Tema
9. Operações de influência
Trinta e dois domínios numa manhã de setembro
Em 4 de setembro de 2024, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou que estava tomando o controle de 32 domínios de internet. Eram endereços escolhidos para parecer outra coisa. Um deles imitava o Washington Post, outro o Der Spiegel, outros a Fox News, o Le Monde e o jornal alemão Frankfurter Allgemeine. Quem clicasse num link recebido de um perfil qualquer chegava a uma página com a diagramação, as fontes e o tom de um veículo conhecido, e lia ali textos que nenhuma daquelas redações jamais escreveu. O Departamento de Justiça disse que a operação, conhecida entre pesquisadores pelo apelido de Doppelgänger, estava sendo conduzida por empresas russas que agiam sob direção da Administração Presidencial da Rússia. Segundo a petição que sustentou a apreensão, o objetivo era enfraquecer o apoio à Ucrânia e influenciar o ambiente político americano e europeu. No mesmo dia, o Tesouro americano incluiu em sua lista de sanções dez pessoas e duas entidades.
A cena é útil por três motivos. O primeiro é que ela mostra o desenho de uma operação de influência moderna: nada de panfleto, nada de rádio clandestina, e sim um sistema que mistura sites falsos com aparência de veículos reais, anúncios pagos, perfis em redes sociais, influenciadores e, em parte, texto produzido com inteligência artificial. O segundo é a forma da resposta. A apreensão usou argumentos de lavagem de dinheiro e de violação de marca registrada, porque o Estado americano não tem uma lei simples para punir "desinformação estrangeira", e isso diz muito sobre o quanto o direito ainda corre atrás da técnica. O terceiro é que tudo ali é alegação do governo americano em petição judicial. É material sério, assinado por um juiz que autorizou a medida, mas continua sendo a versão de uma das partes de um conflito entre Estados.
Guarde essa mistura de seriedade e cautela, porque ela vai acompanhar o capítulo inteiro. Operações de influência são, por definição, feitas para não serem vistas. Quem as descreve depende de quem consegue enxergá-las: plataformas com acesso aos dados, serviços de inteligência com interesses próprios, pesquisadores com financiamento, jornalistas com fontes. Cada um desses atores é útil e nenhum é neutro. O capítulo percorre os casos mais bem documentados dos últimos dez anos, de vários países, inclusive os de governos que se apresentam como defensores da verdade, e aplica a todos a mesma pergunta: o que está documentado, por quem, com que grau de confiança e com que efeito medido.
O que você vai levar deste capítulo
Operação de influência é esforço coordenado, escondendo a origem, para mudar o que um público acredita ou faz. O que a define é o disfarce e a coordenação, e a falsidade do conteúdo é um ingrediente comum, mas não obrigatório.
Rússia, China, Irã, Estados Unidos e empresas privadas de vários países aparecem em indiciamentos, relatórios de plataformas e reportagens com a mesma lógica de operação. O critério para duvidar ou acreditar tem de ser o mesmo para todos.
A maioria das operações expostas alcançou pouco: muita atividade, pouca audiência real. Isso não autoriza dizer que nenhuma funcionou, e também não autoriza dizer que todas decidiram eleições. A pesquisa sobre efeito é cheia de lacunas, e este capítulo as marca.
Quem atribui uma operação a um governo está fazendo um juízo com graus de confiança, e vale perguntar sempre quem atribuiu, com que prova e com que interesse.
Há defesa para a pessoa, para a redação e para as plataformas, e a defesa mais barata é desconfiar de popularidade que apareceu de repente.
O que é uma operação de influência, e o que não é
O termo vem do vocabulário militar e de inteligência, e as plataformas o adotaram em seus relatórios de transparência. A Meta, dona do Facebook e do Instagram, usa a expressão "comportamento inautêntico coordenado" para descrever redes de contas que escondem quem está por trás e agem em conjunto para enganar o público sobre sua identidade ou seu tamanho. O critério da Meta, repare, olha para o comportamento e não para o conteúdo. Uma rede de contas pode espalhar só verdades e ainda assim ser derrubada, se fingir ser outra coisa. E uma mentira dita por uma pessoa de carne e osso, assinando com o próprio nome, não é operação de influência no sentido técnico, é opinião ou erro, ainda que seja uma mentira.
Essa distinção importa por uma razão prática e por uma razão política. A prática: ela dá às plataformas um critério que não exige decidir o que é verdade, só quem está falando e se está sendo honesto sobre isso. A política: ela impede que o rótulo "operação estrangeira" vire desculpa para desqualificar qualquer opinião de que alguém não goste. Um brasileiro que defende uma tese impopular com a própria conta não é bot, e um brasileiro que coordena quinhentos perfis falsos para parecer maioria não é cidadão exercendo liberdade de expressão. Entre os dois há muita zona cinzenta, e vamos visitá-la.
Outro termo que aparece é a escala de impacto criada por Ben Nimmo, pesquisador de operações de influência, para o centro de estudos Brookings. A chamada Breakout Scale tem seis categorias e mede o quanto uma operação saiu do círculo de suas próprias contas para alcançar gente de verdade. Nas categorias mais baixas, o conteúdo fica preso numa plataforma e é visto sobretudo por perfis da própria rede. Nas mais altas, passa para várias plataformas, é repercutido por comunidades reais, chega a pessoas influentes e eventualmente provoca uma ação fora da internet. Quando a OpenAI e a Meta descrevem operações que derrubaram, quase sempre dizem em que ponto da escala elas ficaram, e quase sempre a resposta é "baixo". Voltaremos a isso.
Um último esclarecimento de vocabulário. Este livro já tratou, no capítulo 3, das medidas ativas soviéticas, a operação de influência da era analógica, e no capítulo 6 do dinheiro que torna a atenção por desinformação rentável. Aqui interessa o encontro das duas coisas com as plataformas: o custo de criar uma identidade falsa caiu para quase zero, e a distribuição ficou nas mãos de empresas que, por interesse e por obrigação, publicam relatórios sobre o que encontram.
O caso: a fábrica de São Petersburgo
O caso mais documentado de operação de influência em rede social é o da Internet Research Agency, a IRA, empresa com sede em São Petersburgo, na Rússia. Em 16 de fevereiro de 2018, um grande júri federal em Washington indiciou 13 cidadãos russos e três empresas, entre elas a IRA e a Concord Management and Consulting, sob a acusação de conspirar para fraudar os Estados Unidos, cometer fraude eletrônica e bancária e roubo de identidade, com o objetivo declarado de interferir no processo eleitoral americano de 2016. Segundo o indiciamento, o dinheiro vinha de companhias controladas pelo empresário Yevgeny Prigozhin, o "cozinheiro de Putin", que anos depois ficaria conhecido por outra razão, o comando do grupo mercenário Wagner e a rebelião de 2023.
O que a acusação descreve é um trabalho de escritório. Funcionários criavam perfis que se passavam por americanos comuns, ativistas, mães, veteranos, gente de comunidades religiosas e étnicas. Mantinham páginas e grupos temáticos, com milhares de seguidores, e usavam dinheiro de anúncios para ampliar o alcance. Compravam contas e identidades de pessoas reais. Organizaram, à distância, atos de rua nos Estados Unidos, contratando pessoas locais para participar sem saber quem estava por trás. A partir de determinado momento de 2016, de acordo com o documento, passaram a apoiar a campanha de Donald Trump e a atacar a de Hillary Clinton.
Duas observações do próprio Departamento de Justiça merecem destaque, porque costumam se perder no debate popular. O vice-procurador-geral Rod Rosenstein disse, ao anunciar o caso, que o indiciamento não alegava que a conduta tivesse alterado o resultado da eleição, e também não alegava que algum americano tivesse participado conscientemente. A acusação trata de uma conspiração, de identidades falsas e de dinheiro, e não afirma efeito eleitoral. O segundo ponto veio depois: em março de 2020, a pedido do próprio governo, a juíza Dabney Friedrich encerrou o processo contra a Concord, a única parte que contratou advogados nos Estados Unidos e se defendeu. A promotoria alegou, entre outras razões, dificuldades de provar o caso sem expor informação classificada. Os demais acusados nunca compareceram e, estando na Rússia, estão fora do alcance da justiça americana; as acusações contra eles seguem de pé, sem julgamento. Em outras palavras, nenhum dos réus foi condenado, e o que se tem é um indiciamento detalhado que a Rússia sempre rejeitou como infundado.
A segunda fonte forte é o relatório do Comitê de Inteligência do Senado americano, de composição bipartidária, que publicou em 8 de outubro de 2019 o volume dedicado ao uso de redes sociais. O comitê concluiu que a IRA operou em favor de Trump e contra Clinton, e que seu alvo desproporcional foram os eleitores negros americanos: nenhum outro grupo de americanos, diz o relatório, foi mais visado. Parte dessa atividade buscava desencorajar o voto ou desviar a atenção da política eleitoral para pautas de identidade. A cobertura da imprensa noticiou ainda que a atividade da IRA aumentou depois do dia da eleição, o que indica que o objetivo de longo prazo era a divisão e não a vitória de um candidato específico.
Convém nomear o que isso significa e o que não significa. Significa que uma organização ligada ao Estado russo manteve, por anos, uma operação de identidades falsas voltada ao público americano, e que isso está documentado por uma investigação criminal e por um comitê bipartidário. Não significa que o resultado da eleição de 2016 tenha mudado por causa disso. Os estudos acadêmicos sobre o alcance real são mais cautelosos do que o noticiário: pesquisas que cruzam dados de uso de Twitter com pesquisas de opinião e com o comportamento de eleitores encontraram exposição concentrada em uma parcela pequena de usuários, já muito engajados e já decididos, e nenhuma evidência convincente de mudança de voto. Essa literatura tem limites, já que enxerga uma plataforma por vez e nunca o conjunto. A conclusão honesta é que o efeito sobre o voto é desconhecido e provavelmente pequeno, e que o efeito sobre a confiança, sobre a sensação de ameaça externa e sobre a própria política doméstica é um debate aberto. O Kremlin negou durante todo o período qualquer interferência, e a negação consta aqui como posição oficial, sem peso de prova, nem a favor nem contra.
A técnica
Vale desmontar o método da IRA, porque ele se repete, com variações, em quase todas as operações deste capítulo.
O público é escolhido por afinidade, e não por posição política. A IRA mantinha páginas para quem gostava de armas, para quem se identificava com o movimento negro, para evangélicos, para imigrantes, para veteranos, para texanos que defendiam a independência do estado. Cada comunidade recebia o que lhe confirmava a identidade e, em doses crescentes, o que lhe aumentava a desconfiança do grupo vizinho. O mensageiro era sempre alguém que parecia pertencer ao grupo. A emoção dominante era a indignação, a de quem se sente atacado. O canal era a rede social comum, onde o conteúdo entrava sem rótulo. A repetição vinha do volume: mil perfis dizendo coisas parecidas parecem uma comunidade. E o resultado era medido, como em qualquer departamento de marketing, em curtidas, compartilhamentos, crescimento de seguidores e, quando possível, comparecimento a eventos.
Note que isso é o marketing de comunidade descrito nos livros irmãos, com uma única diferença: a origem escondida. Se o responsável por uma página de caminhoneiros fosse uma associação de caminhoneiros, estaríamos diante de ativismo comum. Quando o responsável é uma empresa de outro país financiada pelo Estado, o mesmo conteúdo muda de natureza, porque o público foi enganado sobre quem fala, e é isso que justifica a regra de transparência que plataformas e legislações vêm impondo.
O caso: Doppelgänger e o jornal que não existe
Voltemos à cena de abertura. Doppelgänger é o nome que pesquisadores deram a uma operação identificada em 2022, que a Meta chamou publicamente de rede de sites clonados e que organizações europeias de pesquisa documentaram em paralelo. A ideia é simples e eficaz: em vez de criar um veículo novo e tentar construir reputação, copia-se o veículo que já tem reputação. O visitante vê o nome, o logotipo e a diagramação que conhece e acredita estar lendo o jornal de sempre. Para levar gente até lá, a operação usou perfis falsos, anúncios pagos, influenciadores e, em momentos de 2024, conteúdo escrito ou traduzido com ferramentas de IA generativa.
A atribuição tem várias camadas e convém separá-las. A União Europeia e os Estados Unidos sancionaram, em 2023 e 2024, empresas russas apontadas como responsáveis: a Social Design Agency, a Structura National Technology e a ANO Dialog. A petição do Departamento de Justiça de setembro de 2024 afirma que essas companhias agiam sob direção e controle da Administração Presidencial da Rússia. Isso é uma alegação documental de um governo, baseada em documentos internos que, segundo a petição, foram obtidos na investigação, e foi aceita por um juiz para autorizar a apreensão. É forte. Mas não é uma sentença transitada em julgado, e a Rússia, como de costume, rejeita a acusação.
O relatório da OpenAI de maio de 2024, que descreve cinco operações encobertas barradas nos três meses anteriores, inclui o Doppelgänger. A empresa disse que os operadores usaram seus modelos para gerar comentários em redes sociais, em cinco idiomas, e para traduzir e editar artigos de sites ligados à rede. É um dado interessante pelo que revela sobre a tecnologia: a IA entrou como ferramenta de produtividade, para fazer em minutos o que uma equipe de tradutores faria em horas, e não como arma nova capaz de mudar a natureza da operação.
Um segundo dado, igualmente importante, é o resultado. Os relatórios das plataformas descrevem a atividade do Doppelgänger como volumosa e de baixa tração: muitos domínios, muitas contas derrubadas, pouca audiência autêntica. A recomendação de cautela vale para os dois lados dessa afirmação. Baixa tração medida pelas plataformas no conjunto não prova ausência de efeito em nichos, como grupos pequenos de leitores já inclinados à tese. E a existência de uma apreensão espetacular não prova que a operação tenha mudado o voto de alguém.
A defesa
O caso do Doppelgänger ensina uma defesa pouco glamorosa, que funciona: conferir o endereço. Veículos de verdade têm domínio estável, que o leitor pode digitar ou encontrar por busca. Clones usam terminações incomuns, letras trocadas, domínios que não correspondem ao nome da marca. Essa checagem demora dez segundos e não depende de nenhuma ferramenta. Redações podem fazer um passo adicional, que é registrar de forma defensiva domínios parecidos com os seus e monitorar quem os usa. E plataformas podem tratar o clone de marca de veículo jornalístico como categoria própria de violação, com resposta rápida, porque o dano ao leitor e à marca é imediato.
China e Irã: a rede que fala sozinha
A operação chinesa conhecida como Spamouflage, que pesquisadores acompanham desde 2019, é o caso de maior volume já exposto numa plataforma. Em 29 de agosto de 2023, a Meta anunciou a remoção de 7.704 contas no Facebook, 954 páginas, 15 grupos e 15 contas no Instagram ligadas à rede, e disse tratar-se da maior derrubada de uma única rede que já tinha feito. A empresa atribuiu a atividade a pessoas associadas às forças de segurança da China, sem apontar um órgão específico. O conteúdo elogiava o governo chinês e a situação em Xinjiang, criticava os Estados Unidos e a política externa ocidental e atacava críticos do governo de Pequim, entre eles jornalistas e pesquisadores. Atingia audiências em Taiwan, nos Estados Unidos, na Austrália, no Reino Unido e no Japão, além de públicos de língua chinesa. A rede aparecia em mais de cinquenta serviços.
O detalhe mais revelador, porém, é o resultado, e a Meta o disse com clareza: a rede lutava para sair do próprio eco. Grande parte dos comentários vinha de outras contas da própria rede, e a qualidade do texto, com erros de gramática e conteúdo desencontrado, afastava o público real. Esse quadro se repete em relatórios de várias plataformas ao longo dos anos, e a OpenAI, em maio de 2024, voltou a descrever o Spamouflage usando seus modelos para pesquisar atividade em redes sociais, gerar textos em chinês, inglês, japonês e coreano e ajudar na depuração de código. De novo, produtividade, e não salto de qualidade.
O Irã aparece no mesmo relatório da OpenAI com a União Internacional de Mídia Virtual, conhecida pela sigla IUVM, que usou a IA para gerar e traduzir artigos longos publicados num site próprio. A empresa mencionou ainda uma operação russa menor, batizada de Bad Grammar, que produzia comentários políticos curtos em russo e em inglês em um aplicativo de mensagens. Em todos os cinco casos descritos pela OpenAI naquele relatório, a empresa afirmou que as campanhas não pareciam ter aumentado de modo significativo o alcance ou o engajamento por causa de suas ferramentas, e que nenhuma passou da categoria 2 da Breakout Scale.
Vale a pena parar numa lição desse bloco. Quando um relatório diz "derrubamos uma rede", o leitor tende a imaginar uma ameaça concreta que foi neutralizada. O que o conjunto dos relatórios mostra é uma cena mais estranha: operações grandes, caras de manter, com centenas ou milhares de contas, falando principalmente umas com as outras. Isso tem duas leituras plausíveis, e ambas precisam ficar na mesa. A leitura cética diz que o perigo é superestimado, em parte por quem tem interesse em apresentar-se como defensor, seja a plataforma, o governo ou o pesquisador. A leitura prudente diz que operações fracas hoje constroem infraestrutura, contas envelhecidas e redes de relacionamento que podem ser usadas em momentos de alta tensão, e que o fato de uma rede ter alcançado pouco não garante que a próxima alcance. As evidências disponíveis não decidem entre as duas.
O outro lado: o Pentágono nas Filipinas
Seria cômodo um capítulo que só tratasse de Rússia, China e Irã. Mas o plano deste livro obriga a mesma régua para todos os governos, e há documentação de operações encobertas de Estados democráticos, entre eles os Estados Unidos.
Em 14 de junho de 2024, a agência Reuters publicou uma reportagem especial contando que o Pentágono conduziu uma campanha secreta nas Filipinas para minar a confiança na vacina chinesa Sinovac durante a pandemia. Segundo a reportagem, o programa começou na primavera de 2020, sob o governo de Donald Trump, e continuou por alguns meses no governo de Joe Biden, até ser proibido pela Casa Branca na primavera de 2021 e encerrado em meados daquele ano. A Reuters identificou pelo menos 300 contas na rede X, antigo Twitter, criadas para parecerem de filipinos e alinhadas com o programa, usando, entre outras coisas, a hashtag em tagalo que significa "a China é o vírus". O alvo era um país aliado, com sistema de saúde frágil, em plena pandemia, e a mensagem era dirigida a dissuadir pessoas de se vacinar com o produto chinês.
O que cada lado diz também faz parte do caso. Uma porta-voz do Pentágono afirmou que as forças armadas usam diversas plataformas, inclusive redes sociais, para enfrentar influência maligna, e acusou a China de ter iniciado uma campanha de desinformação para culpar falsamente os Estados Unidos pela pandemia. Um alto funcionário reconheceu a existência da propaganda secreta contra a vacina chinesa, mas não deu detalhes. A rede X removeu os perfis apontados pela Reuters depois de ser consultada. Em julho de 2024, a Reuters noticiou que os Estados Unidos comunicaram ao governo filipino que tinham cometido erros nessa iniciativa, e o texto que circulou nesse contexto reconhecia que o Departamento de Defesa de fato enviou mensagens ao público filipino questionando a segurança e a eficácia da Sinovac.
Dois limites importantes. O primeiro: a Reuters declarou que não conseguiu estabelecer o alcance do material antivacina nem em que medida as publicações podem ter contribuído para mortes por covid, de modo que qualquer frase do tipo "a campanha matou filipinos" excede o que a reportagem sustenta. O segundo: a motivação defendida pelo governo americano, contrapor uma campanha chinesa, é argumento, e o conteúdo da mensagem, que punha em dúvida a segurança de uma vacina em meio a uma emergência de saúde pública, é o centro da crítica. Isso vai além de um erro de execução. A discussão que se segue, sobre se é aceitável a um Estado democrático fingir ser cidadão de outro país para desencorajar vacinação, é de natureza ética e política, e este livro registra que o debate existe e que a resposta americana foi admitir falhas, sem pretender resolvê-lo.
A rede pró-Ocidente que as plataformas derrubaram
O segundo caso americano é anterior e mais difuso. Em agosto de 2022, o Twitter e a Meta removeram redes de contas que promoviam mensagens favoráveis aos Estados Unidos e aos seus aliados em países do Oriente Médio e da Ásia Central, e a Graphika e o Observatório da Internet de Stanford publicaram o relatório "Unheard Voice", que descreve quase cinco anos de campanhas encobertas dessa natureza. O Twitter listou cerca de 146 contas no conjunto analisado. Os pesquisadores observaram que o engajamento autêntico era geralmente baixo e que as táticas eram parecidas com as de operações russas e chinesas: perfis falsos, imagens geradas, sites de fachada. Eles não atribuíram a campanha formalmente a nenhum governo.
A atribuição veio em parte por reportagem e em parte por consequência. Em setembro de 2022, o Washington Post revelou que o subsecretário de Defesa para Política, Colin Kahl, tinha ordenado uma revisão das operações psicológicas clandestinas das forças armadas nas redes sociais, depois da divulgação do relatório. Segundo a reportagem, o Comando Central era um dos órgãos cujas operações estavam em exame, e um dos perfis derrubados tinha ligação com uma conta de Twitter que se declarara de operação do comando. O porta-voz do Pentágono, em declaração pública, descreveu a revisão como uma oportunidade de avaliar o trabalho feito nessa área. A distinção entre "contas associadas a militares" e "contas operadas por ordem formal de um comando" é uma que o leitor deve manter, porque os documentos públicos nem sempre permitem fechá-la.
Um parêntese para quem trabalha com política externa: a aprovação interna de operações como essas pode ser legítima segundo a lei do país que as faz, e ainda assim violar as regras das plataformas, e ainda assim ser eticamente discutível. As três camadas se separam. As plataformas aplicaram o mesmo critério de comportamento inautêntico, e o aplicaram, nesses casos, a contas pró-Ocidente. É o tipo de simetria que sustenta a credibilidade do conceito.
Israel, a STOIC e a IA como ferramenta de escritório
Em 29 de maio de 2024, a Meta publicou em seu relatório trimestral de ameaças a derrubada de uma rede originada em Israel: 510 contas no Facebook, 11 páginas, um grupo e 32 contas no Instagram. A empresa atribuiu a operação à STOIC, firma de marketing político e inteligência de negócios sediada em Tel Aviv, e enviou à companhia uma notificação extrajudicial para que parasse. A rede se dirigia sobretudo a públicos nos Estados Unidos e no Canadá, e suas contas se passavam por moradores locais, entre eles estudantes judeus, afro-americanos e cidadãos "preocupados". Publicava textos favoráveis a Israel e críticos do Hamas no contexto da guerra em Gaza. Segundo a Meta, a rede teve audiência pequena, cerca de quinhentos seguidores no Facebook e dois mil no Instagram, e a empresa comprou engajamento falso, como curtidas e seguidores, em perfis do Vietnã. A investigação começou depois de um relatório do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council sobre comportamento inautêntico no X.
Alguns dias depois, em 30 de maio, a OpenAI informou ter banido contas que usavam seus modelos para uma operação que chamou de Zero Zeno, operada pela mesma empresa comercial, para produzir artigos e comentários que depois publicava em vários sites e redes, e em determinado momento passou a tratar também de eleições na Índia. A OpenAI disse que a operação não atraiu engajamento significativo além das contas da própria rede, e a colocou na categoria 2 da escala. Disse ainda, com franqueza que merece registro, que tecnicamente tinha interrompido a atividade, não a empresa.
Para o propósito deste livro, o caso tem uma função bem específica: é a contraparte documentada, na mesma régua e no mesmo nível de detalhe, dos casos russo, chinês e iraniano. A Meta e a OpenAI descrevem o que viram, apontam uma firma comercial e não atribuem a um governo. Há reportagens da imprensa que ligaram o contrato a uma entidade governamental israelense, e este livro não as usa como fato por não ter conseguido conferi-las. O leitor que tem simpatia por Israel pode argumentar que a operação é pequena e que há equivalentes iranianos; o leitor que tem simpatia pelos palestinos pode argumentar que a escala pouco importa diante do contexto de guerra. Os dois argumentos pertencem ao debate político e deixam intocada a documentação: uma firma israelense fez uma operação inautêntica, foi flagrada, teve o alcance medido e foi barrada. A comparação que interessa é entre relatórios, e não entre legitimidades.
O mercado: desinformação por encomenda
Operações de influência não são só obra de Estados. Há um mercado, e as peças dele aparecem sempre que um jornalista consegue entrar na sala.
Em fevereiro de 2023, o Guardian, com parceiros do consórcio Story Killers coordenado pela rede Forbidden Stories e outros veículos, publicou uma investigação sobre um grupo israelense que se apresentava como "Team Jorge". Repórteres disfarçados de intermediários de um cliente em potencial se encontraram com um homem identificado como Tal Hanan, ex-integrante de forças especiais israelenses que trabalha sob o pseudônimo "Jorge". Gravaram as reuniões. Nelas, segundo a reportagem, Hanan exibiu um software chamado Aims, que controlaria um exército de mais de 30 mil perfis falsos, com e-mails, fotos e histórico de atividade, e disse que seu grupo tinha manipulado eleições em dezenas de países, mais de trinta, por meio de invasão de contas, sabotagem e desinformação. Hanan respondeu às perguntas dos jornalistas dizendo negar qualquer irregularidade.
Esse parágrafo é cheio de ressalvas por boas razões. O que está documentado é o que aparece nas gravações e nos materiais obtidos: uma pessoa se apresentando como prestadora desse tipo de serviço, mostrando software e oferecendo preços. As supostas vitórias eleitorais em trinta países são alegações do próprio vendedor, que tem interesse comercial em exagerar, e nenhuma delas foi confirmada em juízo. Não há, nas fontes que consultei, condenação de Hanan, e por isso ele é tratado aqui como alguém exposto por jornalismo investigativo, e não como condenado. A distinção é central: o mercado existe, e a reportagem mostra que há quem venda a capacidade. O quanto essa capacidade entrega ao cliente é outra pergunta, que as gravações não respondem.
O que o caso ensina sobre a técnica é a profissionalização. O comprador não precisa saber como operar uma rede de perfis; ele contrata. Isso reduz o custo de entrada, dilui a responsabilidade e dificulta a atribuição, porque o contratante pode ser uma campanha, uma empresa, um governo ou um particular, e o contratado pode ter vários clientes ao mesmo tempo. Foi esse mesmo mecanismo que o capítulo 6 viu no mercado de seguidores falsos e que o capítulo 7 retoma com a Cambridge Analytica. A resposta jurídica, em quase todos os países, é lenta, porque a lei pune a fraude ou a invasão, e não o serviço de "influência" enquanto tal.
E o Brasil?
Se o leitor brasileiro espera encontrar neste capítulo apenas casos de fora, vai se decepcionar. Há documentação de redes inautênticas ligadas a atores brasileiros, e as plataformas as divulgaram.
Em 8 de julho de 2020, o Facebook anunciou a remoção de uma rede no Brasil composta, segundo o conjunto de dados divulgado pelo Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council (os números variam conforme a fonte; o relatório da Meta pode registrar 33 contas e 37 no Instagram), por 14 páginas, 35 contas pessoais, 38 contas no Instagram e um grupo. A empresa disse ter encontrado ligações com pessoas associadas ao então Partido Social Liberal, o PSL, e com funcionários dos gabinetes do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro. A rede usava perfis falsos, alguns que se passavam por repórteres, e administrava páginas que simulavam veículos de notícias. Falava de eleições, da oposição, de jornalistas e da pandemia. O diretor de política de segurança cibernética da empresa, Nathaniel Gleicher, disse que os autores foram removidos por usarem identidades falsas e comportamento coordenado, e a empresa afirmou não haver evidência de que os políticos operassem as contas pessoalmente. Bolsonaro reagiu criticando a plataforma por suspender contas de seus apoiadores sem tocar nos de seus opositores, e o chamou, em declaração à imprensa, de perseguição. Na mesma rodada de anúncios, a empresa derrubou uma rede de contas ligada ao consultor político americano Roger Stone, aliado de Donald Trump, e outras de origem no Canadá e Equador e na Ucrânia, cujas ligações políticas não conferi.
Em abril de 2022, no primeiro relatório trimestral de ameaças adversárias, a Meta descreveu outra rede brasileira: 14 contas no Facebook, nove páginas e 39 contas no Instagram, que atuavam na desinformação sobre desmatamento na Amazônia, simulando ser organizações não governamentais e ativistas ambientais, para argumentar que nem todo desmatamento é prejudicial e para criticar ONGs ambientais verdadeiras. A empresa disse ter encontrado ligações com indivíduos associados às Forças Armadas brasileiras, sem conseguir determinar se agiam por ordem institucional ou por conta própria. A rede teve engajamento quase nulo e foi abandonada depois de poucos meses. O Planalto e o Ministério da Defesa não responderam de imediato à imprensa na época.
Agora a pergunta de simetria, que este livro obriga a fazer. Esses dois casos envolvem atores próximos a um mesmo campo político, o então governo. Isso reflete o que as plataformas acharam e publicaram, e não necessariamente a distribuição real de operações inautênticas no Brasil. Na pesquisa para este capítulo, não encontrei rede brasileira derrubada pela Meta, nesse período, com atribuição a gabinetes ou militantes do outro campo, mas a ausência de um achado publicado não prova a ausência de um comportamento. Pode refletir diferenças de atividade, de método, de sorte na detecção, ou o fato de que as plataformas investigaram a partir de denúncias de imprensa e de uma CPI que apontava naquela direção. Gleicher chegou a creditar parte da investigação a reportagens e a depoimentos no Congresso brasileiro. Nenhum desses fatores autoriza uma conclusão sobre quem faz mais. A lição técnica é outra: a detecção de operações depende de pistas que alguém seguiu, e quem não é investigado não aparece nas estatísticas. Quem defende que o problema é só de um lado e quem defende que não existe de um dos lados estão, no mínimo, extrapolando dados que não sustentam isso.
O capítulo 8 trata do WhatsApp em 2018, onde o canal fechado torna a observação ainda mais difícil, e o capítulo 10 trata de como o tribunal eleitoral reagiu em 2022.
Medindo o que não se vê
Existe uma pergunta que atravessa todos os casos acima: funcionou? A resposta curta é que quase nunca sabemos, e vale entender por quê.
Primeiro, porque há dois efeitos distintos. Um é a persuasão: mudar o que uma pessoa pensa ou como vota. O outro é a perturbação: aumentar o ruído, a desconfiança, a sensação de que tudo é manipulado, o que serve a quem quer enfraquecer a confiança em instituições, inclusive em favor de um adversário comum. A persuasão é difícil de medir e, quando medida, tende a ser pequena. A perturbação é ainda mais difícil de medir, e é nela que mora a hipótese mais inquietante, a de que a mera existência de operações conhecidas já corrói a confiança, porque qualquer opinião passa a poder ser acusada de falsa.
Segundo, porque os dados que permitiriam medir estão nas plataformas, e as plataformas escolhem o que publicam. Os relatórios de transparência são úteis, mas são relatórios de quem tem interesse em mostrar que age. Pesquisadores externos têm acesso limitado, e há relatos de que unidades acadêmicas que monitoravam desinformação nos Estados Unidos foram encerradas ou reduzidas, em parte por pressão política e jurídica; o caso mais citado é o Stanford Internet Observatory, em 2024, cuja pesquisa a universidade diz ter realocado (não li as fontes primárias), o que pode reduzir a capacidade de revisar os relatos das empresas.
Terceiro, porque exposição não é efeito. Ver um conteúdo, na maioria das medições, não é concordar com ele. O capítulo 5 já mostrou isso para a desinformação em geral: o que circula muito pode ser visto por poucos, e o que é visto por muitos pode ser ignorado.
A Breakout Scale tenta lidar com isso olhando para o caminho do conteúdo, e não para o seu volume. Ela é imperfeita, mas tem a virtude de forçar a pergunta certa: o conteúdo saiu do círculo da rede? Foi repetido por pessoas reais? Provocou alguma ação? Os relatórios de 2023 e 2024 que citei respondem, quase sempre, que não saiu, ou que saiu pouco. Isso, repito, diz algo sobre as operações derrubadas, e não sobre as que não foram achadas.
A técnica da atribuição
A outra pergunta que atravessa os casos é "quem fez?". Atribuir uma operação é um trabalho de inteligência, com graus de confiança, e as fontes que o fazem têm incentivos distintos. Uma plataforma que atribui a um governo estrangeiro se coloca em posição política delicada, e por isso costuma ser cautelosa e falar em "ligações com" e "indivíduos associados a". Um governo que atribui a outro pode estar dizendo a verdade e pode estar também fazendo política externa. Um pesquisador independente tem mais liberdade e menos acesso. Um jornalista tem o texto e a gravação, mas depende de fontes.
Um bom leitor pergunta, diante de uma atribuição, quatro coisas. Que tipo de prova sustenta o vínculo: documentos internos, dados técnicos como infraestrutura compartilhada, finanças, ou apenas semelhança de estilo? Quem atribuiu, e que interesse tem? Há confirmação independente? E o que a outra parte diz, que tipo de resposta oferece? A semelhança de estilo, em particular, é a prova mais fraca de todas, porque imitar o estilo de outro é parte do ofício.
A defesa
A pessoa comum tem pouco a fazer contra uma operação sofisticada, mas muito contra a versão cotidiana dela. O mais barato é desconfiar de popularidade súbita: um perfil criado há semanas que já tem dezenas de milhares de seguidores, um assunto que "explode" de uma hora para outra com os mesmos termos em contas que não se conhecem, uma página que se diz de uma comunidade e nunca mostra uma pessoa, um site de notícias sem expediente, sem nome de repórter e sem endereço. Nenhuma dessas pistas prova nada sozinha. Várias juntas justificam parar antes de compartilhar.
Para quem trabalha em redação, a defesa é institucional: proteger a marca contra clonagem, verificar a origem de fontes anônimas que chegam em volume, acompanhar relatórios de plataformas como material de apuração, e não repetir a atribuição de uma operação sem dizer quem atribuiu. Atribuir com fé é uma forma de fazer o trabalho de propaganda de quem quer mudar a conversa.
Para plataformas, a defesa passa por critério de comportamento e não de conteúdo, por transparência com dados abertos a pesquisadores independentes, pela aplicação da mesma regra a todos os governos, inclusive o de seu próprio país, e por relatórios que digam o que não sabem. O caso do Pentágono mostra que isso é possível: a Meta e o Twitter derrubaram contas pró-Ocidente com a mesma metodologia aplicada ao resto.
Para o Estado, o desafio é maior. Transparência sobre financiamento de publicidade política, rastreabilidade de anúncios, sanções direcionadas a empresas de fachada, cooperação internacional em investigação e, sobretudo, restrição das próprias atividades encobertas. Um Estado que condena publicamente a operação de outro e conduz as suas, sem dizer, tem pouco a oferecer ao debate público. O capítulo 13 discute o equilíbrio entre combater essas redes e não criar poderes de censura que atinjam também a opinião legítima.
Um quadro-resumo
A tabela abaixo reúne os casos principais do capítulo, apenas para facilitar a consulta. O texto acima traz as ressalvas que a tabela não comporta.
| Operação | Origem apontada | Quem expôs | Alcance medido |
|---|---|---|---|
| IRA (2014 a 2018 e depois) | Empresa em São Petersburgo, ligada a Prigozhin | Indiciamento federal (2018), Comitê do Senado (2019) | Concentrado em poucos usuários; efeito sobre voto não demonstrado |
| Doppelgänger (2022 a 2024) | Empresas russas, segundo o Departamento de Justiça | Meta, Departamento de Justiça, OpenAI | Muitas contas e domínios, baixa tração relatada |
| Spamouflage (2019 a 2024) | Pessoas ligadas a segurança pública da China, segundo a Meta | Meta, OpenAI, pesquisadores | Volume alto, audiência autêntica baixa |
| Filipinas (2020 a 2021) | Forças armadas dos EUA | Reuters (2024) | Alcance e efeito sobre vacinação não estabelecidos |
| Zero Zeno (2024) | Firma comercial em Tel Aviv | Meta, OpenAI | Baixo; categoria 2 na escala |
| Rede brasileira (2020) | Ligações com gabinetes e partido do governo | Meta, Atlantic Council | Dezenas de contas e páginas; audiência em seguidores não conferida |
Verdades desconfortáveis
Os casos documentados neste capítulo mostram que democracias e autocracias já conduziram operações encobertas; não há base para dizer que todos os governos o fazem, nem para medir a frequência. O que se pode dizer é que ser exposto depende da transparência das instituições locais e da atenção das plataformas, e que isso não mede a virtude de cada um. Quem aplaude a exposição do adversário e minimiza a do aliado está fazendo propaganda, não análise.
As plataformas, que aparecem neste capítulo como fiadoras da detecção, são também empresas com interesse em mostrar que o problema está sob controle, e em desviar a conversa de seu próprio modelo de negócio. Seus relatórios são fontes valiosas e seus números não são auditados por ninguém de fora.
A ideia de que operações estrangeiras decidem eleições é popular e pouco sustentada. A ideia contrária, de que nada disso importa, também é. O efeito mais plausível é indireto: erosão de confiança, pretexto para desqualificar adversários domésticos como "bots" e, em países polarizados, combustível de acusações mútuas de manipulação.
O rótulo "operação de influência estrangeira" já foi usado, em vários países e por governos de vários matizes, para deslegitimar protestos, jornalismo e oposição. Uma lei ou uma política pública que combata o fenômeno precisa ser desenhada de modo a resistir a esse abuso.
Por fim, o mercado privado dilui responsabilidade. Quando a operação é terceirizada, o contratante diz que não sabia, o contratado diz que cumpria um serviço, e a plataforma derruba contas sem punir ninguém. Sem sanção para quem paga, o incentivo continua.
Como se defender
Para você, como leitor e usuário:
- Antes de compartilhar uma notícia chocante, confira o endereço do site e se ele existe de verdade pela busca, e não pelo link recebido.
- Olhe a idade e o histórico do perfil: data de criação, tipo de assunto, se há pessoas reais interagindo, se a foto é de banco de imagens.
- Desconfie de unanimidade rápida: muitos perfis diferentes dizendo quase a mesma frase em poucas horas.
- Quando uma reportagem atribui uma operação a um governo, procure quem atribuiu, com que prova e o que a outra parte respondeu.
- Aplique a mesma régua a operações de países de que você gosta e de países de que você não gosta.
Para uma redação ou assessoria:
- Registre domínios parecidos com o seu e monitore clonagem de marca.
- Trate o relatório de uma plataforma como fonte a ser conferida, não como verdade, e cite a atribuição como atribuição.
- Tenha política escrita para fontes anônimas que chegam em volume.
Para uma plataforma ou órgão público:
- Use critério de comportamento e publique o que a regra não captura.
- Dê acesso a pesquisadores independentes, com salvaguardas de privacidade.
- Exija, em publicidade política, identificação de quem paga.
Sinais de alerta
- Perfil novo com audiência grande e sem rastro de vida anterior.
- Páginas que se dizem de uma comunidade e nunca mostram uma pessoa, um endereço ou um evento.
- Site de notícia sem expediente, sem assinatura, com domínio estranho ao nome da marca que imita.
- Mesmo texto, com pequenas variações, em dezenas de contas em curto intervalo.
- Atividade que cresce em horários incompatíveis com o fuso do público que diz representar.
- Conteúdo que provoca indignação imediata contra um grupo e nunca propõe algo concreto.
- Uma atribuição publicada sem dizer quem atribuiu nem com que prova.
Exercícios
Escolha um dos relatórios trimestrais de ameaças da Meta, de qualquer época, e escreva meia página resumindo duas operações descritas: quem foi apontado, com que grau de confiança, qual foi o alcance medido e o que a empresa diz que não sabe. Entregue o resumo e uma frase sobre o que mais o surpreendeu.
Pegue uma notícia recente que afirme que uma campanha foi obra de um governo estrangeiro. Responda por escrito às quatro perguntas da seção sobre atribuição: tipo de prova, quem atribuiu e com que interesse, confirmação independente e resposta da outra parte.
Faça o teste de simetria: liste uma operação de influência atribuída a um país de que você gosta e outra a um país de que você não gosta, e descreva ambas em três linhas, com o mesmo vocabulário. Depois reescreva trocando os países e verifique se algum adjetivo muda.
Abra o perfil de uma conta de grande audiência que você segue e faça uma checagem de dez minutos: data de criação, histórico de nomes, tipo de interação, origem das imagens. Registre o que encontrou e o que não conseguiu saber.
Prompt de estudo
Vou colar o trecho de um relatório de transparência de uma plataforma sobre a derrubada de uma rede de contas. Separe, em colunas, o que o texto afirma como fato verificável, o que afirma como atribuição (e com que grau de confiança), o que afirma sobre alcance e o que admite não saber. Aponte onde a linguagem sugere mais certeza do que a prova apresentada. Não reproduza o conteúdo falso distribuído pela rede; descreva-o em termos gerais.
Aplique a mesma análise a um relatório sobre uma operação atribuída a um governo aliado do país onde estou e a outro sobre um governo adversário, e diga se o texto usa critérios diferentes. Se houver diferença, aponte as frases.
Fontes e leituras
Documentos oficiais e de empresas:
- Departamento de Justiça dos Estados Unidos, comunicado de 4 de setembro de 2024 sobre a apreensão de 32 domínios ligados à operação Doppelgänger (justice.gov).
- Departamento de Justiça dos Estados Unidos, indiciamento United States v. Internet Research Agency et al., 16 de fevereiro de 2018; decisão de arquivamento quanto à Concord Management, março de 2020.
- Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos, volume 2 do relatório sobre interferência russa, "Russia's Use of Social Media", 8 de outubro de 2019 (intelligence.senate.gov).
- Meta, relatórios trimestrais de ameaças adversárias: segundo trimestre de 2023 (Spamouflage), primeiro trimestre de 2022 (rede brasileira ligada ao desmatamento) e primeiro trimestre de 2024 (STOIC); anúncio de 8 de julho de 2020 sobre comportamento inautêntico coordenado.
- OpenAI, "Disrupting deceptive uses of AI by covert influence operations", 30 de maio de 2024 (openai.com).
- Graphika e Stanford Internet Observatory, "Unheard Voice: Evaluating five years of pro-Western covert influence operations", agosto de 2022 (purl.stanford.edu/nj914nx9540).
- Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council, "Facebook removes inauthentic network linked to Bolsonaro allies", 8 de julho de 2020 (dfrlab.org).
Reportagens:
- Reuters, "Pentagon ran secret anti-vax campaign to undermine China during pandemic", 14 de junho de 2024; e a reportagem de julho de 2024 sobre o reconhecimento de erros aos filipinos. A cobertura de 14 de junho pode ser lida também na Al Jazeera (aljazeera.com/news/2024/6/14).
- The Guardian, "Revealed: the hacking and disinformation team meddling in elections", 15 de fevereiro de 2023, e o projeto Story Killers (Forbidden Stories e parceiros).
- The Washington Post, setembro de 2022, sobre a revisão ordenada no Pentágono; Axios, 30 de agosto de 2023, sobre a derrubada da rede Spamouflage (axios.com).
- Reuters e outras agências, 16 de fevereiro de 2018, sobre o indiciamento da IRA; NPR, 17 de março de 2020, sobre o arquivamento do caso Concord.
Para ir além: Ben Nimmo, "The Breakout Scale: Measuring the impact of influence operations", Brookings, 2020; literatura acadêmica sobre exposição à IRA no Twitter (Bail et al., 2020, PNAS), com a ressalva de que este livro não reabriu os artigos integrais e os cita como indicação de leitura.