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7. Havan: a loja como palco ​

A mensagem que a empresa prometeu mandar aos empregados ​

Em 26 de fevereiro de 2025, uma quarta-feira, uma sala do Centro de Conciliação de Segundo Grau do Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina reuniu representantes do Ministério Público do Trabalho e da direção da Havan. A conciliação foi conduzida pela desembargadora Mari Eleda Migliorini, presidente da 5ª Turma do tribunal. O assunto era uma ação que corria desde 2018, ano da eleição presidencial em que o dono da empresa, Luciano Hang, declarou apoio público a um candidato.

Dessa sala saiu um acordo, homologado no mesmo dia. O valor não foi divulgado. O tribunal informou apenas que o montante seria destinado a instituições sociais cadastradas no Ministério Público. A parte que se conhece em detalhe é a obrigação de fazer: a Havan se comprometeu a enviar uma mensagem aos empregados avisando que não fará mais manifestações eleitorais dentro das lojas. A vedação inclui enquetes e pesquisas eleitorais, além de atos cívicos de cunho eleitoral, e vale para o proprietário, os diretores, os representantes e os prepostos da empresa.

Releia a frase com calma, porque ela diz algo curioso sobre um varejista. Uma empresa com mais de cem megalojas, uma das maiores redes do país fora das bolsas de valores, precisou prometer por escrito, diante de um tribunal, que não faria política dentro do próprio estabelecimento. Ninguém promete isso se o estabelecimento nunca tiver sido usado como palco.

E a palavra palco, neste caso, não é figura de linguagem. A Havan construiu, ao longo de quase quarenta anos, uma identidade em que a loja é espetáculo. Há uma réplica da Casa Branca na fachada e uma réplica da Estátua da Liberdade na porta. Há um dono que aparece em vídeos e campanhas e que é conhecido por um apelido, o "Véio da Havan". Há uniformes, bonés, sorteios e uma presença contínua na mídia. Tudo isso funcionou como máquina de atrair gente. A mesma máquina, ligada à política, rendeu à empresa uma ação do Ministério Público do Trabalho, uma sentença de primeira instância de cerca de R$ 85 milhões e um acordo.

Este capítulo conta a história da Havan sem torcer por ela nem contra ela. Primeiro, a origem: uma loja de tecidos em Brusque, em Santa Catarina. Depois, a engenharia comercial das megalojas, que é o que explica o sucesso. Em seguida, o marketing de personalidade e o momento em que ele cruza a fronteira da política. Por fim, o que a Justiça decidiu em cada episódio, com a data de cada decisão e o estado em que as coisas estavam até outubro de 2026. A tese é que a personalidade do dono é um canal de marketing poderoso e, ao mesmo tempo, um risco concentrado: o que rende a atenção também carrega a conta.

Uma observação sobre método antes de seguir. Luciano Hang é pessoa pública, com atuação política aberta, e o livro trata esse assunto pelo que ele fez e pelo que a Justiça decidiu. O critério vale para qualquer empresário de qualquer lado do espectro político. Quem foi acusado, investigado ou condenado aparece com essa palavra e com a data do estado descrito. Acordo não é confissão, multa eleitoral não é condenação penal, e investigação arquivada é investigação arquivada.

O que você vai levar deste capítulo ​

A personalidade do dono é um canal de marketing e um risco concentrado: o mesmo rosto que enche a loja pode trazer para dentro dela um conflito que o negócio não escolheu.

A megaloja funciona por um mecanismo simples e difícil de copiar: transformar o ato de ir à loja em passeio, para que o fluxo de gente seja a matéria-prima de uma operação de varejo de preço baixo e giro alto.

Entre o marketing e a política existe uma fronteira jurídica concreta. O empregador pode ter opinião, mas usar a relação de emprego, o espaço da loja e o medo de demissão para orientar voto foi tratado pela Justiça do Trabalho como coação, com valores altos.

Empresa privada, sem bolsa, pode crescer muito e ainda assim ficar dependente de um único rosto, de um único dono e de uma única estratégia de capital.

Brusque, 1986: um balcão, um funcionário e um nome emprestado ​

O caso: a loja de tecidos ​

A Havan nasceu em 26 de junho de 1986, em Brusque, cidade catarinense do Vale do Itajaí e polo tradicional da indústria têxtil. A primeira loja era uma sala de 45 metros quadrados na Avenida Primeiro de Maio, com um balcão e um funcionário, e vendia tecido. Luciano Hang tinha deixado um emprego na indústria têxtil local. O sócio da época era Vanderlei de Limas. Segundo a reportagem da revista Exame e o material institucional da própria empresa, o nome Havan veio da junção do sobrenome do dono com o nome do sócio: Hang e Vanderlei, Ha mais Van.

O detalhe do nome importa menos do que parece, mas ilustra uma característica da empresa que vai se repetir. Desde a origem, a marca carrega o dono. Não se trata de um nome neutro de loja. O nome é o fundador. Em outras redes brasileiras, a marca tem vida própria e o dono se afasta com o tempo. Na Havan, a marca e o rosto cresceram juntos, e é difícil dizer onde um termina.

Brusque ajuda a entender o início. Uma cidade têxtil tem fornecedores, mão de obra que conhece o ofício e consumidores que compram tecido e aviamento por necessidade. Vender tecido em Brusque nos anos 1980 era vender o insumo de uma economia doméstica de costura. Com o tempo, a loja ampliou o mix. O relato institucional da empresa fala em mudança para uma estrutura maior na rodovia Antônio Heil, em Brusque, no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, por causa do crescimento de clientes e de mercadorias. O que se sabe com segurança é a direção: da loja de tecidos para a loja de departamentos, sempre ampliando o que cabe sob o mesmo teto.

A Casa Branca de Brusque ​

Em 1994, segundo o material da empresa, foi inaugurada a sede em Brusque com fachada inspirada na Casa Branca, em torno de 7 mil metros quadrados. Em 1996, a matriz passou a cerca de 21 mil metros quadrados, com departamentos de eletrônicos, brinquedos, ferramentas e outros. A Estátua da Liberdade na entrada aparece nos relatos oficiais com uma pequena divergência: o site de relações com investidores a data de 1995, e o blog institucional dos quarenta anos fala em 1996. O livro registra as duas datas e fica com o essencial: foi na década de 1990 que a Havan decidiu ser reconhecível de longe. O relato oficial atribui a ideia da estátua à sugestão de uma criança de sete anos, versão que vem da própria empresa e que não temos como confirmar por outra fonte.

A primeira filial fora de Brusque veio em 1995, em Curitiba, com cerca de 2.500 metros quadrados, nove anos depois da fundação. A expansão nacional seguiu em ritmo gradual. Em 2020 a Havan anunciou a megaloja número 150, em Belém. Em outubro daquele ano, a Reuters falava em cerca de 149 lojas, ao noticiar a desistência da oferta de ações. Ao fim de 2024 eram 177 lojas físicas, segundo as demonstrações financeiras combinadas divulgadas pela empresa, e em 2025, conforme a imprensa de negócios, 184 lojas em 24 estados, com sete inaugurações no ano e uma meta declarada de chegar a 200 em 2026. Uma meta é uma intenção da empresa, não um fato, e o livro a registra como tal.

O mecanismo da megaloja ​

O mecanismo: vender passeio para vender mercadoria ​

Para entender o que a Havan faz de diferente, comece pela pergunta mais simples: por que alguém dirige até uma megaloja numa rodovia, em vez de comprar o que precisa na loja do bairro ou no celular? A resposta é que a megaloja não vende só mercadoria. Vende um programa. A fachada de colunas brancas, a estátua, o tamanho, a quantidade de departamentos sob o mesmo teto e o preço baixo formam uma proposta que muita gente, sobretudo em cidades médias e pequenas, trata como passeio de família.

Do ponto de vista econômico, isso resolve o problema central do varejo físico, que é o custo de atrair a pessoa até a loja. O comércio de rua paga esse custo em aluguel de ponto bom. O shopping center cobra o custo embutido no aluguel e no condomínio. A megaloja fora do centro, em terreno grande e barato, troca o custo do ponto por um custo de marca: a empresa investe em ser lembrada, em ser comentada, em dar um motivo para o carro sair da garagem. A estátua e a Casa Branca são, nessa leitura, mídia de fachada. Fazem o trabalho de um outdoor que também é entrada da loja.

Cenário ilustrativo, com números inventados só para a conta fechar. Imagine uma megaloja que recebe 2.000 visitas por dia, em 360 dias do ano, o que dá 720 mil visitas. Suponha que 30% dessas visitas terminem em compra, com tíquete médio de R$ 150. A venda anual é de 720.000 vezes 0,30 vezes 150, ou R$ 32,4 milhões. Se a margem bruta for de 39%, valor próximo ao que analistas citam para a rede, o resultado bruto é de cerca de R$ 12,6 milhões por ano. Agora olhe a sensibilidade. Se o fluxo cair 10%, as vendas caem R$ 3,24 milhões e o resultado bruto cai cerca de R$ 1,26 milhão, sem que nada tenha mudado no preço ou na mercadoria. Em um negócio que depende de gente passando pela porta, o fluxo é o ativo, e o que atrai ou afasta o fluxo é decisão de gestão.

Compare com os dados reais, que são mais grosseiros. Em 2025, a Havan S.A. registrou receita bruta de R$ 18,3 bilhões, para 184 lojas, segundo as demonstrações financeiras auditadas do ano (parte da imprensa citou R$ 18,5 bilhões para o grupo). Dividindo uma coisa pela outra, dá cerca de R$ 100 milhões por loja, o que ignora o canal online e as diferenças de tamanho entre as unidades. É uma média rude, mas mostra a escala: a loja típica da rede vende muito mais do que o número ilustrativo acima.

O que sustenta o preço baixo ​

O fluxo explica a demanda. A oferta de preço baixo depende de outras coisas que a rede combina. A primeira é a escala de compra: uma rede com quase duzentas lojas negocia com a indústria de um modo que a loja única não consegue. A segunda é o terreno amplo, que reduz o custo por metro quadrado, e a terceira é a venda de itens de giro rápido ao lado de itens de margem maior. O livro não tem os dados internos para decompor a margem da rede por categoria, e não vai inventar essa decomposição. O que se pode afirmar é o que a empresa e a imprensa divulgam: em 2025, a margem bruta foi de 39,7%, contra 41,5% no ano anterior, segundo as demonstrações financeiras da empresa.

Há um ponto que merece cuidado com os números. As demonstrações financeiras da Havan S.A. de 2025, auditadas pela Ernst & Young, com relatório de 13 de fevereiro de 2026, publicadas no site de relações com investidores da empresa, trazem receita líquida de R$ 13,7 bilhões e lucro líquido de R$ 1,49 bilhão, contra R$ 1,26 bilhão em 2024, uma margem líquida de 10,9%. Parte da imprensa de negócios divulgou, para o mesmo ano, lucro de R$ 3,4 a R$ 3,5 bilhões, número que não aparece nessas demonstrações e que pode se referir a outro perímetro, como o do grupo; não identifiquei o documento de origem e, por isso, uso o número auditado. Mesmo esse número dá uma margem alta para o varejo, e esta passagem não faz inferência sobre a origem dela. O balanço da empresa é auditado desde 2012, segundo reportagem, e a Fitch atribuiu à companhia rating AAA(bra), com perspectiva estável, segundo as demonstrações de 2024.

O caso: o crédito, os sorteios e o cartão da casa ​

Rede de varejo de bens duráveis no Brasil quase sempre tem, em algum lugar, uma história de crédito. Os capítulos sobre Casas Bahia e Riachuelo mostram como o financiamento ao consumidor virou parte do produto. Na Havan, a dimensão financeira existe, e a empresa emite debêntures, mas as fontes que levantei não permitem descrever com segurança a carteira de crédito ao consumidor, seus prazos ou sua inadimplência. Esse é um ponto em que o livro prefere dizer que não sabe a preencher o vazio com suposição. O que a documentação confirma é que a empresa emite títulos de dívida, como debêntures, e que não tem ações negociadas em bolsa.

O dono como mídia ​

O Véio da Havan ​

O marketing da Havan se confunde com a imagem de Luciano Hang. Ele aparece nas campanhas e nos vídeos, e adotou o apelido de "Véio da Havan", que virou marca. A estratégia tem lógica econômica. Um rosto reconhecível diminui o custo de confiança: o consumidor sabe quem é o dono, vê o dono dizendo o preço, e associa a loja a uma pessoa em vez de a uma razão social. O varejo popular brasileiro tem tradição disso, e o capítulo sobre as Casas Bahia mostra outro exemplo. A Havan levou essa tradição para as redes sociais e para uma exposição quase diária.

A mídia própria é a segunda parte da conta. Quando o dono tem uma audiência grande nas redes, cada vídeo substitui uma inserção paga. O custo de atenção cai, e a empresa ganha uma capacidade que concorrentes sem rosto não têm: lançar uma oferta, uma inauguração ou uma posição pública e ser ouvida no mesmo dia. Esse tipo de poder tem um lado de dependência, que o capítulo volta a examinar mais adiante. A empresa que fala pela boca do dono herda tudo o que o dono diz, inclusive quando a conversa deixa de ser sobre preço.

Os livros irmãos desta série registram dois episódios em que o nome do empresário aparece em outro contexto. Em Marketing Adversarial, o uso de um vídeo falso com a imagem de Luciano Hang é tratado como exemplo de deepfake. Em O Manual do Perito, a disputa da Havan e de Hang com a Meta aparece de passagem. Aqui o foco é outro: o que acontece com uma empresa quando a figura central entra na política.

2018: o primeiro grande ruído ​

A eleição presidencial de 2018 marca a virada. Luciano Hang declarou apoio público ao candidato Jair Bolsonaro, o que era um direito seu como cidadão. A questão jurídica surgiu quando, segundo denúncias recebidas pelo Ministério Público do Trabalho, a manifestação passou para dentro das lojas e envolveu os empregados.

Os fatos judiciais, em ordem, são estes. Em 2018, o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina recebeu dezenas de denúncias sobre pressão eleitoral nas lojas. Em 2 de outubro de 2018, às vésperas do primeiro turno, o Ministério Público do Trabalho ajuizou a medida cautelar, e a Justiça do Trabalho deferiu a liminar no dia seguinte, 3 de outubro, segundo o noticiário da época. A liminar proibiu a empresa de praticar coação eleitoral e de realizar pesquisas de intenção de voto entre os empregados, com multa de R$ 500 mil por infração em caso de descumprimento (processo 0001129-41.2018.5.12.0037). A proibição era cautelar: ordenava que a empresa parasse enquanto o mérito era analisado, e não decidia ainda se algo ilícito havia ocorrido.

Fora da esfera trabalhista, houve também a eleitoral. Em decisão noticiada em setembro de 2019, o Tribunal Superior Eleitoral condenou Luciano Hang a pagar R$ 2 mil, mais juros, por propaganda eleitoral irregular em um vídeo gravado dentro de uma loja em São Bento do Sul, em Santa Catarina. A decisão foi monocrática, do ministro Sérgio Banhos, e, segundo a imprensa da época, Hang não recorreu. Antes disso, em 13 de setembro de 2018, por unanimidade, segundo nota do próprio tribunal, o TSE o havia multado em R$ 10 mil pelo impulsionamento pago de publicações favoráveis ao candidato no Facebook, o que a legislação da época vedava a terceiros. As duas multas são pequenas diante do porte da empresa. Elas importam menos pelo valor do que pelo que mostram: a fronteira entre a opinião do cidadão e a propaganda eleitoral irregular já estava sendo testada em 2018.

A ação do Ministério Público do Trabalho ​

O caso: da liminar de 2018 ao acordo de 2025 ​

O mérito da ação civil pública do Ministério Público do Trabalho foi julgado em primeira instância em 22 de janeiro de 2024, pelo juiz Carlos Alberto Pereira de Castro, da 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis. A Agência Brasil noticiou a decisão em 31 de janeiro de 2024. Ele condenou a Havan e Luciano Hang, de forma solidária, a pagar cerca de R$ 85 milhões. Segundo as notícias da época, o valor reunia R$ 1 milhão de dano moral coletivo, R$ 1 mil para cada empregado com vínculo em outubro de 2018 e R$ 500 mil por loja em funcionamento na época dos fatos. A decisão apontou violação da privacidade dos empregados e intimidação.

O que o Ministério Público e a sentença descrevem é o seguinte, nas palavras da própria nota do tribunal em 2025: a empresa teria coagido empregados a votar no candidato preferido do proprietário nas eleições de 2018, por meio de manifestações e enquetes políticas e de sugestões de fechamento de lojas e demissões em massa caso o oponente vencesse. A ação foi proposta pelo MPT em Santa Catarina em 2018. Luciano Hang e a Havan negaram a coação. Era uma decisão de primeira instância, sujeita a recurso.

Em 26 de fevereiro de 2025, no Centro de Conciliação de Segundo Grau do TRT de Santa Catarina, as partes chegaram ao acordo descrito na abertura. Os dois processos (0001579-53.2018.5.12.0014 e 0001129-41.2018.5.12.0037) foram encerrados pelo acordo. O valor não foi publicado, o dinheiro vai para instituições sociais, e a Havan se compromete a avisar os empregados de que não haverá mais manifestação eleitoral dentro das lojas, incluindo enquetes e pesquisas.

Há duas leituras juridicamente erradas, e o livro as evita. A primeira é tratar a sentença de 2024 como decisão final. Ela foi de primeira instância e foi substituída pelo acordo. A segunda é tratar o acordo como confissão. Acordo é solução negociada, e quem acorda não admite necessariamente os fatos. O que se pode dizer é que o conflito terminou com obrigação de não fazer, valor destinado a fins sociais e fim da ação.

O mecanismo: por que a Justiça do Trabalho vê coação onde o empregador vê opinião ​

Qualquer empresário pode ter preferência política. A pergunta que a Justiça do Trabalho faz é outra: o que a relação de emprego faz com a liberdade do empregado? O empregado depende do salário. Quando o dono, que decide contratar e demitir, faz enquete de voto dentro do local de trabalho, ou diz que a empresa pode fechar se um candidato vencer, a pergunta "em quem você vai votar?" deixa de ser uma conversa entre iguais. O ouvinte sabe que a resposta pode ter consequências. Por isso o direito trata o voto do empregado como algo que o empregador não pode orientar com a ameaça do emprego, mesmo que a ameaça seja implícita.

Isso vale para qualquer lado político. Empresas que pressionaram empregados a votar em outros candidatos em outras eleições, de outros espectros, estariam sujeitas à mesma análise. A lição jurídica é de método: o que importa é a relação de poder entre quem pergunta e quem responde, não a cor da camisa.

Do ponto de vista de gestão, o episódio mostra um custo que o marketing de personalidade esconde. A empresa que usa o dono como canal de comunicação com o público acaba usando o dono como canal de comunicação com os empregados. O que serviria como motivação interna em um tema neutro, como meta de vendas ou campanha de Natal, vira risco jurídico quando o tema é eleitoral. A fronteira entre o "momento Havan", reunião de motivação da empresa, e o ato político é uma fronteira que a gestão tem de desenhar antes que o juiz a desenhe.

Investigações no Supremo: o que se sabe e o que não se sabe ​

Esta seção trata de episódios penais. Em todos eles, a palavra correta é "investigado", e o estado descrito vale até outubro de 2026, com as lacunas que o livro conseguiu documentar.

O inquérito das fake news (2020) ​

Em 27 de maio de 2020, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra aliados do então governo, entre eles Luciano Hang, no inquérito do Supremo Tribunal Federal que apura ofensas e disseminação de notícias falsas contra ministros da Corte. Hang negou a acusação e defendeu a liberdade de expressão, segundo reportagens da Folha e da Agência Brasil daquele dia. Ele era investigado, não denunciado. O desfecho específico dessa investigação em relação a ele não foi localizado em fonte primária para este capítulo.

O grupo de WhatsApp dos empresários (2022 a 2024) ​

Em 23 de agosto de 2022, a Polícia Federal cumpriu buscas contra oito empresários, depois de a imprensa publicar mensagens de um grupo de WhatsApp em que alguns deles discutiam a hipótese de um golpe de Estado caso o resultado da eleição daquele ano fosse desfavorável a um dos candidatos. Hang fazia parte do grupo. Ele afirmou que suas mensagens no grupo não tratavam de golpe nem do Supremo, e as reportagens da época não o incluíam entre os autores das mensagens mais citadas. Esses dois pontos vêm da própria declaração e da cobertura jornalística, não de decisão judicial.

Em 21 de agosto de 2023, o ministro Alexandre de Moraes arquivou a investigação contra seis dos empresários e manteve a apuração contra Hang e contra Meyer Nigri, com prazo de 60 dias. De acordo com a cobertura, o motivo apontado no caso de Hang era a recusa em fornecer as senhas de desbloqueio dos celulares apreendidos. Em 3 de setembro de 2024, segundo a Istoé Dinheiro, Moraes liberou os perfis de Hang em redes sociais, que estavam suspensos como cautelar, mantendo a investigação e a possibilidade de multa por conteúdo ilícito. Sobre o fim dessa linha de apuração, uma denúncia ou um arquivamento envolvendo Hang, não encontrei decisão publicada até outubro de 2026. O leitor deve tratar a questão como em aberto neste livro.

A Havan e o bloqueio da BR-470 (2022 a 2026) ​

Uma terceira apuração tratava de um episódio de 3 de novembro de 2022, logo após as eleições, quando manifestantes ocuparam um terreno ao lado de uma loja da Havan, às margens da BR-470, em Rio do Sul, em Santa Catarina, e participaram de bloqueios de rodovia. A pergunta era se a empresa havia colaborado com o movimento. Segundo reportagens de agosto de 2026, o ministro Alexandre de Moraes arquivou essa investigação em decisão assinada em 6 de agosto e divulgada em 12 de agosto, acolhendo pedido da Procuradoria-Geral da República. Conforme as notícias, a Polícia Federal confirmou que os manifestantes usaram o terreno da empresa, mas as diligências não permitiram concluir que a Havan tenha autorizado a ocupação nem colaborado de forma deliberada com o movimento. Arquivamento por falta de elementos pode ser reaberto se surgirem provas novas, como em qualquer arquivamento desse tipo. A informação vem de reportagens da CNN Brasil e de outros veículos, que citam o pedido da Procuradoria-Geral da República, e de um espelho da decisão divulgado pela imprensa; o livro não consultou o registro oficial do Supremo.

A CPI da Covid (2021) ​

Luciano Hang depôs à CPI da Covid no Senado em 2021. O relatório final, apresentado pelo relator Renan Calheiros em outubro de 2021, pediu o indiciamento de Hang por incitação ao crime. É importante distinguir. Uma CPI não denuncia ninguém. Ela produz um relatório e pode encaminhar suas conclusões ao Ministério Público, que decide se abre ou não um processo. Hang negou envolvimento com campanhas de desinformação, e disse na época que processaria senadores por causa de seu depoimento. O livro não localizou o desfecho de qualquer procedimento aberto a partir desse pedido, e registra apenas que houve o pedido, e não condenação.

O IPO que não saiu ​

O caso: duas desistências ​

Em agosto de 2020, a Havan entrou com pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários para abrir o capital. Segundo a imprensa de negócios, o valor de mercado que o controlador desejava ficava na ordem de R$ 100 bilhões. Em 7 de outubro de 2020, a oferta foi adiada por causa do preço, e em 27 de outubro de 2020 a empresa desistiu formalmente, segundo o Valor e a Reuters. Em 2021, a empresa retomou o processo, desta vez com expectativa de valor menor, na casa de R$ 70 bilhões, segundo o mercado, e em 23 de agosto de 2021 o Valor noticiou que a Havan desistiu do registro de companhia aberta, na segunda vez em que adiou a oferta. Até outubro de 2026 a empresa continua privada.

O mecanismo: valor de mercado é conversa com investidor ​

Um IPO é uma negociação em que o dono precisa convencer fundos e investidores de que a empresa vale o que ele diz que vale. O dono pediu um preço e o mercado ofereceu outro. Segundo a imprensa, o descompasso de valuation foi o motivo do adiamento. Analistas citaram na época o risco reputacional ligado à atuação política do fundador entre os fatores que um investidor institucional pesa, ao lado de governança e concentração de decisão. O livro não tem os documentos internos das conversas e não afirma que esse tenha sido o motivo, apenas registra que a questão foi apontada por analistas.

Para a empresa, ficar fora da bolsa tem custos e vantagens. Sem ações listadas, a Havan não precisa divulgar trimestralmente seus resultados nem responder a acionistas minoritários, e o controlador mantém as decisões. Em compensação, financia-se com lucro retido e dívida, por exemplo debêntures, e o dono não converte parte do patrimônio em dinheiro líquido. A rede cresceu assim, devagar e com caixa próprio. No fim de 2025, segundo as demonstrações auditadas, a Havan S.A. tinha cerca de R$ 1,1 bilhão em caixa, aplicações e instrumentos financeiros e dívida bruta de R$ 546 milhões, e a empresa informou ter quitado no ano todas as operações com bancos, restando um certificado de recebíveis imobiliários com vencimento em 2027. É um balanço de empresa pouco alavancada, o que torna a rede menos vulnerável ao ciclo de juros que machucou concorrentes.

Hoje ​

Até outubro de 2026, a Havan segue como empresa privada de controle de Luciano Hang. Segundo as demonstrações auditadas, encerrou 2025 com 184 lojas, receita bruta de R$ 18,3 bilhões e lucro líquido de R$ 1,49 bilhão, que a empresa chama de o maior de sua história. O acordo trabalhista de fevereiro de 2025 encerrou a ação do Ministério Público do Trabalho. Pelas notícias de agosto de 2026, uma das investigações no Supremo, a do bloqueio da BR-470, foi arquivada. Duas outras linhas, a do inquérito de 2020 e a do grupo de WhatsApp de 2022, estão sem desfecho publicado que eu tenha conseguido localizar.

A tabela abaixo reúne os números principais, com as fontes e as ressalvas já descritas.

IndicadorValorObservação
Lojas, 2020150Informação da empresa
Lojas, fim de 2024177Demonstrações de 2024
Lojas, 2025184Demonstrações de 2025
Receita bruta, 2024R$ 15,8 bilhõesDemonstrações de 2024
Receita bruta, 2025R$ 18,3 bilhõesDemonstrações de 2025, auditadas
Lucro líquido, 2024R$ 1,26 bilhãoDemonstrações de 2024
Lucro líquido, 2025R$ 1,49 bilhãoDemonstrações de 2025, auditadas

O mecanismo: risco concentrado no dono ​

Junte as peças. Uma empresa cuja marca é o dono, cuja mídia é o dono e cuja estratégia de capital depende do dono tem uma vantagem clara: velocidade e coerência. Ninguém tem de pedir permissão para lançar uma ideia, e o consumidor reconhece a voz. A desvantagem é simétrica. Tudo o que o dono faz passa a ser, aos olhos do mercado e do Judiciário, algo que a empresa fez.

Essa é a definição de risco concentrado. Em finanças, risco concentrado é o de quem tem a maior parte do patrimônio numa só aplicação. Em marca, é o de quem tem a reputação toda apoiada numa só pessoa. Não existe forma de a empresa se proteger inteiramente, porque o ativo que gera valor é o mesmo que gera risco. O que existe é gestão: regras escritas sobre o que se pode fazer dentro do estabelecimento, separação entre a comunicação pessoal do dono e a comunicação da empresa, e canais para o empregado dizer que se sentiu pressionado sem medo de retaliação.

A segunda observação é sobre a oferta de ações. A Havan é uma prova de que o dinheiro do varejo físico, quando bem operado, dispensa a bolsa. Mas a bolsa também faz uma função de disciplina. O acionista minoritário exige um conselho com independentes, regras para partes relacionadas e uma separação entre a pessoa do controlador e a pessoa jurídica. Quem escolhe ficar fora da bolsa pode ter a mesma disciplina, mas precisa criá-la por conta própria.

O lado escuro ​

O primeiro ponto é o mais bem documentado: o uso da estrutura de emprego num contexto eleitoral. A liminar de 2018, a sentença de 2024 e o acordo de 2025 formam uma sequência pública. A sentença de primeira instância condenou a empresa e o dono por coagir empregados. O acordo encerrou a ação sem divulgar o valor e sem que as partes admitissem, necessariamente, os fatos. A empresa e Hang sempre negaram a coação.

O segundo ponto é a convivência com investigações penais abertas por anos. Hang foi investigado no Supremo em apurações distintas, entre 2020 e 2026. Nenhuma delas resultou, até onde as fontes consultadas mostram, em denúncia ou condenação, e uma foi arquivada em agosto de 2026. Mesmo sem denúncia, investigação tem custo para uma empresa: busca e apreensão, suspensão de perfis em redes sociais por mais de um ano e a necessidade de explicar a clientes, fornecedores e investidores.

O terceiro é a exposição de empregados. Uma loja de varejo popular tem milhares de empregados com salário modesto e pouca margem para discordar do patrão. O episódio de 2018 mostra por que o direito protege essa assimetria. Para o dono, a situação pode parecer um evento de motivação. Para quem está no balcão, pode parecer uma pergunta com consequência.

O quarto é de transparência. Empresa fechada divulga pouco. A margem líquida de 10,9% em 2025, alta para o varejo, chama a atenção, e o livro não tem como explicar sua origem; a distância entre o lucro auditado e o que circulou na imprensa mostra como é fácil ler errado uma empresa que divulga pouco. Ela pode refletir eficiência operacional, estrutura tributária, mix de produtos ou uma combinação disso, e o texto não afirma nenhuma das hipóteses.

O quinto é de condição fiscal. Reportagens antigas mencionam autuações e a adesão da empresa a programas de parcelamento de tributos, prática comum entre grandes empresas brasileiras. Como não consegui confirmar valores nem a situação atual em documento aberto, este capítulo não os reproduz. Quem for analisar a empresa como credor ou investidor deve pedir as certidões e olhar as notas explicativas.

A lição para o seu negócio ​

Se você é dono de um negócio pequeno ou médio, não precisa de uma Estátua da Liberdade. Precisa de uma resposta honesta para estas perguntas.

  • O que traz a pessoa até a minha loja, física ou digital? Se a resposta for só preço, qualquer concorrente copia. Se for um motivo que faz parte da experiência, como espetáculo, comunidade ou conveniência, você tem uma vantagem mais difícil de copiar.
  • Quanto do meu negócio depende da minha imagem pessoal? Se eu sumir por um mês, as vendas caem muito? Se caem, minha imagem é um ativo e uma fragilidade ao mesmo tempo.
  • Existe uma regra escrita sobre política, religião e opinião pessoal dentro da empresa? Ela vale para mim também? Se o dono pode, todo mundo percebe que a regra é de fachada.
  • Meus empregados podem discordar de mim sem medo? Um canal anônimo e uma pessoa fora da linha de comando ajudam, e custam pouco.
  • Minha comunicação pessoal e a comunicação da empresa são separadas? Um perfil pessoal com milhares de seguidores que também vende produto mistura as duas. Isso é legítimo, mas precisa de decisão consciente.
  • Tenho um plano para o caso de o meu rosto virar um problema? Em marcas pessoais, a crise de reputação é uma questão de quando, não de se.
  • Se eu fosse abrir o capital ou trazer sócio, o que um investidor perguntaria sobre minha dependência da empresa em relação a mim?

Perguntas para discutir ​

  1. A Havan usou a fachada e o dono como mídia própria. Em que ponto o custo de atenção barato se transforma em custo de risco alto? Dê um critério.
  2. A Justiça do Trabalho trata opinião política do patrão dentro da empresa de forma diferente da opinião do patrão fora dela. Você acha essa fronteira clara? Como um gerente de loja pode saber onde ela está?
  3. Por que uma empresa lucrativa e pouco endividada pode desistir de abrir o capital duas vezes? O que isso mostra sobre a relação entre dono e mercado?
  4. Compare uma marca construída em torno do dono com uma marca institucional. Que vantagens e riscos cada uma tem em tempo de crise?
  5. Um acordo judicial sem divulgação de valores encerra o assunto para a empresa. Encerra também para a reputação? Por quê?

Exercícios ​

  1. Mapa de dependência. Liste os cinco principais canais pelos quais seu negócio atrai clientes. Para cada um, escreva quanto depende de uma pessoa específica. Entrega: uma página com a lista e uma nota de 1 a 5 de dependência.
  2. Política de manifestações. Redija, em uma página, uma regra para a sua empresa sobre manifestações políticas e religiosas no ambiente de trabalho, incluindo a conduta do dono. Entrega: o texto e uma explicação de como ele seria comunicado aos empregados.
  3. A conta do fluxo. Usando o cenário ilustrativo deste capítulo, troque os números pelos de uma loja que você conhece, estimados com honestidade. Calcule o efeito de uma queda de 10% no fluxo. Entrega: a planilha ou a conta em papel, com as premissas anotadas.
  4. Linha do tempo de um conflito. Escolha uma empresa que enfrentou controvérsia pública e monte uma linha do tempo com datas, decisões e o estado atual, usando só fontes verificáveis e a presunção de inocência. Entrega: tabela de no máximo dez linhas.
  5. Teste do rosto ausente. Escreva como seria a comunicação da sua empresa por trinta dias sem a sua presença pessoal. Entrega: calendário de conteúdo e responsáveis.

Prompt de estudo ​

Atue como analista de risco de marca. Vou descrever o meu negócio, quem é o rosto dele e onde ele aparece. Faça um diagnóstico de risco concentrado: liste as dependências da marca em relação a uma pessoa, aponte três situações de crise plausíveis e proponha, para cada uma, uma medida preventiva de baixo custo. Separe o que é fato do que é suposição e pergunte o que faltar antes de responder.

Atue como advogado trabalhista didático. Explique, em linguagem simples, por que enquetes de voto e declarações do dono sobre fechamento de lojas podem ser tratadas como coação de empregados, e liste cinco práticas internas que reduzem o risco de a empresa chegar a esse ponto. Não dê parecer jurídico sobre caso concreto.

Fontes e leituras ​

Reportagens e documentos consultados, com o dado de cada um. Os links abaixo foram abertos ou localizados em consulta durante a escrita; o estado de cada episódio é o de outubro de 2026.