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Áudio do capítulo
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11. Pandemia e autoridade ​

O estudo que derrubou um ensaio clínico ​

Em 22 de maio de 2020, a revista médica The Lancet publicou um estudo observacional com um número impressionante: quase 96 mil pacientes hospitalizados com covid-19, em 671 hospitais de seis continentes. A conclusão era grave. Os doentes tratados com hidroxicloroquina ou cloroquina, com ou sem antibiótico, morriam mais e tinham mais arritmias cardíacas do que os demais. O artigo tinha como um dos autores o médico Mandeep Mehra, de Harvard, e como fornecedor dos dados uma empresa chamada Surgisphere, dirigida por um de seus coautores, Sapan Desai.

O momento não podia ser mais carregado. A hidroxicloroquina já era, naquela primavera, muito mais do que um medicamento antigo contra malária e lúpus. Tinha virado bandeira política nos Estados Unidos e no Brasil, defendida em entrevistas e em transmissões ao vivo por chefes de governo. Quando o artigo saiu, a Organização Mundial da Saúde suspendeu o braço de hidroxicloroquina do seu grande ensaio internacional, o Solidarity, por precaução. Governos de alguns países restringiram o uso do remédio. Para quem criticava a promoção do fármaco, o estudo era a prova que faltava. Para quem a defendia, era a oportunidade de acusar a "ciência oficial" de partidarismo.

Poucos dias depois, pesquisadores de várias partes do mundo começaram a perguntar de onde vinham aqueles números. Havia dúvidas sobre a origem e a consistência de parte dos números, e ninguém de fora tinha visto o banco de dados. Em 4 de junho de 2020, três dos quatro autores pediram a retratação do artigo, explicando que não podiam mais garantir a veracidade das fontes primárias de dados, depois que a empresa se recusou a permitir uma auditoria independente. Mehra escreveu que não havia feito o suficiente para garantir que a fonte era adequada ao uso. A OMS retomou o braço de hidroxicloroquina do ensaio. Um segundo artigo, no New England Journal of Medicine, que usava dados da mesma empresa, também foi retratado.

Convém ficar com dois fatos e não ir além deles. O primeiro: o estudo retratado não provava que a hidroxicloroquina matava; apenas deixou de provar qualquer coisa. O segundo: a retratação também não provava que o remédio funcionava. A pergunta clínica seria respondida por outros ensaios, e foi, como se verá adiante. O que a cena mostra é a anatomia de um problema que atravessa este capítulo. Uma instituição de peso, uma revista de prestígio, publicou rápido demais um resultado que servia a um dos lados de uma disputa política, e os dois lados tiraram do episódio exatamente o que já pensavam. Autoridade científica e autoridade política colidiram em tempo real, e a credibilidade das duas saiu desgastada.

Este capítulo trata dessa colisão. Ele descreve a desinformação que partiu de quem tinha microfone oficial, como o chefe de governo que promoveu um tratamento sem comprovação. Descreve também os erros do outro lado, o de instituições de saúde, cientistas, plataformas e checadores que afirmaram com certeza o que ainda era incerto, ou trataram como conspiração o que depois voltou a ser hipótese respeitável. A tese é desconfortável de propósito: a autoridade que erra e não admite alimenta a desinformação tanto quanto a mentira deliberada de quem a combate.

O que você vai levar deste capítulo ​

Em emergência sanitária, a incerteza é o terreno em que a desinformação cresce, e quem ocupa o vazio com certeza falsa ganha a atenção que a dúvida honesta não ganha.

Governos e autoridades de saúde também espalham informação errada, às vezes por convicção, às vezes por conveniência, às vezes por excesso de zelo. O critério para julgar é a conduta, a afirmação e a correção, nunca o partido.

Mudar de posição diante de evidência nova é o método científico funcionando. O dano vem de apresentar como certeza o que era hipótese, e de reagir à correção com silêncio ou com ataque.

Relatório de comissão parlamentar, pedido de indiciamento e inquérito não são condenação. Neste capítulo, cada caso traz a data do estado processual, que pode ter mudado quando você ler.

Por que a pandemia foi o terreno perfeito ​

Antes de entrar nos casos, vale entender por que um vírus produziu tanta informação ruim. Os capítulos anteriores deram as peças. O capítulo 5 mostrou que a repetição aumenta a sensação de verdade e que a identidade pesa mais do que a evidência quando o tema é político. O capítulo 6 mostrou que a atenção é uma mercadoria e que o conteúdo que assusta ou indigna rende mais. A pandemia juntou todas essas condições numa semana.

Primeiro, havia medo concreto. As pessoas queriam saber se iam adoecer, se os pais iam morrer, se podiam sair de casa. Medo cria demanda por resposta, e uma resposta simples vale mais do que uma resposta correta e complicada. Segundo, havia ignorância real e inevitável. Nos primeiros meses, ninguém sabia como o vírus se transmitia, quanto tempo durava a imunidade, quais remédios ajudavam. A Organização Mundial da Saúde criou o termo "infodemia" para descrever o excesso de informação, parte verdadeira e parte falsa, que dificultava achar fontes confiáveis. Terceiro, a ciência estava sendo feita em público, em tempo real, com artigos ainda não revisados circulando como se fossem veredito. Quem não está acostumado a ver a ciência errar e se corrigir lê cada correção como fraude.

Quarto, e talvez o mais importante, o tema virou identidade. Em poucas semanas, usar máscara, defender isolamento ou recomendar um remédio específico passou a funcionar como uma declaração de pertencimento político. Pesquisas em vários países mostraram que a posição de uma pessoa sobre medidas sanitárias acompanhava a sua preferência partidária. Isso significa que um mesmo fato recebia crédito ou desconfiança conforme quem o dissesse, que é exatamente o raciocínio motivado do capítulo 5 aplicado à saúde pública.

Há ainda um ponto sobre honestidade epistêmica que precisa aparecer logo, porque o livro prometeu. É difícil medir o quanto cada peça de desinformação mudou comportamento. Houve pesquisas associando mais exposição a determinados discursos a menor adesão a medidas de proteção, mas separar o efeito da mensagem do efeito da identidade prévia de quem a recebe é complicado, e as estimativas variam. Quando este capítulo afirmar que uma fala "alimentou" a desconfiança, leia como hipótese plausível e documentada em parte, nunca como medição exata.

A técnica: ocupar o vazio de incerteza ​

A técnica central desta parte do livro é simples de descrever. Em momento de incerteza, quem oferece certeza ocupa o espaço. A certeza pode ser verdadeira, falsa ou apenas prematura. O público costuma preferir qualquer uma delas ao "ainda não sabemos". O emissor com mais alcance, em regra o governo, a mídia de massa ou uma plataforma, tem o maior poder de ocupar o vazio.

Isso vale para todos os lados. O político que anuncia que um remédio cura ocupa o vazio com uma esperança sem prova. A agência de saúde que diz que as máscaras não adiantam, quando na verdade queria preservar estoque ou ainda não tinha dados sobre transmissão sem sintomas, ocupa o vazio com uma tranquilidade que depois se desfaz. A plataforma que decide que uma hipótese sobre a origem do vírus é conspiração e a remove ocupa o vazio com uma certeza institucional. O mecanismo é o mesmo. A diferença está nos incentivos, nas intenções e nas consequências, e é isso que os casos a seguir vão separar.

O caso: o tratamento precoce e o Estado como emissor ​

Entre março e maio de 2020, o então presidente da República, Jair Bolsonaro, passou a defender publicamente a cloroquina e a hidroxicloroquina como tratamento para a covid-19, em declarações, em transmissões semanais nas redes sociais e em contas oficiais do governo. Pesquisas acadêmicas sobre o conteúdo dos perfis presidenciais documentaram postagens favoráveis ao chamado tratamento precoce mesmo depois de entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Infectologia, terem desaconselhado o uso fora de pesquisa. Em 20 de maio de 2020, o Ministério da Saúde divulgou orientação que ampliava o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, inclusive para casos leves, dentro do Sistema Único de Saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, por sua vez, reiterou naquele ano que não havia estudo conclusivo sobre eficácia dos medicamentos contra a covid-19 e alertou contra a automedicação.

O que a ciência concluiu depois é razoavelmente claro, e convém dizer com precisão. Ensaios clínicos randomizados, como o britânico RECOVERY, com pacientes hospitalizados, não encontraram benefício da hidroxicloroquina, e um grande ensaio brasileiro, o Coalizão I, com pacientes hospitalizados com quadros leves a moderados, também não. Revisões sistemáticas posteriores, incluindo trabalhos ligados à Cochrane, chegaram à mesma direção para pacientes hospitalizados. Para tratamento em pacientes ambulatoriais, uma metanálise de dados individuais publicada em março de 2023 na revista Clinical and Translational Science reuniu 11 ensaios randomizados e, entre os 2.037 participantes avaliáveis, não encontrou diferença significativa de hospitalização entre quem tomou hidroxicloroquina e quem não tomou. Resumindo sem exagero: o remédio não mostrou benefício clínico demonstrado, e o uso em larga escala, com protocolo estatal, tinha mais risco do que respaldo.

Há um argumento da defesa dessa política que merece ser apresentado com seu melhor formato. Médicos que prescreviam esses remédios, e parte do público, sustentavam que em uma doença nova, sem tratamento específico, o profissional tem o direito de usar medicamento conhecido e barato, com base em sua avaliação do paciente, e que esperar ensaios perfeitos custaria vidas. É um argumento sério sobre autonomia médica e sobre o dever de agir sob incerteza, e ele não é absurdo em abstrato. A resposta dos críticos também é séria. Autonomia do médico para prescrever em caso individual é uma coisa. Um governo que recomenda o mesmo remédio a todo o país, produz o medicamento em escala e usa a sua comunicação oficial para dizer que ele funciona é outra, porque transfere a decisão do consultório para o Estado e dá aos pacientes a falsa impressão de proteção, o que pode levá-los a relaxar outras medidas.

Esta é a primeira lição de simetria do capítulo, e vale pela distinção entre afirmação e rótulo. O erro aqui é de conduta: afirmar eficácia sem prova. Não se trata de classificar uma pessoa ou um grupo. Quem tomou o remédio de boa-fé não fez nada de errado, e muitos pacientes o tomaram porque um médico em quem confiavam o receitou. O problema está na comunicação pública que apresentou como certo o que não estava demonstrado. E a retratação do estudo da Lancet, que abriu o capítulo, ajudou a alimentar justamente essa narrativa: se a ciência publicou um estudo fraudulento contra o remédio, por que confiar nela para dizer que o remédio não funciona? A resposta correta é que a ciência se corrigiu, e os ensaios posteriores confirmaram a ausência de benefício. Mas a retratação foi usada como munição de qualquer maneira.

O caso: a live das vacinas e a aids ​

Em 21 de outubro de 2021, em sua transmissão semanal, Jair Bolsonaro leu uma suposta notícia afirmando que pessoas completamente vacinadas contra a covid-19 estariam desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida, a aids, em um prazo mais curto do que o previsto. A informação não tinha respaldo científico, e autoridades de saúde e a OMS a rejeitaram. Três dias depois, em 24 de outubro, o Facebook e o Instagram retiraram o vídeo da transmissão, e o YouTube também o removeu, com base nas regras de cada plataforma sobre desinformação médica. Segundo a imprensa da época, foi a primeira vez que o Facebook apagou uma transmissão do presidente da República.

O episódio é útil por três razões. A primeira é que ele mostra o chefe de governo como emissor de desinformação sobre vacina, em momento em que a campanha de imunização brasileira ainda enfrentava hesitação. A segunda é que ele expõe a questão do poder das plataformas. Uma empresa privada estrangeira decidiu o que um presidente eleito podia dizer ao país, e embora a decisão tenha sido compatível com as regras da empresa e com o consenso científico, ela alimentou o argumento, de uma parte do público, de que a moderação é arbitrária e partidária. A terceira razão é a resposta judicial. Em dezembro de 2021, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, abriu um inquérito para apurar se a fala configurava crime. Em dezembro de 2022, segundo o Poder360, a Polícia Federal concluiu haver indícios de crimes na fala que associava a vacina à aids, como incitação ao crime, e os atribuiu também ao então ajudante de ordens Mauro Cid. Em fevereiro de 2023, a vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, pediu o arquivamento, por entender que não havia indícios mínimos de crime e que as falas deviam ser discutidas no debate político, não no penal. Não localizei decisão de arquivamento nem denúncia. A descrição que a imprensa fez em outubro de 2026 do inquérito sobre informações inverídicas na pandemia (encerramento pela PF em dezembro de 2022, Mauro Cid indiciado, pedido de arquivamento da PGR em fevereiro de 2023) coincide com a deste caso, o que indica que o pedido seguia sem decisão, como se verá adiante; não confirmei o número do processo. Conclusão policial não é denúncia nem condenação. A pessoa mencionada continua, quanto a esse fato, sem condenação nos termos do que foi possível verificar até 30 de outubro de 2026.

Vale registrar o que o caso não mostra. Ele não mostra que a fala convenceu muita gente, nem que alterou a taxa de vacinação. O Brasil teve adesão alta às vacinas contra a covid-19 em termos internacionais: segundo a Agência Brasil, com dados da Fiocruz e do Our World in Data, em janeiro de 2022 68% da população tinha tomado as duas doses, o que punha o país em nono lugar entre os 30 países mais populosos, à frente dos Estados Unidos. Isso sugere que a hesitação alimentada por essas falas, se existiu, não foi dominante. A pesquisa sobre efeito é, como se disse, incompleta, e a honestidade pede que o leitor não saia daqui com a ideia de que uma live derrubou a vacinação.

O caso: a CPI da Covid e o que virou processo ​

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, a CPI da Covid, funcionou no Senado Federal entre abril e outubro de 2021. Ela ouviu ministros, ex-ministros, médicos, empresários, representantes de laboratórios e autoridades, e examinou tanto a resposta do governo federal à pandemia quanto negociações de compra de vacinas. Em 26 de outubro de 2021, aprovou por 7 votos a 4 o relatório final, de autoria do relator, senador Renan Calheiros. O documento, com mais de mil páginas, pediu o indiciamento de 78 pessoas e de duas empresas, entre elas o presidente da República, a quem atribuía nove crimes, entre os quais epidemia, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo e crimes de responsabilidade. Votaram contra os senadores Eduardo Girão, Jorginho Mello, Luis Carlos Heinze e Marcos Rogério. Na votação final, a lista foi ajustada, e o nome do senador Heinze e a proposta de indiciamento de Flávio Bolsonaro saíram do texto.

Aqui é preciso uma explicação de procedimento, porque ela é a chave para não errar o que aconteceu depois. Uma CPI não indicia, não denuncia e não condena. Comissões parlamentares de inquérito têm poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, mas terminam com um relatório que é encaminhado ao Ministério Público e a outros órgãos. A decisão de denunciar cabe ao Ministério Público, e a de condenar, ao Judiciário. Quando a imprensa escreveu "CPI indicia Bolsonaro", usou uma expressão coloquial, não jurídica. O relatório pediu o indiciamento, e o pedido foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, que tem a prerrogativa de decidir se haverá denúncia contra o presidente da República.

O que aconteceu em seguida mostra a distância entre julgamento político e julgamento jurídico. A Procuradoria-Geral da República, então chefiada por Augusto Aras, pediu em 25 de julho de 2022 ao Supremo, por meio da vice-procuradora-geral Lindôra Araújo, o arquivamento de sete das dez apurações preliminares abertas a partir do relatório. Em um dos casos, o de prevaricação, a PGR afirmou que não havia indícios mínimos de conduta criminosa. Em outro, disse que restava "tão somente uma hipótese criminal sustentada no Relatório Final" da CPI. Em 28 de fevereiro de 2023, o ministro Dias Toffoli seguiu a PGR e arquivou dois dos pedidos de investigação contra o então presidente, um sobre infração de medida sanitária e outro sobre epidemia com resultado morte; recursos contra esse arquivamento foram depois liberados para julgamento, e não localizei o resultado. No caso específico do inquérito sobre divulgação de informações inverídicas durante a pandemia, a Polícia Federal encerrou a apuração em 23 de dezembro de 2022 e a PGR pediu o arquivamento em fevereiro de 2023, também por entender que não havia indícios mínimos de crime. Em março de 2024, senadores da antiga CPI pediram ao novo procurador-geral, Paulo Gonet, que reanalisasse os pedidos; segundo a conta publicada pela InfoMoney, dos 11 pedidos de ação penal, Aras havia recusado 10.

O quadro mudou parcialmente depois, e o relato precisa dos dois lados. Em setembro de 2025, o ministro Flávio Dino, do Supremo, atendendo a pedido da Polícia Federal e não da PGR, determinou a abertura de inquérito para apurar fatos ligados às conclusões da CPI, com prazo inicial de 60 dias, prorrogável. Segundo a notícia do próprio tribunal, o objeto são fatos apresentados pela CPI sobre a condução do enfrentamento da covid-19, e a fundamentação aponta indícios de crimes contra a administração pública, como fraudes em licitações, superfaturamento, desvio de recursos e contratos com empresas de fachada. A notícia cita, entre os nomes que o relatório da CPI propôs indiciar, Jair Bolsonaro, três de seus filhos, parlamentares e ex-ministros; a lista publicada pelo Poder360 tinha Bolsonaro e outras 23 pessoas, sem Pazuello e Queiroga. Abertura de inquérito não é acusação, e todos os investigados se presumem inocentes. Isso é diferente do inquérito sobre informações inverídicas divulgadas durante a pandemia, que tramita à parte. Esse segundo trâmite é o que chegou a Fachin: em 6 de outubro de 2026, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, deu à PGR cinco dias para dizer se mantinha o pedido de arquivamento do inquérito sobre informações inverídicas, citando o tempo decorrido e uma resposta de cooperação jurídica internacional dos Estados Unidos recebida pela Polícia Federal. Até a data de fechamento deste capítulo, 30 de outubro de 2026, não localizei a manifestação da PGR.

Isto é tudo o que se pode dizer sem exceder as fontes. Existe um relatório parlamentar com conclusões duras. Existe um conjunto de apurações em instâncias diferentes, algumas arquivadas, outras reabertas ou em andamento. Não existe, até onde pude verificar nesta data, condenação criminal de nenhuma autoridade pelos fatos específicos tratados pela CPI. Jair Bolsonaro foi condenado em 2025 em outro processo, tratado no capítulo 10, por fatos distintos e sem relação com a pandemia. Quem lê "a CPI provou" ou "a CPI não deu em nada" está resumindo mal. A CPI produziu um documento político e um acervo de depoimentos e provas documentais; o que se transforma em processo depende de um segundo e de um terceiro filtros, que operam com outra régua e outros prazos.

Os dois campos têm argumentos fortes aqui. Quem defende a CPI diz que a pandemia deixou centenas de milhares de mortos no Brasil, que a comissão reuniu evidências de omissão e de contratos problemáticos e que a baixa taxa de processos reflete a blindagem de um procurador-geral alinhado ao governo. Quem a critica diz que a comissão foi instrumento de oposição, que a maioria dos seus integrantes tinha posição política definida de antemão, que os pedidos de indiciamento incluíam crimes de tipificação duvidosa e que o arquivamento mostra o descompasso entre o palanque e os autos. Um senador governista chegou a classificar a reabertura de investigações como "requentar narrativa", enquanto a oposição fala em impunidade. Nenhum dos dois grupos está obrigado a ter razão por inteiro, e o leitor que quiser saber o que de fato aconteceu com cada acusação deve ir ao andamento processual de cada uma, não à manchete da CPI.

O caso: a carta da Lancet e a hipótese que virou tabu ​

Agora o outro lado. Em 19 de fevereiro de 2020, a revista The Lancet publicou uma carta aberta assinada por 27 especialistas em saúde pública, que expressava solidariedade aos cientistas e profissionais de saúde da China e condenava com firmeza as teorias da conspiração que sugeriam que a covid-19 não tinha origem natural. A carta dizia que os signatários declaravam não ter conflitos de interesse. Entre eles estava Peter Daszak, presidente da organização EcoHealth Alliance, que havia financiado pesquisas sobre coronavírus de morcegos na China, inclusive em colaboração com o Instituto de Virologia de Wuhan. Em 2021, a revista publicou um adendo ampliando a declaração de interesses de Daszak. A imprensa especializada criticou a omissão inicial.

Convém separar o que a carta dizia do que se fez dela. O texto condenava teorias da conspiração e defendia a origem natural com base em análises genômicas disponíveis. Os autores e a revista mantiveram depois que pretendiam apoiar colegas chineses que sofriam ataques e ameaças, e não encerrar o debate científico sobre a origem. Mas a carta funcionou, na prática, como um selo. Na imprensa e nas plataformas, a hipótese de um acidente de laboratório passou a ser tratada como indício de simpatia por teorias de extrema direita, e algumas redes sociais a classificaram como desinformação médica. O Facebook anunciou em fevereiro de 2021 que removeria alegações de que a covid-19 era "man-made" ou fabricada, depois de consultar organizações de saúde. Em 26 de maio de 2021, depois que o presidente americano Joe Biden determinou que a comunidade de inteligência revisasse o tema, a empresa declarou que, à luz das investigações em andamento e em consulta com especialistas de saúde pública, deixaria de remover essa afirmação.

A reavaliação oficial foi lenta e parcial, e é fácil exagerá-la. Em fevereiro de 2023, o diretor do FBI, Christopher Wray, disse em entrevista que o bureau avaliava há algum tempo que a origem da pandemia era "mais provavelmente" um incidente de laboratório em Wuhan; reportagens da época indicaram que a avaliação do FBI era de confiança moderada. No mesmo mês, o Departamento de Energia foi noticiado como tendo chegado à mesma direção, com baixa confiança. Em 25 de janeiro de 2025, a CIA divulgou, já sob a nova direção nomeada por Donald Trump, uma avaliação encomendada no governo Biden, também de baixa confiança, de que uma origem ligada a pesquisa era mais provável do que uma origem natural, sem apresentar nova prova decisiva. Outros órgãos de inteligência americanos, e o Conselho Nacional de Inteligência, continuaram favorecendo a hipótese de transmissão natural, também com baixa confiança. O estado da questão em 30 de outubro de 2026, pelo que consegui verificar, é de divisão: não há prova pública conclusiva para nenhuma das hipóteses.

O ponto central para este livro não é decidir qual das duas está certa. É observar o que a história revela sobre o processo. A hipótese de vazamento nunca foi demonstrada, e ainda não é. O erro das instituições foi outro: tratar como falsidade comprovada o que era uma hipótese em aberto, usar o termo "conspiração" para uma pergunta legítima e, nas plataformas, remover conteúdo com base em um consenso que não existia. Quando o consenso mudou, ninguém publicou um balanço do que tinha sido apagado nem por quê. Para quem tinha sido chamado de conspiracionista por levantar a pergunta, o recado era óbvio, e a confiança nas instituições de saúde e nas plataformas caiu justamente entre as pessoas mais céticas.

A simetria exige completar a frase. Reavaliar não equivale a confirmar. Quem passou a afirmar, desde o início, que o laboratório era a origem comprovada, e que o vírus tinha sido fabricado como arma, também afirmava mais do que as evidências permitiam, e dessas afirmações saíram peças de desinformação reais, incluindo teorias de que o vírus fora projetado de propósito. O problema da moderação de 2020 e 2021 foi misturar numa só categoria a pergunta legítima e a afirmação fantasiosa. Uma política melhor teria separado as duas. Falar de vazamento de laboratório como hipótese em investigação é uma coisa. Atribuir a pandemia a um plano de dominação mundial é outra.

O caso: as máscaras e as recomendações que mudaram ​

Em 29 de fevereiro de 2020, o cirurgião-geral dos Estados Unidos, Jerome Adams, escreveu nas redes sociais, em tom enfático, que o público deveria parar de comprar máscaras, que não eram eficazes para impedir que a população geral pegasse o coronavírus. Em março, o CDC, agência federal de saúde, orientava que pessoas saudáveis não precisavam usar máscara, e a OMS também desaconselhava o uso generalizado. Em 3 de abril de 2020, o presidente Donald Trump anunciou que o CDC passava a recomendar que os americanos usassem máscaras de pano em lugares públicos. O próprio Adams explicou que a mudança decorria de novos dados mostrando que o vírus era transmitido por pessoas infectadas sem sintomas. A OMS revisou a sua posição em junho daquele ano. Em 27 de julho de 2021, com a variante Delta, o CDC passou a recomendar máscara em ambientes fechados em áreas de transmissão substancial ou alta, inclusive para vacinados.

Há duas leituras dessa história, e ambas têm base. A primeira, defendida pelas autoridades, diz que a recomendação mudou porque a evidência mudou: a transmissão por pessoas sem sintomas só foi se tornando evidente com o tempo, e a Delta alterou o cenário em 2021. Mudar de posição diante de dados novos é o comportamento esperado de uma instituição científica. A segunda leitura, feita por críticos, diz que parte da mensagem inicial tinha um motivo adicional que não foi dito de forma clara: preservar o estoque de máscaras cirúrgicas e de respiradores para profissionais de saúde, num momento de escassez. Se a razão era essa, a comunicação poderia ter dito, e não ter afirmado que máscaras não funcionavam. As declarações do próprio cirurgião-geral, naquele período, falaram da escassez e dos profissionais de saúde junto com a eficácia, o que alimenta as duas interpretações, e não consegui verificar se houve a intenção deliberada de simplificar. O que dá para dizer é que a mensagem pública misturava dois argumentos, um de evidência e um de logística, e o público só recebeu o primeiro.

O dano dessa comunicação não vem de a posição ter mudado. Vem do formato. Quando uma agência diz "máscaras não funcionam" em vez de "ainda não sabemos se protegem a população em geral, e precisamos guardar as profissionais para quem está na linha de frente", ela cria uma expectativa de certeza. Quando muda de posição, o público interpreta como erro ou como mentira. Em condições de incerteza, a frase honesta custa mais caro no curto prazo e menos no longo prazo.

O debate científico sobre máscaras não terminou ali, e isso também deve ser dito com cuidado. Em janeiro de 2023, a Cochrane publicou uma revisão sistemática de intervenções físicas, como máscaras, contra vírus respiratórios. A revisão foi amplamente citada como se tivesse demonstrado que máscaras não funcionam. A editora-chefe da Cochrane, Karla Soares-Weiser, emitiu em março de 2023 uma declaração dizendo que a conclusão tinha sido mal interpretada: a revisão olhava políticas de estímulo ao uso de máscaras, não a eficácia individual do equipamento, e a adesão nos ensaios que pesavam mais era baixa, em um deles 42,3% no grupo de intervenção contra 13,3% no grupo de controle. O autor principal e outros pesquisadores contestaram o tom da declaração. Em 2024, a Cochrane informou que não buscaria mais mudanças no resumo em linguagem simples. O que sobra dessa controvérsia é prudência: quem hoje afirma com absoluta certeza que máscaras funcionam em qualquer situação, ou que não funcionam em nenhuma, está dizendo mais do que o estado da evidência permite.

Convém incluir também um caso de outra instituição de saúde, para que o exemplo não fique restrito a uma agência. Em 14 de janeiro de 2020, a OMS publicou na rede social X, então Twitter, que as investigações preliminares das autoridades chinesas não encontraram evidência clara de transmissão entre humanos do novo coronavírus identificado em Wuhan. A mensagem relatava, tecnicamente, o que as autoridades chinesas haviam informado, e verificadores de fatos observaram que ela não afirmava que a transmissão fosse impossível. No mesmo dia 14, segundo os checadores, a própria OMS já admitia em entrevista a possibilidade de transmissão limitada entre familiares. Mas, na prática, o tuíte foi lido como tranquilização, e poucos dias depois, em 22 de janeiro, após visita de técnicos da OMS a Wuhan, a organização passou a dizer que havia evidência de transmissão entre pessoas. A crítica à OMS, nesse ponto, é a de que repassou uma versão de uma das partes sem a ressalva necessária num momento de risco. A defesa da organização é a de que reportou fielmente o estado das informações. As duas coisas são verdadeiras, e a lição, de novo, é de formato e de ressalva.

O caso: o laptop, a carta dos 51 e a moderação de 2020 ​

Em 14 de outubro de 2020, a três semanas da eleição presidencial americana, o jornal New York Post publicou uma reportagem baseada em e-mails e arquivos supostamente retirados de um notebook que teria pertencido a Hunter Biden, filho do candidato democrata Joe Biden. O jornal afirmava que o material tinha sido entregue por um dono de oficina de computadores no estado de Delaware, e sua origem, assim como a cadeia de custódia, foi contestada desde o primeiro dia. No mesmo dia, o Facebook anunciou que reduziria a distribuição da reportagem enquanto aguardava a checagem de terceiros, e o Twitter bloqueou o compartilhamento de links para a matéria, invocando suas políticas sobre materiais obtidos por invasão de sistemas e sobre dados privados. Nos dias seguintes, a empresa recuou da política, mas o efeito já tinha sido produzido.

Em 19 de outubro, 51 ex-integrantes da comunidade de inteligência americana assinaram uma carta afirmando que o episódio tinha "todas as marcas clássicas de uma operação de informação russa". A carta não dizia que os e-mails eram falsos, e reconhecia não ter prova de envolvimento russo. A frase ainda assim circulou como se dissesse mais do que dizia. Quando as emissoras e jornais citaram a carta, em muitos casos omitiram a cautela do texto. Havia contexto que tornava a suspeita razoável, como a interferência russa documentada em 2016, tema do capítulo 9. Mas o contexto não autorizava tratar a hipótese como fato.

O que se soube depois é ambíguo, e a ambiguidade importa. Em 2022, jornais como The New York Times e The Washington Post examinaram cópias do material e concluíram que parte dos e-mails era autêntica. No julgamento de Hunter Biden por porte de arma, em junho de 2024, a promotoria apresentou conteúdo do aparelho como prova, e uma agente do FBI, Erika Jensen, vinculou o aparelho a Hunter Biden e leu mensagens extraídas dele; questionada pela defesa, disse não poder verificar se o conteúdo havia sido adulterado antes de a polícia recolher o computador na oficina. Isso não significa que todo o material atribuído ao computador seja verdadeiro, nem que as acusações políticas feitas a partir dele tenham sido provadas. Significa que a premissa inicial, de que se tratava de uma operação de desinformação estrangeira, não se sustentou para o núcleo do material. O efeito do episódio sobre o voto é impossível de medir, e quem afirma com segurança que a moderação decidiu a eleição, ou que não teve efeito algum, está dizendo mais do que sabe.

Também é preciso ser exato sobre o papel do governo. Em agosto de 2022, o presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, contou em entrevista que o FBI havia alertado a empresa para a possibilidade de operações de propaganda russa antes da eleição, e que a reportagem sobre o notebook tinha "o padrão" do que a agência descrevera. Perguntado se o FBI tinha citado aquela reportagem, disse não se lembrar se tinha sido especificamente ela, mas que ela "se encaixava no padrão". A Meta afirmou depois que o FBI compartilhara alertas gerais sobre interferência estrangeira, nada específico sobre Hunter Biden, e o FBI respondeu que repassa rotineiramente informações sobre ameaças a empresas, mas não pode pedir nem ordenar que elas tomem providências. Aqui há de novo duas versões que coexistem: a de quem vê uma pressão estatal sobre as plataformas e a de quem vê troca de informação de segurança, que as empresas podem aceitar ou ignorar.

A questão jurídica de fundo chegou à Suprema Corte americana em Murthy v. Missouri, decidido em 26 de junho de 2024: Estados e usuários acusavam autoridades do governo Biden de pressionar plataformas a remover conteúdo sobre covid e eleições. A Corte não decidiu o mérito, porque os autores não tinham legitimidade processual, e por isso o resultado não deu razão nem ao governo nem aos críticos sobre o fundo da questão. O debate sobre onde termina a recomendação e começa a pressão continua em aberto; o capítulo 13 conta a decisão com seus votos e o retoma, com o equivalente brasileiro.

A régua: quem errou, como, e como corrigiu ​

Chega a hora do teste de simetria que o plano do livro impõe. A tabela abaixo reúne, de forma resumida, os casos do capítulo, com o critério único de olhar para a afirmação, a evidência disponível na época, a correção e o custo para a confiança. Ela não equipara a gravidade nem a intenção dos casos, e o texto acima já deu essa diferença. Ela organiza a conduta.

Emissor e afirmaçãoO que se sabia na épocaComo foi corrigido
Governo brasileiro: cloroquina como tratamentoEstudos iniciais frágeis; entidades médicas já desaconselhavamEnsaios posteriores sem benefício; sem retratação oficial localizada
Presidente: vacina e aids (2021)Sem base científicaRemovido pelas plataformas; PF viu indícios (2022), PGR pediu arquivamento (2023), sem decisão localizada até out/2026
Carta da Lancet e plataformas: origem do vírusHipótese em aberto, tratada como falsaPolítica da Meta revista em 2021; agências dos EUA divergem até 2025
Autoridades de saúde: máscaras (2020)Transmissão sem sintomas ainda em avaliação; escassez de estoqueRecomendação mudou em abril de 2020, com explicação parcial
Imprensa e ex-oficiais: laptop de 2020Origem contestada, autenticidade não verificadaParte do material autenticada por jornais em 2022; usado como prova pela promotoria em 2024

Dois padrões aparecem. O primeiro é que a gravidade do dano e a intenção diferem. Um chefe de governo que promove um tratamento sem prova, durante uma crise em que milhares morrem por dia, exerce um poder de influência maior do que o de um grupo de especialistas que assina uma carta. E uma plataforma que remove uma hipótese, ainda que errada, não é igual a um Estado que a promove. O segundo padrão é que o comportamento depois do erro varia muito. Algumas instituições mudaram de posição e explicaram, ao menos em parte, como as autoridades de saúde com as máscaras. Outras mudaram sem explicar, como as plataformas com a origem do vírus. E houve quem não mudou nada e atacou quem apontou o erro.

Verdades desconfortáveis ​

A primeira é que quem acertou em um ponto pode ter errado no seguinte. Houve pessoas que, desde o início, duvidaram da carta da Lancet e do tabu sobre a origem do vírus, e que, ao mesmo tempo, promoveram tratamentos sem prova. Houve cientistas que defenderam corretamente a eficácia das vacinas e erraram ao tratar a pergunta sobre a origem como conspiração. Misturar o acerto de uma pessoa em um assunto com credencial para todos os outros é um atalho que a pandemia punia a todo momento.

A segunda é que a moderação de conteúdo sobre saúde depende de um consenso que pode ser provisório. Remover conteúdo porque contradiz a posição das autoridades de saúde funciona bem quando a posição está consolidada, como no caso de que vacinas contra covid causam aids. Funciona mal quando a posição ainda é provisória, como foi o caso da origem do vírus. O critério de uma plataforma precisa distinguir esses dois estados, e as plataformas, por pressão de tempo e de escala, nem sempre distinguiram.

A terceira é que a desconfiança nas instituições de saúde não nasceu só da desinformação alheia. Parte dela foi construída pelas próprias instituições, quando apresentaram certezas que não tinham, trocaram de posição sem explicar ou trataram perguntas legítimas como ataques. Dizer isso não absolve quem espalhou mentira. Apenas lembra que quem combate a desinformação tem a obrigação de dar o exemplo.

A quarta é que o "teste de simetria" é difícil de passar em público. Quem lê este capítulo com o coração numa das torcidas vai achar que a parte sobre o outro lado é injusta e que a parte sobre o seu é leve. É um bom sinal. Se os dois lados se incomodam com a mesma quantidade de texto, o equilíbrio provavelmente está razoável.

A quinta é que a incerteza residual da pandemia é grande, e a vontade de ter uma narrativa fechada é maior do que os dados permitem. Origem do vírus, eficácia de cada medida não farmacológica, efeito sobre a mortalidade de decisões de cada governo: são temas em que estudos sérios divergem. Quem tem convicção forte e sem ressalva em qualquer deles deve desconfiar de si mesmo.

Como se defender ​

Para você, como pessoa:

  • Em tema de saúde com notícia nova, separe três coisas: o que está demonstrado, o que é hipótese em investigação e o que é opinião. Se a fonte não separa, procure outra que separe.
  • Desconfie de certeza total em momento de incerteza, venha de quem vier. A frase "ainda não sabemos" é sinal de honestidade, não de fraqueza.
  • Ao ver um estudo citado como prova, procure se foi revisado por pares, se tem conflito de interesse declarado, se foi replicado, se foi retratado ou contestado. Estudo único raramente resolve uma pergunta.
  • Ao ouvir "os especialistas dizem", pergunte quais, em que data, com que grau de confiança. Consenso científico se mede por revisões sistemáticas e por posições de sociedades científicas, não por cartas abertas nem por manchetes.
  • Quando uma autoridade mudar de posição, avalie a explicação. A mudança acompanhada de motivo e de data é sinal de método. A mudança silenciosa é sinal de problema.
  • Evite rótulos para pessoas e fale da afirmação. "Essa afirmação não tem respaldo" abre conversa; "você é negacionista" encerra.

Para redações, plataformas e instituições de saúde:

  • Dê o grau de confiança junto com a afirmação, e a data. "Com base nos dados de hoje" não é fraqueza; é a descrição exata do conhecimento.
  • Ao mudar de recomendação, publique o que mudou, por quê, e o que se dizia antes. Reconhecer o erro anterior custa menos do que ser descoberto.
  • Em moderação, distinga afirmação falsa estabelecida de hipótese em disputa. Rotule e contextualize a segunda antes de removê-la, e publique o balanço quando a política mudar.
  • Declare conflitos de interesse em cartas, pareceres e consultorias, antes que alguém descubra.
  • Ao checar fatos, aplique a mesma régua a governos de todos os partidos e a instituições científicas, e publique as correções das próprias checagens.

Sinais de alerta ​

  • A fonte apresenta como certo algo que a literatura trata como hipótese, ou usa "comprovado" para um estudo único.
  • O estudo citado não tem dados abertos ou auditáveis, e a empresa ou grupo que os forneceu se recusa a permitir verificação.
  • A crítica a uma posição consiste em associar quem a defende a um grupo político, em vez de responder ao conteúdo.
  • A instituição muda de recomendação sem explicar, ou chama de desinformação o que dizia ontem.
  • O texto transforma "pedido de indiciamento", "relatório" ou "inquérito" em condenação, ou o inverso, transforma arquivamento em atestado de inocência plena.
  • A pessoa que dá o conselho médico ganha dinheiro ou poder com a adesão a ele.

Exercícios ​

  1. Escolha uma recomendação de saúde pública da pandemia que mudou (máscaras, distanciamento, intervalo entre doses, origem do vírus). Monte uma linha do tempo de uma página com datas, o que foi dito, a evidência disponível em cada momento e a explicação dada para a mudança. Entregue com uma frase sobre se a comunicação oficial poderia ter sido mais honesta sobre a incerteza.

  2. Aplique o teste de simetria a dois casos do capítulo, um de cada lado do espectro político. Para cada um, escreva em três linhas o que foi afirmado, o que se sabia e o que veio depois. Depois troque os nomes dos protagonistas e releia. Anote onde seu julgamento mudaria e por quê.

  3. Pegue um estudo famoso da pandemia que foi retratado ou contestado, como o da Surgisphere ou a revisão da Cochrane sobre máscaras. Leia o aviso de retratação ou a declaração do editor e escreva um resumo de 200 palavras com o que ficou estabelecido e o que ficou em aberto.

  4. Procure no site do Senado o relatório final da CPI da Pandemia e escolha um único pedido de indiciamento. Siga o caminho dele: foi para a PGR, houve inquérito, houve arquivamento, houve denúncia? Entregue um quadro de uma página com as datas e a fonte de cada etapa, e a situação em que você encontrou o caso hoje.

  5. Escreva uma resposta curta, de cinco linhas, que você daria a um parente que repassou no grupo da família uma afirmação sobre tratamento de saúde sem prova. A resposta não pode ter rótulo nem ironia, e precisa propor uma fonte para checar junto.

Prompt de estudo ​

Vou colar um texto sobre uma recomendação de saúde pública. Identifique, em tabela com três colunas, o que o texto apresenta como fato comprovado, o que apresenta como hipótese e o que apresenta como opinião. Para cada afirmação factual, diga que tipo de fonte seria necessária para verificá-la (ensaio clínico, revisão sistemática, documento oficial, depoimento) e se o texto a cita. Aponte onde o texto usa certeza maior do que a evidência permite e onde usa dúvida maior do que a evidência exige. Não reescreva o texto nem produza novas alegações.

Descreva uma decisão de moderação de conteúdo sobre saúde que mais tarde foi revista. Liste os argumentos que poderiam ser usados a favor da remoção original e os que poderiam ser usados a favor da revisão, com o mesmo peso. Em seguida, proponha critérios gerais que distingam afirmação falsa estabelecida de hipótese em disputa, sem usar este caso como exemplo único.

Fontes e leituras ​

Fontes consultadas para este capítulo, com data de acesso em 30 de outubro de 2026. Links só quando abertos ou confirmados em resultado de busca; os demais itens são citados por título e data.