem a nenhum contrato do Boticário, cujas condições o livro não conseguiu confirmar.
Cenário ilustrativo. Um franqueado abre uma loja que fatura R$ 1,2 milhão por ano. Suponha que pague ao franqueador 5% de royalties e 2% de contribuição para o fundo de propaganda, ambos sobre o faturamento: R$ 60 mil mais R$ 24 mil, ou R$ 84 mil por ano. Suponha também que compre o produto do franqueador com uma margem bruta de 50% para a loja, ou seja, R$ 600 mil de lucro bruto antes das despesas. Dele saem aluguel, salários, energia, impostos e o que sobrar é o resultado do franqueado. O franqueador, por sua vez, recebe os R$ 84 mil e, principalmente, vende ao franqueado a mercadoria que a fábrica produziu, com a margem industrial.
Veja o que cada lado ganha. O franqueador cresce sem investir no ponto, na reforma, no estoque da loja e na folha de pagamento. O capital de abertura é do franqueado. A cada loja nova, o franqueador aumenta o volume que a fábrica vende e a força da marca na vizinhança. O franqueado ganha uma marca conhecida, um produto com demanda formada, treinamento e um método que reduz o risco de errar, mas paga por isso em royalties e na obrigação de seguir regras: o que vender, a que preço sugerido, com que padrão de loja.
A tensão estrutural está aí. O franqueador ganha com o faturamento da loja e com a venda de produtos a ela. O franqueado ganha com a margem que sobra depois das despesas. Se o franqueador empurra mais produto para a loja, o faturamento do franqueador sobe, mas o estoque do franqueado também, e a margem real dele pode cair. Se o franqueador abre uma loja nova perto, a marca ganha cobertura, mas a loja antiga perde cliente. Nada disso é desonestidade. São conflitos de interesse embutidos na estrutura, e todo contrato de franquia precisa administrá-los.
O que muda quando a rede é grande
O tamanho muda a natureza do problema. Uma rede com dezenas de lojas pode ser administrada por relação pessoal, e o fundador conhece cada franqueado. Uma rede com milhares precisa de processo: manual, consultoria de campo, sistema de pedido, indicadores por loja. Segundo a ABF, o Boticário tem hoje um programa de sucessão que atende mais de 900 franqueados, o que ilustra o grau de formalização. Chamado "Futuro em Nossas Mãos" e criado em 2011, ele prepara herdeiros para assumir lojas de pais ou de familiares. A sucessão é um assunto central para uma rede antiga, porque o franqueado que abriu uma loja nos anos 1980 já está na segunda geração.
A rede, aliás, é gigante. Em 2012, segundo a Gazeta do Povo, o Boticário somava 3.260 lojas e uma receita de R$ 5,5 bilhões. Em 2025, segundo a ABF, eram 3.898 operações da marca O Boticário no país. O número de lojas cresceu menos do que se imagina em treze anos. O crescimento do grupo veio de outra parte: de novas marcas, novos canais e de mais produto vendido por loja.
Os profissionais e a governança
Grynbaum e a passagem do fundador para a empresa
Toda empresa de fundador chega a um ponto em que o fundador precisa ceder lugar a uma estrutura. No Boticário, a figura central dessa passagem é Artur Grynbaum. Segundo a ABF, ele entrou na empresa em 1986 como assistente financeiro para estruturar o sistema de franquias. Em 1992 tornou-se sócio de Krigsner, com 20% da empresa. Em 1995, segundo o mesmo relato, reformulou processos logísticos e a estrutura da empresa, o faturamento cresceu oito vezes em uma década e nasceu o Grupo Boticário.
Em 2008, depois da implantação de governança corporativa, Krigsner passou a presidir o conselho de administração, e Grynbaum foi eleito presidente da franqueadora. Com o novo modelo de gestão adotado a partir de março de 2021, Grynbaum deixou o cargo de CEO, assumido por Fernando Modé, e passou a vice-presidente do conselho de administração, ao lado de Krigsner, que segue como presidente, segundo a Mercado & Consumo de 26 de agosto de 2021. O livro não conferiu a mudança em documento do grupo.
Do ponto de vista de gestão, o que importa é o desenho. Uma empresa fechada, controlada por um fundador, adotou conselho e profissionalizou a gestão antes de a segunda geração precisar dela. Compare com o capítulo da Havan, em que o rosto do dono é o ativo central. No Boticário, o fundador é conhecido, mas a marca se desligou da pessoa dele. Isso torna a empresa menos dependente de uma biografia.
O caso: a multimarca como resposta ao teto
Uma rede de franquias de uma só marca tem um teto. Chega um momento em que não há mais cidade grande sem uma loja da marca, e abrir outra canibaliza as existentes. A saída é ampliar o que se vende por meio da rede e fora dela. O Grupo Boticário fez as duas coisas.
Em 15 de fevereiro de 2011, segundo o G1, lançou a Eudora, marca de perfumaria e cosméticos que combina venda direta, por consultoras, com lojas próprias. Em 9 de agosto de 2012, segundo a Exame e o Estadão, lançou a Quem Disse, Berenice?, marca de maquiagem com cerca de 500 produtos, aberta em lojas próprias em São Paulo operadas por franqueados do Boticário. A cadeia The Beauty Box, rede física de lojas, aparece em reportagens de 2012. Hoje, com esse nome, o que existe é o programa de fidelidade Beautybox, que o grupo apresenta como multimarca, e o livro trata a homonímia com cuidado.
Depois vieram as compras. Em 2018, a Vult, de maquiagem, vendida em farmácias, segundo o Valor. Em 2019, a loja virtual Beleza na Web. Em 2021, a O.U.i, de perfumaria premium. Em 2022, a Dr. Jones, de cuidados masculinos. Entre o fim de 2022 e janeiro de 2023, a Truss Professional, de cabelos profissionais, com aprovação do Cade. A Au.migos pets, de cuidados com animais, aparece em 2023. A data exata e a natureza de cada operação, se aquisição integral, participação ou criação de marca, variam na documentação consultada, e o livro as descreve apenas como entradas no portfólio.
O resultado é um grupo que vende por vários canais ao mesmo tempo. Segundo o Seu Dinheiro, os pontos de venda para consumidor, que eram 30 mil em 2021, chegaram a 160 mil em 2024, incluindo farmácias, perfumarias e lojas de departamento. Para 2025, o release do grupo fala em 160 mil pontos de venda no canal de venda a varejistas, mais 40 mil salões no canal profissional. O relato integrado do grupo cita mais de 130 mil pontos de venda totais, e outros documentos apontam 200 mil pontos não proprietários. Os números variam conforme o critério, e o livro os usa só como ordem de grandeza.
O mecanismo: quando um canal compete com o outro
Cada canal novo resolve um problema e cria outro. A loja franqueada é a vitrine da marca e o lugar onde a experiência é controlada. A venda direta, como na Eudora, alcança a cliente que não passa na loja e transforma consultoras em vendedoras. A farmácia e a perfumaria multimarca, onde a Vult e outras marcas entram, colocam o produto onde a pessoa já está comprando outra coisa. O e-commerce, como o da Beleza na Web, vende a qualquer hora e a qualquer lugar.
O conflito está no cliente e no preço. Se a mesma marca está na loja do franqueado, no site e na prateleira da farmácia, quem fez a venda? Um desconto no canal digital afasta o cliente da loja física. Uma promoção na farmácia pressiona o preço de quem pagou aluguel de ponto. Por isso o desenho de portfólio importa tanto quanto o desenho do canal: marcas diferentes para canais diferentes reduzem a disputa, porque o franqueado de uma marca não vê a outra na vitrine ao lado. A informação de que a Quem Disse, Berenice? está presente em mais de 1.300 lojas do Boticário, segundo o grupo, mostra a outra face dessa lógica: usar a rede existente como porta de entrada de uma marca nova, o que dá escala imediata e exige que o franqueado aceite vender mais uma linha.
Uma fundação que antecede a moda
Em 1990, Krigsner criou a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, segundo o site da fundação, antes da conferência Rio-92. Em 2025 ela completou 35 anos, e o relatório de atividades da própria fundação fala em cerca de 11 mil hectares de reservas. Os números são da instituição e não foram auditados por este livro. Para a história de canal e marca, o ponto é outro: a empresa construiu cedo uma imagem de cuidado com a natureza que combina com um negócio de cosméticos e que serve de argumento para o consumidor e de orgulho para a rede. Marca é soma de produto, canal e causa, e a causa só se sustenta quando é anterior à moda.
O número que o grupo mostra, e o que ele esconde
O mecanismo: GMV não é receita
O Grupo Boticário é uma empresa fechada. As demonstrações financeiras completas não são publicadas, segundo o próprio relato integrado, e o número que a comunicação do grupo destaca é o GMV, sigla de gross merchandise value, em português valor bruto de mercadorias. Neste caso, o GMV é a soma das vendas ao consumidor final em todos os canais, inclusive as feitas por franqueados e por parceiros. Esse número não é a receita do grupo. Quando um franqueado vende um perfume a R$ 200, o GMV soma R$ 200. A receita do grupo é o que ele recebe pela venda ao franqueado, a uma fração disso.
A distinção aparece quando se compara os dois números de 2025. Segundo o release do grupo e o Seu Dinheiro (não há demonstração auditada pública), o GMV foi de R$ 38,1 bilhões, a receita líquida de R$ 9,9 bilhões, alta de 12%, e o lucro líquido de R$ 1,69 bilhão, alta de 27,3%. A receita líquida equivale a cerca de um quarto do GMV, e essa proporção reflete o modelo de franquia: boa parte do valor vendido ao consumidor fica com a cadeia, e não com o grupo. Quem lê só o GMV superestima o tamanho da empresa como contabilidade, mas descreve bem o tamanho do negócio como sistema.
A tabela abaixo reúne os números de GMV divulgados pelo grupo.
| Ano | GMV do grupo | Observação |
|---|---|---|
| 2022 | R$ 23,6 bilhões | Valor, abril de 2023 |
| 2023 | R$ 30,8 bilhões | Valor International |
| 2024 | R$ 35,7 bilhões | Release de março de 2025 |
| 2025 | R$ 38,1 bilhões | Release de abril de 2026 |
Veja o que os números dizem. De 2022 para 2023 o crescimento foi de cerca de 30%. De 2024 para 2025, de cerca de 7%. A desaceleração é visível, e a imprensa a atribui ao cenário de juros altos e consumo menos forte. Os releases do grupo apresentam taxas de crescimento que nem sempre batem com a conta direta entre os números divulgados, por exemplo no ano de 2024, e o livro prefere calcular a partir dos valores absolutos e não repetir a taxa de cada comunicado.
O mecanismo: inovação como defesa
Uma empresa de beleza compete em lançamentos. Segundo o Seu Dinheiro, em agosto de 2026, o grupo lança novos produtos a cada 21 dias, e 27% das vendas vêm de itens lançados há menos de um ano. A lógica é de moda: o consumidor quer novidade, e o varejista que não renova a vitrine perde o fluxo. Para o franqueado, isso significa um estoque que envelhece rápido e uma dependência do ciclo de lançamentos do franqueador.
O grupo também investe na capacidade produtiva. Segundo a mesma reportagem, uma nova fábrica em Pouso Alegre, em Minas Gerais, com investimento de R$ 1,8 bilhão, deve operar até 2028 e aumentar a capacidade em 50%. Em dezembro de 2025, segundo o Seu Dinheiro, o grupo emitiu R$ 2 bilhões em debêntures. São decisões que mostram a aposta em crescer no canal que ele controla melhor, a produção, e em se financiar no mercado de dívida em vez de abrir o capital.
Quando a aliança se rompe
O caso: os franqueados em juízo em 2015
O mesmo ano da campanha do Dia dos Namorados registrou dois conflitos entre o grupo e franqueados, documentados em decisões e reportagens. Eles mostram a franquia no seu ponto mais tenso.
O primeiro é o de Resende, no Rio de Janeiro. Segundo a ConJur, de 23 de julho de 2015, um franqueado com seis lojas do Boticário em Resende, Itatiaia e Porto Real, além de um ponto de venda direta com cerca de 500 consultoras, mantinha uma relação de cerca de 30 anos com o grupo. Questionou algumas diretrizes comerciais da empresa. A empresa então alegou falta de pagamento e notificou: 48 horas para pagar e 30 dias para fechar as lojas. Em 7 de julho de 2015, o juiz da 1ª Vara Cível de Resende concedeu liminar proibindo a rescisão, por risco de dano grave e de difícil reparação ao franqueado, aos empregados e às consultoras. Em 14 de julho, elevou a multa diária por descumprimento de R$ 500 para R$ 5 mil, e o advogado do franqueado afirmou que a empresa não cumpriu a decisão, inclusive quanto a pedidos de reposição de produtos. O grupo recorreu, e em 20 de julho de 2015 o relator no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido de suspensão da liminar. Ele citou o dever de cooperação e a proteção da parte mais fraca, a função social do contrato e a boa-fé objetiva. O grupo respondeu que cumpre a lei e as decisões judiciais e não comentou o caso em andamento. O desfecho final da ação não foi localizado.
O segundo é o do grupo Hannan, em São Paulo. Segundo o Diário do Comércio, em outubro de 2015 o grupo notificou o fechamento de 14 lojas de um franqueado. O franqueado alegou asfixia por suspensão de fornecimento e foi à Justiça para manter o abastecimento. O grupo sustentou que a rescisão era legítima. Não encontrei sentença pública sobre o caso.
Duas coisas precisam ser ditas com clareza. A primeira: nos dois casos, o que existe é a versão de cada lado, e a Justiça só apreciou, nos documentos consultados, o pedido cautelar de Resende. Não há decisão final aqui, e o livro não presume quem estava certo. A segunda: dezenas de ações contra a franqueadora aparecem em plataformas jurídicas, com temas como práticas abusivas e cadastro de inadimplentes, e o livro não analisou caso a caso. Uma empresa com milhares de contratos tem litígio. O número de ações, sem contexto, não prova nada contra ela.
O mecanismo: o contrato de longo prazo e a parte mais fraca
O contrato de franquia no Brasil tem regras próprias, e a decisão de Resende mostra como o Judiciário as lê. A relação de 30 anos cria deveres que vão além do que está escrito no contrato. O dever de cooperação e a boa-fé objetiva significam que o franqueador, mesmo com razão formal para rescindir, não pode agir de modo que destrua o franqueado sem proporcionalidade. O argumento, na decisão, é de proteção da parte mais fraca.
Do ponto de vista de gestão, isso tem uma consequência prática. A rede de franqueados é um ativo que depende de confiança, e a confiança se mede em decisões difíceis. A forma como o franqueador trata o franqueado em dificuldade é lida por todos os outros. Cada rescisão contestada ensina à rede se a aliança é de verdade. Rede que perde a confiança do franqueado perde também o capital dele para novas lojas, a energia dele para o atendimento e, no fim, o consumidor.
O lado escuro
O primeiro ponto é o equilíbrio de poder dentro da rede. O franqueador define marca, mix, campanhas e abastecimento. O franqueado assume aluguel, folha e estoque. Quando surge conflito, os dois casos de 2015 mostram que o franqueado pode acabar com fornecimento suspenso e com ações judiciais para tentar mantê-lo. Isso não prova abuso em nenhum caso específico, mas descreve a assimetria que qualquer interessado em abrir uma franquia precisa pesar antes de assinar.
O segundo é a divulgação limitada. Por ser empresa fechada, o grupo não publica demonstrações completas, e as informações financeiras que o leitor encontra são as que a assessoria do grupo escolhe divulgar. O GMV é um número real e útil, mas é também o número mais favorável de se mostrar. Quem decide investir ou fazer negócios com o grupo deve olhar além dele.
O terceiro é a polarização, que a campanha de 2015 ilustra. Uma marca nacional que escolhe posicionar-se em temas sensíveis recebe aplausos e boicotes, e o custo dessa escolha se distribui pela rede, inclusive por quem não participou da decisão. O livro não afirma que lojas foram prejudicadas, porque não localizou dados sobre o efeito nas vendas. Afirma que a estrutura de franquia espalha o risco de reputação entre muitos donos.
O quarto é a cadeia de produção. O relato integrado do grupo descreve metas ambientais e auditorias na cadeia de fornecedores. Nas fontes abertas nacionais que consultei, não encontrei denúncias trabalhistas específicas contra fábricas do grupo. Ausência de achado não é prova de ausência de problema, e o livro apenas registra o que encontrou.
Por fim, a presunção de inocência. Não há, nos episódios descritos, condenação penal de executivos do grupo. Os conflitos documentados são cíveis ou contratuais, e o da campanha foi resolvido no âmbito da autorregulamentação publicitária.
Hoje
Em outubro de 2026, o Grupo Boticário se apresenta como líder do mercado brasileiro de beleza, em medição da NielsenIQ citada pelo próprio grupo, e a Euromonitor, segundo o Seu Dinheiro, o mostra a 0,2 ponto percentual atrás da Natura em outra medição. Duas métricas diferentes dão resultados diferentes, o que é normal nesse tipo de ranking. O grupo informa mais de quatro mil lojas, com presença em 16 países fora do Brasil, e 26 milhões de clientes ativos no programa de fidelidade Beautybox. Em 2025, segundo o grupo, o Boticário abriu 113 lojas, e a Eudora abriu dez, chegando a vinte. O Quem Disse, Berenice? está presente em mais de 1.300 lojas do Boticário. Miguel Krigsner é presidente do conselho. A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, criada em 1990, completou 35 anos em 2025.
O grupo é de capital fechado, e a discussão sobre abrir o capital não se aplica da mesma forma que no caso da Havan. A comparação com a Natura, tema do próximo capítulo, é recorrente na imprensa: a reportagem do Seu Dinheiro contrasta um crescimento do Boticário com a queda de 82% no lucro e de 9,1% na receita da Natura no último trimestre analisado, atribuída pelo CEO da Natura em parte a problemas internos de integração de marcas. Isso é um dado de um trimestre e de uma reportagem, e o livro não generaliza.
A lição para o seu negócio
Franquia é para quem quer crescer com capital dos outros, e o preço é perder controle direto. Se você pensa em franquear, em ser franqueado ou em montar uma rede de revendedores, use esta lista.
- Seu produto ou serviço funciona sem você? Franquia é a venda de um método replicável. Se depende do talento do dono, não é franqueável.
- A conta fecha para o franqueado, depois de royalties, fundo de propaganda e compra de mercadoria? Faça a conta com cenário pessimista e peça para um terceiro revisar.
- Quem decide campanha, mix e preço, e como o franqueado é ouvido? Um conselho de franqueados ou uma reunião formal reduz a chance de a primeira divergência ir parar no tribunal.
- O que acontece quando a loja do franqueado ficar inadimplente? Defina antes o caminho: renegociação, prazo, fornecimento mantido ou suspenso. Decidir no meio do conflito sai mais caro.
- Você está canibalizando seus próprios parceiros? Antes de abrir um ponto novo, ou um canal novo como e-commerce e farmácia, calcule o efeito sobre as lojas existentes.
- Existe plano de sucessão para o franqueado? Rede antiga tem lojas de segunda geração, e a saída ordenada protege a marca.
- Se você é franqueado, leia a circular de oferta de franquia e converse com ex-franqueados, não só com os atuais.
- Seus números divulgados medem o que importa? Vendas do sistema e receita da empresa são coisas diferentes, e dizer qual é qual evita mal-entendido.
Perguntas para discutir
- O Boticário manipulava fórmulas e passou a vender produto com marca. O que a empresa ganhou e o que perdeu ao mudar de artesão para indústria?
- Por que o franqueador e o franqueado têm interesses parcialmente opostos mesmo vendendo a mesma coisa? Dê dois exemplos concretos.
- Em 2015, a decisão de uma campanha afetou milhares de lojas de donos independentes. Como uma rede deve consultar, ou informar, os franqueados antes de decisões desse tipo?
- O GMV de uma rede é grande e a receita do franqueador é uma fração dele. Que riscos existem em comunicar apenas o GMV?
- A Justiça fluminense falou em dever de cooperação numa relação de trinta anos. Isso limita a liberdade do franqueador de rescindir contratos? Argumente a favor e contra.
Exercícios
- A conta do franqueado. Monte uma planilha de uma loja de franquia hipotética com faturamento, royalties, fundo de propaganda, custo da mercadoria, aluguel e folha. Entrega: a planilha e uma página dizendo em que faturamento o franqueado empata.
- GMV e receita. Escolha uma empresa que comunique vendas do sistema (franquia, marketplace ou app) e encontre, em documento público, a receita da própria empresa. Entrega: um parágrafo comparando as duas grandezas.
- Mapa de canais. Liste todos os canais pelos quais um produto seu chega ao cliente e, para cada um, quem é o dono do cliente e quem é o dono do preço. Entrega: tabela de uma página.
- Cláusulas de aliança. Leia um modelo de contrato ou circular de oferta de franquia e destaque cinco cláusulas que protegem o franqueado e cinco que protegem o franqueador. Entrega: lista comentada.
- Teste de campanha. Imagine uma campanha polêmica da sua marca. Escreva o que você diria aos seus parceiros de canal antes de ela ir ao ar. Entrega: e-mail de no máximo trezentas palavras.
Prompt de estudo
Atue como consultor de franchising. Vou descrever o meu negócio, o ticket médio e a margem. Diga se o modelo é franqueável, que métricas eu precisaria provar numa unidade-piloto e quais três conflitos de interesse com franqueados eu deveria resolver no contrato antes de vender a primeira unidade. Separe o que é fato do que é suposição.
Atue como analista financeiro didático. Explique a diferença entre GMV, receita bruta, receita líquida e lucro em um modelo de franquia, usando um exemplo numérico inventado e declarado como tal. Depois, liste cinco perguntas que eu deveria fazer a uma empresa que só divulga o GMV.
Fontes e leituras
O estado dos fatos é o de outubro de 2026. Os dados de 2025 vêm de comunicados do grupo e da imprensa, e não de demonstrações financeiras auditadas, que o grupo não publica de forma completa.
- Seu Dinheiro. "R$ 38 bilhões em vendas e 4 mil lojas: a estratégia do Grupo Boticário", 2026: https://www.seudinheiro.com/2026/empresas/r-38-bilhoes-em-vendas-e-4-mil-lojas-a-estrategia-do-grupo-boticario-para-se-manter-relevante-aos-49-anos-e-ultrapassar-a-natura-kaes/
- Grupo Boticário. Comunicado sobre os resultados de 2025: https://www.grupoboticario.com.br/midia/grupo-boticario-lideranca-mercado-beleza-2025/
- ConJur. "Justiça proíbe Boticário de rescindir contrato com franqueado", 23 de julho de 2015: https://www.conjur.com.br/2015-jul-23/justica-proibe-boticario-rescindir-contrato-franqueado/
- ABF. "A geração da profissionalização": https://abf.com.br/a-geracao-da-profissionalizacao/
- O Boticário (Portugal). Página de história da marca: https://www.oboticario.pt/pages/historia
- Conar. Representação 088/2015, arquivada em 16 de julho de 2015, conforme cobertura do Meio & Mensagem e de dissertação da Universidade Federal do Ceará.
- G1. Lançamento da Eudora, 15 de fevereiro de 2011; Conar e o comercial do Dia dos Namorados, junho e julho de 2015.
- Exame e Estadão. Lançamento da Quem Disse, Berenice?, agosto de 2012.
- Valor Econômico. Resultados do Grupo Boticário em 2022 (abril de 2023); Valor International, 2024.
- Diário do Comércio. Conflito com franqueado Hannan, outubro de 2015.
- Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Ranking ABF das maiores franquias, março de 2026.
- Gazeta do Povo. Dados de 2012 sobre lojas e receita do O Boticário.
- Grupo Boticário. Relato Integrado Executivo 2025.
- Mercado & Consumo, "Boticário quer transformar a tecnologia em via fundamental do negócio", 26/08/2021 (sucessão de Grynbaum por Fernando Modé): https://mercadoeconsumo.com.br/2021/08/26/boticario-quer-transformar-a-tecnologia-em-via-fundamental-do-negocio/