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2. Propaganda de guerra ​

Doze de maio de 1915 ​

Em 7 de maio de 1915, um submarino alemão afundou o transatlântico britânico Lusitania, com centenas de civis a bordo. A notícia correu o mundo, e a indignação, sobretudo em países ainda neutros, estava no ponto. Cinco dias depois, em 12 de maio, o governo britânico publicou um documento oficial de capa sóbria: o relatório da comissão presidida por James Bryce sobre supostas atrocidades alemãs na Bélgica. O momento não foi acaso de calendário. Foi o instante em que o texto mais podia render.

Bryce era uma figura de peso. Jurista, historiador, ex-embaixador britânico em Washington entre 1907 e 1913, era conhecido e respeitado nos Estados Unidos. A comissão que levava seu nome fora nomeada em dezembro de 1914 pelo primeiro-ministro Asquith, com juristas e historiadores de nome, entre eles Frederick Pollock, Edward Clarke, Alfred Hopkinson, H. A. L. Fisher e Harold Cox. Um sétimo membro, Kenelm Digby, entrou em janeiro de 1915. O relatório dizia ter considerado mais de mil e duzentos depoimentos. Os comissários, porém, não ouviram as testemunhas pessoalmente: trabalharam com depoimentos colhidos por examinadores do Ministério do Interior, em geral de refugiados belgas e de soldados britânicos. Os depoimentos não foram prestados sob juramento, porque os examinadores não tinham autoridade para tomar um. Os nomes das testemunhas foram omitidos, a pretexto de proteger parentes que continuavam sob ocupação. Os originais ficaram guardados no Ministério, e historiadores relatam que não conseguiram localizá-los mais tarde.

O relatório não ficou apenas em Londres. Foi publicado como documento aberto, e uma editora americana o lançou em Nova York. Em 13 de maio, um jornal de Nova York, o Sun, publicou o texto integral na primeira página, e o New-York Tribune também o destacou. Uma repartição secreta de propaganda, o War Propaganda Bureau, instalada em um prédio chamado Wellington House sob o comando de Charles Masterman, distribuiu material relacionado pelo exterior, por meio de editoras comerciais, sem o selo do governo. O relatório foi traduzido em cerca de trinta línguas.

A cena reúne tudo que este capítulo vai examinar. Uma atrocidade real, um relato que mistura o comprovado e o inverificável, uma figura de autoridade que empresta credibilidade, uma distribuição planejada e um momento escolhido. Em dez ou vinte anos, essa combinação seria aprimorada por governos de todos os tipos, em guerras diferentes, com tecnologias novas. A pergunta que o capítulo faz é a que se faz a todo o livro: o que é técnica, o que é mentira, e o que muda quando quem usa a técnica é uma democracia, uma ditadura, um aliado ou um inimigo?

O que você vai levar deste capítulo ​

Primeiro, que a propaganda de guerra moderna nasceu entre democracias, na Primeira Guerra Mundial, e que os regimes autoritários herdaram e ampliaram um repertório que já existia. Segundo, que atrocidade real e atrocidade inventada convivem no mesmo material, e que a mentira se esconde dentro da verdade. Terceiro, que todos os beligerantes usaram emoção, inimigo desumanizado e controle de informação, e que comparar técnicas não significa equiparar regimes. Quarto, que a frase mais famosa atribuída a Goebbels sobre mentiras repetidas não foi dita por ele, e a história dessa atribuição ensina tanto quanto a frase. Quinto, que o Brasil de Vargas montou a sua máquina oficial com base em decreto, e que o desenho institucional está documentado.

A verdade primeiro: o que aconteceu na Bélgica em 1914 ​

Antes de falar de exagero, o dever é descrever o que ocorreu, porque a história da propaganda sobre a Bélgica costuma ser contada de modo a sugerir que tudo era invenção, e isso também é falso.

Em agosto de 1914, o exército alemão invadiu a Bélgica, país neutro. Nas semanas seguintes, tropas alemãs executaram civis em grande número, incendiaram povoados e destruíram partes da cidade universitária de Lovaina, com sua famosa biblioteca. Os historiadores John Horne e Alan Kramer, no livro German Atrocities, 1914, publicado em 2001 (a data aparece como 2002 em algumas referências), trabalharam em arquivos alemães e belgas para reconstituir os fatos. As fontes que consultei resumem a conclusão deles: foram mortos na campanha de 1914, segundo a apresentação da obra pela editora Yale, cerca de seis mil e quinhentos civis belgas e franceses, com a maior parte das mortes na Bélgica entre agosto e outubro, com massacres em Dinant, onde morreram cerca de seiscentas e setenta e quatro pessoas, e em Lovaina, onde morreram cerca de duzentas e quarenta e oito. Os números exatos continuam sendo discutidos, e é mais prudente falar em ordem de grandeza. O núcleo, porém, é incontestável. Houve fuzilamentos em massa de civis, houve incêndios, e a explicação alemã de que franco-atiradores teriam atacado as tropas, um pretexto invocado na época, não resiste aos arquivos.

Agora a mentira, uma vez, marcada. Entre as histórias que circularam na época estava a de um bebê belga que teria tido as mãos cortadas por soldados alemães. Horne e Kramer não encontraram um único caso documentado desse tipo de mutilação. O pacifista britânico Arthur Ponsonby, em Falsehood in War-Time, de 1928, tratou a história como invenção típica de guerra. As histórias de mãos cortadas se baseavam em relatos únicos, de gente sem nome. Não há prova de que tenha acontecido, e há motivos para tratá-la como lenda.

Agora o fato outra vez. Houve milhares de civis belgas assassinados em 1914. A existência de uma lenda, de uma atrocidade que nunca foi comprovada, não reduz esses mortos. Horne e Kramer fazem questão de apontar um efeito colateral desse episódio. Como a propaganda exagerou, o ceticismo dos anos 1920 e 1930 endureceu até se tornar uma crença mais ampla de que as atrocidades de 1914 tinham sido inventadas, o que também era falso. A mentira de um lado alimenta a descrença no fato verdadeiro. Esse mecanismo reaparece no capítulo sobre a pandemia, em que erros de autoridades alimentam descrença em acertos.

Esse é o formato que o leitor verá ao longo do livro: o fato verdadeiro primeiro, a falsidade uma vez, claramente marcada, e o fato de novo. Fazer assim não é capricho de redator. É uma defesa contra o efeito de repetir mentira para desmenti-la.

Wellington House e o repertório britânico ​

A propaganda britânica da Primeira Guerra tem uma peculiaridade: era secreta. O War Propaganda Bureau, a repartição de Masterman, funcionou a partir de setembro de 1914 sem existência pública oficial, com o objetivo de influenciar a opinião de países neutros, principalmente os Estados Unidos. Entre os métodos estavam livros e panfletos publicados por editoras comerciais comuns, sem identificar o governo como origem, a organização de visitas de jornalistas e escritores e a distribuição de textos de autores respeitados. O relatório Bryce foi a peça mais famosa dessa máquina, embora seja preciso notar que ele mesmo era um documento oficial, não secreto.

Os historiadores não costumam dizer que o relatório foi falso. A avaliação mais corrente é que ele misturava um núcleo real, os massacres, com material que não resistiu à verificação posterior. A falha metodológica era visível já no texto: o anonimato das testemunhas, a ausência de juramento, a distância entre os comissários e os depoentes. A autoridade pessoal dos membros cobria essas fraquezas. Esse é um padrão que se vai repetir em outros capítulos, o da credencial que substitui a verificação. Um nome respeitado no cabeçalho convence quem não vai ler o rodapé.

Houve também, entre os Aliados, mentiras que o próprio governo depois reconheceu. A literatura sobre o tema registra a história, de 1917, de que as fábricas alemãs ferviam cadáveres de soldados para produzir gordura e outros produtos. A narrativa teria sido repetida na imprensa britânica e levada ao exterior, e o registro da Câmara dos Comuns mostra o desfecho: em 2 de dezembro de 1925, o secretário do Exterior, Austen Chamberlain, disse que o governo alemão afirmava que a história nunca tivera fundamento, que o governo britânico aceitava a negativa e que esperava que o relato falso não fosse reavivado. O caso aparece aqui como indício de que a invenção de atrocidades não foi exclusividade de nenhum lado.

O Comitê Creel: a propaganda como assunto de Estado democrático ​

Os Estados Unidos entraram na guerra em 6 de abril de 1917. Uma semana depois, em 13 de abril, o presidente Woodrow Wilson assinou a Ordem Executiva 2594, que criou o Committee on Public Information, conhecido como Comitê de Informação Pública, ou, pelo nome de seu chefe, o Comitê Creel. A ordem, cujo texto está no acervo de documentos presidenciais da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, fez de George Creel, um jornalista civil, o presidente do comitê, "encarregado da direção executiva", e deu assento aos secretários de Estado, Guerra e Marinha. O texto da ordem é seco e não declara um propósito. A função se definiu na prática.

Na prática, o comitê foi uma fábrica de comunicação em escala industrial. Produziu um boletim oficial diário, cartazes, filmes, panfletos em várias línguas, notícias para a imprensa e um sistema de oradores voluntários. Operou ainda um acordo de censura voluntária com os jornais, em que as redações aceitavam diretrizes sobre o que não publicar. Em paralelo, e fora do comitê, a Lei de Espionagem de 1917 e a Lei de Sedição de 1918 criaram punições severas para quem criticasse a guerra, o que contextualiza o clima em que a cooperação voluntária da imprensa acontecia. A distinção é importante: o comitê não era, pelo que as fontes mostram, o órgão que punia. Era o órgão que persuadia, num ambiente onde outros órgãos puniam.

O comitê encerrou suas atividades em agosto de 1919. Creel escreveu em 1920 um livro de balanço, com um título que não deixa dúvida sobre a mentalidade da época, How We Advertised America, ou "como anunciamos a América". Note-se a palavra. Creel falava em publicidade com franqueza que hoje soaria estranha a um funcionário público. Quanto ao termo "propaganda", segundo o resumo que li, ele a rejeitava para o trabalho do comitê, em contraste com a propaganda alemã, e preferia descrever o que fazia como informação e educação. A distinção semântica merece uma anotação: a palavra "propaganda" ainda não era um palavrão, e a necessidade de se distanciar dela já mostra para onde o século caminhava.

O caso: os Four Minute Men ​

O melhor exemplo do comitê é uma ideia simples. Os chamados Four Minute Men, os "homens de quatro minutos", eram voluntários que faziam discursos curtos, de cerca de quatro minutos, em cinemas e teatros, nos intervalos entre as sessões. O momento era escolhido porque o público estava lá, sentado, sem escapatória, e a duração, de quatro minutos, era a que a plateia tolerava sem inquietação. Cada orador recebia boletins com os temas da semana: títulos de guerra, economia de alimentos, motivos da guerra.

Os números oficiais do comitê são impressionantes. O relatório do próprio comitê afirma que os Four Minute Men reuniram cerca de setenta e cinco mil oradores voluntários, em cerca de cinco mil e duzentas comunidades, e fizeram 755.190 discursos. Esse é o número que consta tanto no relatório quanto no livro de Creel. Convém um aviso, porque o número é erroneamente reproduzido em alguns lugares como sete milhões e meio, o que é um erro de digitação que se espalhou. E convém outro aviso, mais sério: esses números vêm do próprio comitê, que tinha interesse em exibir resultados. O total de ouvintes, que também aparece em fontes, varia tanto entre elas que não vou citar nenhum valor. Os dados são de contabilidade interna de uma organização que se avaliava a si mesma.

A técnica é a que o leitor já conhece do capítulo anterior, agora com Estado por trás. Público: quem está sentado no cinema. Mensagem: curta, padronizada, repetível. Emoção: dever, solidariedade, medo do inimigo. Canal: presença física, o orador voluntário local, mais crível que um cartaz. Mensageiro: o vizinho, o comerciante, o advogado da cidade. Repetição: a mesma mensagem em milhares de salas na mesma semana. Mensuração: contagem de discursos e de títulos de guerra vendidos.

Há um detalhe fino. A força do formato está em que o orador é alguém do lugar. A mensagem parece vir de dentro da comunidade, e não de Washington. Esse recurso, o uso de mensageiros que parecem pares do público, reaparece em quase toda campanha de influência do século XXI.

A defesa ​

O que uma pessoa em 1917 poderia fazer? Reconhecer o que aquilo era: uma mensagem coordenada de Estado com roteiro central. Perguntar a quem convém cada afirmação, sem concluir que tudo é falso. Notar que a pressão social, no cinema, para aplaudir e depois comprar títulos tornava a dissensão cara. E, para quem escrevia em jornal, entender que o acordo voluntário de censura tinha um custo: os leitores ficavam sem saber o que não estavam sabendo.

Para o Estado democrático, a lição posterior foi dupla. Alguns, como Bernays, viram no sucesso do comitê a prova de que a persuasão em massa funcionava e podia ser aplicada ao comércio. Outros viram nele o retrato de um perigo, e a desconfiança dos anos 1920 e 1930 em relação à propaganda de guerra, de que o livro de Ponsonby faz parte, nasce daí. Ambas as reações se apoiavam numa suposição discutível: a de que a propaganda era muito eficaz. A pesquisa moderna sobre eficácia é menos categórica. A propaganda de guerra talvez tenha amplificado atitudes que já existiam, sem criá-las a partir do nada, mas isso é hipótese, e não resultado firme.

O Ministério de Goebbels: a propaganda como política de Estado total ​

Em 13 de março de 1933, pouco mais de um mês depois da posse de Hitler como chanceler, foi criado o Ministério do Reich para Esclarecimento Público e Propaganda, e Joseph Goebbels foi nomeado ministro. O nome oficial já é uma lição. A palavra "esclarecimento", no título, embrulha uma função de controle.

Dois dias depois, em 15 de março, Goebbels falou à imprensa, e vários trechos do discurso estão traduzidos no acervo de documentos de história alemã. Disse que a propaganda não é um fim em si mesma, mas um meio para um fim, e que, se o meio atinge o fim, o meio é bom. Disse também que o novo ministério não tinha outro objetivo senão unir a nação em torno do ideal da revolução nacional, e que todas as instituições de informação pública do Reich e dos estados deviam ser centralizadas em uma só mão. Em 25 de março, falando a dirigentes do rádio, afirmou que o ministério tinha a tarefa de alcançar uma mobilização do espírito e da mente na Alemanha, e declarou considerar o rádio o instrumento mais moderno e mais decisivo para influenciar as massas. Todas essas frases foram conferidas na tradução do acervo, e o leitor que quiser pode ir ao original.

Repare no que há de diferente em relação ao Comitê Creel. O comitê americano era temporário, nascera da guerra, atuava junto a uma imprensa que continuava formalmente livre e a um Congresso que o fiscalizava, e terminou em 1919. O ministério alemão foi criado em tempo de paz, concentrou imprensa, rádio, cinema, teatro e artes sob um comando, e serviu a um regime que eliminava a oposição. A técnica, repetição, emoção, símbolos, inimigo comum, controle do canal, tem parentesco. O arranjo institucional, não. Uma coisa é uma democracia em guerra que cria uma agência com prazo de validade e jornais que, apesar de tudo, existem. Outra é um Estado que controla todos os canais ao mesmo tempo, sem prazo e sem contraditório. Reconhecer o parentesco técnico e a diferença de regime é a condição para não cair em nenhum dos dois erros: negar que democracias fazem propaganda ou afirmar que toda propaganda é equivalente.

O caso: Triumph des Willens ​

O filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, é o exemplo clássico de propaganda cinematográfica. Hitler encomendou o filme sobre o congresso do partido nazista em Nuremberg, realizado em setembro de 1934. A estreia foi em Berlim, em 28 de março de 1935. As fontes que consultei concordam nesses pontos. Riefenstahl, depois da guerra, sustentou que o filme era um registro documental do congresso, uma tese que críticos e historiadores contestam. A discussão sobre o grau de encenação, a organização do próprio congresso em função das câmeras e a montagem não cronológica de alguns trechos aparece na literatura do tema, e o leitor deve tratá-la como ponto a pesquisar, não como dado que eu tenha verificado diretamente, porque a página principal do museu do Holocausto americano que eu pretendia usar não abriu nesta sessão.

O que importa para o capítulo é a relação entre evento e filme. Um congresso desenhado para parecer grandioso na câmera, com cenografia, coreografia de multidões e arquitetura pensada para o enquadramento, e um filme que transforma essa grandiosidade em prova de unanimidade. É o pseudoevento do capítulo anterior, agora em escala de Estado, e é uma boa ilustração de por que a pergunta "isto aconteceria sem câmera?" é uma boa defesa. Também é preciso reconhecer a eficácia técnica do filme. A linguagem visual que ele inventou foi imitada por propagandistas de todos os lados e por publicitários. Reconhecer a qualidade técnica de uma peça de propaganda não é aderir à causa dela.

A frase que Goebbels não disse ​

Quase todo mundo já ouviu alguma versão desta frase: "uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade", ou "se você contar uma mentira grande o bastante e repeti-la, as pessoas acabarão acreditando". Ela é atribuída a Goebbels em livros, discursos, palestras de marketing e, com frequência, em debates políticos de todos os lados. A atribuição não se sustenta.

O arquivo de propaganda mantido pelo pesquisador Randall Bytwerk, na Universidade Calvin, e o arquivo de propaganda que consultei rejeitam as duas versões. A primeira, a da mentira grande o bastante, é tratada como atribuição equivocada: não há registro dela com esse texto nos escritos de Goebbels que foram checados. A segunda, a da mentira dita mil vezes, é tratada como apócrifa, sem original em alemão nem fonte datada. E uma terceira extensão, que se acopla ao parágrafo da "grande mentira" em alguns sites, dizendo que a verdade é a maior inimiga do Estado, também não tem registro no corpus de Goebbels, segundo os mesmos pesquisadores.

De onde vem então a ideia? De Hitler. No primeiro volume de Mein Kampf, capítulo 10, aparece a expressão "grande mentira", só que com um uso invertido, acusatório. Hitler atribuía a adversários, especialmente aos judeus, a prática de mentir em grande escala, num argumento antissemita. Ou seja, o conceito foi apresentado como defesa contra uma suposta técnica alheia.

E Goebbels? Em 12 de janeiro de 1941, ele publicou um artigo de abertura na revista Das Reich, intitulado "Aus Churchills Lügenfabrik", algo como "Da fábrica de mentiras de Churchill". Na tradução de Bytwerk, está escrito que os ingleses seguem o princípio de que, quando se mente, deve-se mentir grande e persistir. Observe a estrutura: ele atribui o princípio aos britânicos. Não o assume como método próprio. É claro que isso não o absolve de nada. Um ministro da propaganda que acusa o inimigo de mentir está fazendo propaganda, e o regime dele mentiu em escala maciça. A questão é outra: a frase que circula, com o nome dele, não é dele, e a frase real é um espelho. O acusador descreve no outro a técnica que o próprio regime praticava.

Por que isso importa? Por três razões. A primeira é de método: citar frases apócrifas desmoraliza quem as cita, e dá a quem defende o regime criticado um argumento fácil. A segunda é de simetria: a acusação de que o adversário usa a "grande mentira" é, ela mesma, uma técnica de propaganda, e aparece nos dois lados de qualquer polarização. A terceira é de eficácia: a frase de que a repetição gera crença tem apoio parcial na psicologia, como o capítulo 5 mostra, com o efeito da verdade ilusória. Ou seja, existe uma base científica para a ideia, mas ela não precisa de Goebbels para existir, e Goebbels não precisa dela para ter sido o que foi.

A União Soviética: ódio como mobilização, e o limite que o próprio regime impôs ​

A propaganda soviética na Segunda Guerra Mundial tem um personagem emblemático, o escritor e jornalista Ilya Ehrenburg. Durante a guerra, ele publicou uma quantidade enorme de artigos e panfletos, no jornal do exército Krasnaya Zvezda e em outros veículos. As contagens variam conforme a compilação, de algumas centenas a cerca de mil e quinhentos textos, e usei o valor mais alto com cautela, como ordem de grandeza e não como número exato. Um artigo de julho de 1942, com o título que se traduz por "Mate!", ficou famoso como convocação para odiar o invasor e matá-lo. O contexto é de uma invasão que devastou o país, com milhões de mortos soviéticos, e a mobilização da emoção tinha uma lógica evidente para um Estado em guerra de sobrevivência.

O caso fica mais interessante em abril de 1945, quando o Exército Vermelho já estava em território alemão. Em 14 de abril, o jornal Pravda publicou um artigo de G. Alexandrov, chefe do departamento de propaganda do Partido, atacando textos recentes de Ehrenburg. O embaixador americano em Moscou, Averell Harriman, enviou um telegrama ao Departamento de Estado no mesmo dia, hoje reproduzido na coleção de documentos oficiais americanos, relatando o conteúdo. Alexandrov rejeitava a ideia de que todos os alemães eram igualmente culpados e afirmava que o Exército Vermelho jamais teve o objetivo de destruir o povo alemão. Harriman interpretou o artigo como uma expressão importante da política soviética: o Kremlin tolerara o tom de ódio de Ehrenburg por motivos de moral durante a guerra, mas ele se tornara um problema agora que a União Soviética se preparava para lidar com uma população civil alemã. Também observou que o artigo não criticava as críticas de Ehrenburg à administração militar americana na Alemanha.

Dois pontos para o leitor. O primeiro: a leitura de Harriman é uma interpretação de um diplomata de uma potência rival, não um fato. É um bom documento, não uma verdade. O segundo, mais interessante para este capítulo: o Estado soviético modulou a propaganda de ódio conforme a conveniência política, intensificando-a quando servia para mobilizar e freando-a quando atrapalhava a ocupação. A emoção não é espontânea nem nos regimes que a invocam em nome de uma causa que muita gente considera justa. É administrada.

Os Aliados também: informação, censura e mentira "negra" ​

Quem escreve sobre propaganda nazista corre o risco de deixar a impressão de que só o inimigo praticava. Seria uma leitura enviesada. Os Aliados organizaram máquinas próprias, algumas abertas, outras clandestinas.

Em setembro de 1939, o Reino Unido recriou o Ministério da Informação, que cuidava de censura, moral interna e propaganda em países aliados e neutros. Convém não confundir esse ministério com a repartição de Wellington House, da Primeira Guerra: são instituições diferentes, de épocas diferentes, e houve ainda outro ministério da Informação britânico, em 1917, na guerra anterior. Três entidades com nomes parecidos, três momentos. Em 1941, o jornalista Sefton Delmer passou a conduzir, sob outra estrutura, o Political Warfare Executive, emissoras de rádio de propaganda "negra", que fingiam ser transmissões alemãs, como a chamada Gustav Siegfried Eins. A diferença entre propaganda "branca", que assume a origem, e "negra", que a esconde, é uma das categorias mais úteis para o leitor. O governo britânico, uma democracia, operou emissoras que se passavam por outra coisa.

Nos Estados Unidos, o Escritório de Informação de Guerra, o OWI, foi criado em 1942, e o cineasta Frank Capra dirigiu, para o Exército, a série de documentários Why We Fight, uma propaganda assumida em favor da causa aliada. Em termos de técnica, filmes como esse empregam montagem, trilha e narração para produzir convicção, e o fazem de modo declarado. A diferença, e é uma diferença real, está na origem declarada e no contexto institucional: imprensa que continuava a existir, eleições, tribunais. Isso não torna os filmes neutros. Torna-os propaganda de uma sociedade com mecanismos de contestação.

Resumo, em tabela pequena, para fixar as instituições e não as confundir:

InstituiçãoPaísÉpocaNatureza
Wellington HouseReino Unido1914 a 1918secreta, voltada ao exterior
Comitê de Informação PúblicaEstados Unidos1917 a 1919aberta, temporária
Ministério para Esclarecimento Público e PropagandaAlemanha1933 a 1945permanente, controle total
Departamento de Imprensa e PropagandaBrasil1939 a 1945permanente, subordinado ao presidente

O DIP foi extinto pelo Decreto-Lei nº 7.582, de 25 de maio de 1945, que criou em seu lugar o Departamento Nacional de Informações.

O Brasil: Hora do Brasil e DIP ​

O leitor brasileiro tem o direito de perguntar onde o país entra nessa história. Entra com um sistema próprio, documentado em lei.

Em 1935, começou a ir ao ar um programa oficial de rádio, chamado primeiro Programa Nacional e, em seguida, Hora do Brasil. Em 22 de julho de 1938, o Departamento Nacional de Propaganda tornou obrigatória a retransmissão do programa por todas as emissoras do país. O programa, de uma hora, tinha três funções: informativa, com os atos do presidente e dos ministros; cultural, com o que o governo considerava boa música e divulgação de arte regional e de paisagens turísticas; e cívica, com a narrativa da história nacional do ponto de vista oficial e radioteatro sobre temas como a abolição da escravidão e a proclamação da República. A cronologia dos primeiros anos, a data exata de estreia e de mudança de nome, aparece de modo diferente nas fontes, e por isso fico com o ano de 1935.

O quadro institucional se completou em 27 de dezembro de 1939, quando o Decreto-Lei nº 1.915 criou o Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, diretamente subordinado ao presidente da República. O decreto está no site da Presidência. Entre as competências do artigo 2º estavam a propaganda nacional, o turismo, o programa de rádio oficial e a censura do teatro, do cinema, de diversões, da radiodifusão, da literatura social e política e da imprensa, esta nos casos em que a lei previsse penalidades. O decreto previa ainda poderes para impedir a circulação de publicações estrangeiras prejudiciais aos interesses do país e para proibir publicações nacionais que ofendessem o crédito do Brasil, suas instituições ou a moral, e transferia da polícia civil e de uma comissão específica a censura de teatro e de cinema para o novo órgão. O primeiro diretor foi Lourival Fontes, nome associado à montagem da máquina de propaganda do período, que deixou o cargo em julho de 1942, segundo um verbete de dicionário histórico que consultei; o órgão seguiu até 1945 com outros dirigentes.

O contexto político é o Estado Novo, o regime autoritário instalado por Getúlio Vargas em 1937, sem eleições e com o Congresso fechado. O DIP não foi um acidente de percurso. Foi um órgão central da forma como esse regime se comunicava com o público e controlava o que circulava. Note a combinação: censura e propaganda no mesmo órgão. Quem decide o que não pode ser dito é a mesma instituição que decide o que deve ser dito. Esse arranjo é a marca do modelo e a razão de ser tão eficaz como instrumento de Estado.

Convém evitar dois erros. O primeiro é a tese de que o Brasil "copiou" Goebbels. Havia, na época, uma circulação internacional de ideias sobre rádio, imprensa e propaganda, e agentes do governo brasileiro observavam experiências europeias, de países de regimes diferentes. Dizer que o DIP foi uma cópia da máquina nazista exigiria uma prova de linhagem institucional que não apresento. Os fatos documentados são a estrutura legal brasileira e o paralelo funcional com outros regimes autoritários do período. O segundo erro é a conclusão de que, por ser anterior, a propaganda oficial brasileira foi um fenômeno de época encerrado. O programa continua no ar com o nome de A Voz do Brasil. O capítulo 4 do livro trata da propaganda oficial brasileira nas décadas seguintes, inclusive em governos democráticos de partidos diferentes.

Comparar sem equiparar ​

Percorremos instituições de países muito diferentes, e o risco de uma conclusão simplista é grande. De um lado, alguém pode dizer que toda propaganda de Estado é igual, o que apaga diferenças reais entre uma democracia em guerra e uma ditadura. Do outro, alguém pode dizer que só os regimes inimigos fazem propaganda e que a nossa lado faz "informação", o que é uma cegueira conveniente.

Três critérios ajudam a separar o que importa. O primeiro é a origem declarada: a mensagem diz de onde vem, ou finge ser outra coisa? A propaganda assumida e a propaganda disfarçada têm efeitos diferentes sobre a confiança pública. O segundo é a possibilidade de contestação: existe imprensa independente, tribunal, oposição, eleição, e é possível dizer que o governo está errado sem pagar com a liberdade? O terceiro é a relação com os fatos verificáveis: a campanha mistura verdade e exagero, ou inventa do zero? Um relatório que mistura massacres reais e relatos duvidosos tem um problema diferente de um filme que reconstrói uma realidade inteira.

Esses três critérios podem ser aplicados ao presente, a qualquer governo, partido ou empresa. Eles substituem a pergunta "de que lado está este conteúdo?" pela pergunta "como funciona este conteúdo?". É o teste de simetria do livro na forma mais enxuta.

Verdades desconfortáveis ​

A primeira é que as democracias inventaram boa parte da propaganda moderna de massa. O Comitê Creel e a repartição britânica não eram caricaturas de ditadura. Foram organizações de países com imprensa livre, que mobilizaram a opinião pública com técnicas planejadas. As ditaduras do período herdaram, aperfeiçoaram e retiraram o que limitava o método.

A segunda é que a verdade e a invenção podem estar no mesmo documento. Os massacres da Bélgica foram reais, e a propaganda que os usou também embelezou, exagerou e, em alguns casos, repetiu lendas. Quem só vê a invenção apaga os mortos. Quem só vê os mortos defende os exageros. O trabalho honesto está em separar.

A terceira é que a descrença é um efeito colateral previsível. Quando a propaganda de guerra foi exposta nos anos 1920, muita gente passou a duvidar de qualquer relato de atrocidade, inclusive dos verdadeiros. Esse custo é pago depois, por quem precisará ser acreditado quando disser a verdade. Autoridades que exageram pagam com a credibilidade de todo mundo.

A quarta é que a frase mais citada sobre propaganda, a da mentira repetida, é ela própria uma pequena campanha de desinformação, repetida por gente bem-intencionada em todos os campos políticos. Se você a usou em algum debate, a correção é simples: use a frase real, de Goebbels em 1941, ou nenhuma.

A quinta é que o rótulo de "inimigo propagandista" é confortável demais. Cada país conta a história de que o outro lado fazia propaganda e o seu fazia informação. O exame de arquivos, de Londres, de Washington, de Berlim, de Moscou e do Rio de Janeiro, mostra instituições com a mesma arquitetura, e a diferença que importa está nas regras que as limitavam.

Como se defender ​

Para a pessoa, vale um roteiro de seis perguntas sobre qualquer relato de atrocidade ou de ameaça que circule em tempo de tensão, seja guerra, eleição ou crise.

Quem são as testemunhas, e podem ser identificadas? Relato anônimo, de segunda ou terceira mão, merece peso menor, por mais emocionante que seja.

Quem está dando credibilidade? Um nome de peso na capa não substitui a descrição de como o material foi obtido e verificado.

Há confirmação independente, de fonte que não tem interesse na versão? Se todos os que confirmam dependem de uma mesma origem, é uma fonte só.

O fato central é verificável sem depender do detalhe mais chocante? Procure o núcleo documentado e desconfie quando o detalhe mais emotivo é justamente o menos documentável.

Quem se beneficia de eu acreditar nisto agora? O momento da divulgação importa. Um relatório que sai cinco dias depois de um choque público pode ter sido planejado para isso, ou pode ser coincidência. Pergunte, sem concluir.

Eu aceitaria o mesmo nível de prova se o relato prejudicasse o meu lado? Esse é o teste de simetria.

Para jornalistas e historiadores, a defesa é institucional: guardar os originais, publicar a metodologia, separar o que se viu do que se ouviu, e resistir à tentação de usar o nome de uma autoridade como prova. Para o Estado democrático em tempo de crise, o ensinamento é que a transparência da origem, mesmo desconfortável, custa menos do que a descoberta posterior de uma propaganda disfarçada.

Sinais de alerta ​

  • Um relato de atrocidade com detalhes muito vívidos e nenhuma testemunha identificável.
  • Uma autoridade respeitada cujo nome é usado para cobrir material que ela própria não verificou.
  • Um documento divulgado em um momento de choque emocional, quando a crítica é socialmente cara.
  • Uma instituição que ao mesmo tempo decide o que pode ser dito e o que deve ser dito.
  • Uma frase célebre atribuída a um vilão histórico sem indicação de obra, data e página.
  • Um inimigo descrito sempre em bloco, sem distinção entre indivíduos, regime e população.
  • A afirmação de que "nós informamos, eles fazem propaganda".

Exercícios ​

  1. Pegue um relato de atrocidade ou de ameaça que circulou nos últimos anos em qualquer conflito. Separe, em duas colunas, o núcleo documentado e os detalhes não verificados, e anote a fonte de cada item. Entrega: duas colunas, com a fonte de cada linha.
  2. Escolha uma frase célebre atribuída a um líder político qualquer e faça a investigação da atribuição: obra, data, página, tradução. Entrega: um parágrafo dizendo se a frase é confirmada, apócrifa ou indeterminada, com a evidência.
  3. Aplique os três critérios, origem declarada, contestação possível e relação com os fatos, a duas instituições deste capítulo à sua escolha. Entrega: uma tabela de seis células com uma frase cada.
  4. Leia o texto do Decreto-Lei 1.915/1939, no site do Planalto, e liste três competências do DIP que hoje seriam consideradas incompatíveis com a liberdade de imprensa em uma democracia. Entrega: três itens, cada um com o artigo.
  5. Procure um exemplo contemporâneo de "propaganda negra", conteúdo que esconde a origem, descrito em relatório público de uma plataforma ou de um governo. Entrega: o nome do relatório, a data e uma frase sobre quem foi apontado como origem, usando sempre "segundo o relatório".

Prompt de estudo ​

Vou colar o trecho de um relato de atrocidade, de ameaça ou de acusação de guerra, de qualquer lado. Ajude-me a analisá-lo sem produzir novos textos de propaganda. Separe o que é fato verificável do que é detalhe emocional, liste as fontes mencionadas e diga quais são anônimas, de segunda mão ou interessadas. Aponte o que eu precisaria confirmar para tratá-lo como confiável. Aplique o mesmo critério como se o relato prejudicasse o lado contrário. Não afirme nada que não esteja no texto.

Quero comparar três instituições de propaganda de Estado, à minha escolha entre as que o capítulo descreve. Para cada uma, diga se a origem é declarada ou escondida, se havia contestação possível e que relação mantinha com fatos verificáveis. Diferencie fatos históricos de interpretação sua e aponte onde a historiografia discorda. Não invente citações.

Fontes e leituras ​

Documentos e fontes primárias:

Pesquisa e análise:

Para continuar: o capítulo 3 acompanha as mesmas técnicas na Guerra Fria, com medidas ativas e operações encobertas dos dois blocos, e o capítulo 4 volta ao Brasil.