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3. Guerra Fria e medidas ativas ​

Um telegrama em 7 de setembro de 1985 ​

Em 7 de setembro de 1985, partiu de Moscou um telegrama do KGB para o serviço de segurança do Estado da Bulgária. Era o documento de número 2955, classificado como ultrassecreto, e ele não pedia espionagem no sentido clássico. Pedia ajuda para espalhar uma ideia. O texto, que décadas depois seria localizado em arquivos búlgaros e publicado pelo Wilson Center, dizia que o KGB conduzia uma série de medidas sobre uma doença nova e perigosa que surgira nos Estados Unidos, a aids, e que o objetivo era criar no exterior uma opinião favorável à União Soviética: a de que a doença seria resultado de experimentos secretos com um novo tipo de arma biológica, feitos pelos serviços secretos americanos e pelo Pentágono, e que teriam saído do controle. A tradução é minha, a partir da versão em inglês publicada pelo Wilson Center.

Repare no que o telegrama não faz. Ele não inventa a doença nem escreve a mentira inteira do zero. Pede aos colegas búlgaros que reforcem uma tese que já circulava, e que a misturem com fatos verdadeiros: números de casos nos Estados Unidos, a existência real de laboratórios militares em Fort Detrick, o preconceito contra homossexuais e imigrantes que a epidemia despertava. Pede, em resumo, que a mentira seja servida dentro de uma refeição de verdades. E pede que ela apareça em veículos que não pareçam soviéticos, para que quem lê não saiba que está lendo propaganda de Estado.

Esse é o desenho de uma medida ativa, a categoria que os serviços soviéticos usavam para operações de influência que iam além da coleta de informação: desinformação, documentos forjados, agentes de influência, organizações de fachada, rumores plantados. Este capítulo parte desse telegrama porque ele é raro. Quase nunca temos a ordem original de uma campanha de desinformação, com data, número e destinatário. Neste caso temos, e podemos seguir a mentira desde a carta anônima num jornal indiano até 80 países, passando por um cientista alemão-oriental com credencial acadêmica.

Mas seria um capítulo mutilado se parasse no lado soviético. A Guerra Fria foi uma guerra de narrativas travada por dois blocos, e o bloco ocidental também usou rádio, dinheiro encoberto, jornalistas pagos e fundações de fachada. As duas histórias entram aqui com a mesma régua, e uma terceira, brasileira, mostra como a disputa chegou à eleição de 1962 e a uma comissão parlamentar de inquérito em 1963. A diferença entre os casos existe e será dita; a semelhança de mecanismo também.

O que você vai levar deste capítulo ​

Medida ativa é desinformação como política de Estado: mistura fato e falsidade, passa por canais que parecem independentes e é medida pelo eco que produz.

A campanha soviética sobre a origem da aids está documentada em arquivos primários e funcionou por anos, em dezenas de países, mesmo sendo falsa.

Os Estados Unidos também mantiveram propaganda encoberta: emissoras financiadas em segredo pela CIA, relações pagas com jornalistas e, no Brasil de 1962, apoio financeiro a candidatos. A "Operação Mockingbird" como controle total da imprensa é mito; o que a documentação mostra é menor, mais específico e mesmo assim grave.

Comparar os dois blocos não os torna equivalentes. Os mecanismos se parecem; o que mudou foi o que cada sistema fez depois de ser descoberto.

O que são medidas ativas, e por que o nome importa ​

A expressão em russo, aktivnye meropriyatiya, designava um conjunto de operações que o aparato de segurança soviético tratava como parte normal do trabalho, ao lado da contrainteligência e da espionagem. Não era um departamento isolado de "mentiras". Era uma forma de agir sobre o mundo exterior para mudar o que as pessoas pensavam e o que governos decidiam. Isso incluía publicar notícias falsas em veículos amigos ou comprados, fabricar cartas e documentos atribuídos a adversários, apoiar organizações aparentemente civis que defendiam a posição de Moscou e cultivar pessoas que, sem saber ou sabendo, repetiam a linha soviética em seus países.

O ponto que interessa ao leitor é o desenho econômico da coisa. A medida ativa é barata para quem a lança e cara para quem precisa desmenti-la. Um telegrama, uma carta anônima e um jornal pequeno custam pouco. Já corrigir o resultado exige cientistas, jornalistas, diplomatas e, sobretudo, tempo, e o tempo joga a favor de quem fala primeiro. Se você já leu o capítulo 1, reconhece a lógica de Bernays aplicada à geopolítica: criar um fato que pareça espontâneo e deixar que a imprensa o carregue.

Uma observação sobre vocabulário, porque o texto popular erra muito aqui. Na internet, a campanha da aids é chamada de "Operação INFEKTION" (às vezes escrito com inicial maiúscula, como um nome de guerra). O pesquisador que mais se debruçou sobre os arquivos da Alemanha Oriental e da Bulgária, em estudo publicado no Journal of Cold War Studies, e o texto do Wilson Center que o resume, afirmam que o nome "Infektion" não aparece nos arquivos búlgaros nem nos da Alemanha Oriental sobre a aids. O que aparece, nos registros da Stasi, é "Denver" (Aktion Denver), anotado na central de fichas do serviço de inteligência externa, a HVA, em 17 de julho de 1986. "Infektion" ficou como rótulo jornalístico posterior. Vou usar os dois nomes sabendo a diferença: "Denver" é o codinome documentado; "INFEKTION" é o apelido que pegou.

A verdade primeiro: de onde veio o vírus ​

Antes de contar a campanha, convém fixar o que a ciência estabeleceu, porque a mentira vai aparecer mais de uma vez e é melhor que o fato chegue antes dela. O vírus da imunodeficiência humana, o HIV, é derivado de vírus de imunodeficiência de primatas não humanos da África central. A transmissão para humanos aconteceu no começo do século XX, muito antes de qualquer laboratório do Pentágono ter condições de manipular vírus dessa maneira. A epidemia foi identificada clinicamente nos Estados Unidos em 1981, e a tese de que o vírus teria sido fabricado em laboratório não é aceita pela comunidade científica. Essa é a base. O resto do capítulo trata de como uma tese contrária a essa base foi plantada, espalhada e, em parte, ficou.

O caso: da carta do Patriot a 80 países ​

O estudo mais completo em fonte aberta sobre a campanha é um artigo da revista Studies in Intelligence, publicado em dezembro de 2009. Convém dizer de onde ele vem: a revista é da CIA, uma das partes da disputa que o capítulo descreve. Por isso confrontei suas informações com o texto do Wilson Center, que reproduz os documentos de arquivo, e com a literatura acadêmica que usa os arquivos búlgaros e alemães. Onde as fontes coincidem, afirmo. Onde só a revista da CIA fala, aviso.

A primeira peça apareceu em 17 de julho de 1983. Um jornal indiano pequeno chamado Patriot publicou uma carta anônima com o título "A aids pode invadir a Índia: doença misteriosa causada por experimentos dos EUA". A carta dizia ser de um conhecido cientista e antropólogo americano em Nova York e afirmava que a aids era resultado de experimentos do Pentágono para desenvolver armas biológicas perigosas. Segundo o estudo da CIA, o Patriot tinha sido criado em 1967 com envolvimento do KGB justamente para circular artigos de inspiração soviética, e tinha uma tiragem em torno de 35 mil exemplares, pequena para os padrões indianos. Como abertura de campanha, a carta foi um fracasso: nenhum veículo a reproduziu na época. A mesma fonte propõe uma explicação: a aids ainda não era assunto no subcontinente.

A carta ficou quase três anos sem uso. Em 1985, o contexto era outro. Mikhail Gorbachev era o novo secretário-geral do Partido Comunista soviético, e a campanha foi retomada nesse ambiente. É nesse momento que o telegrama 2955 pede apoio aos búlgaros, em 7 de setembro. Segundo o Wilson Center, o próprio telegrama usou como "fato" o artigo do Patriot de 1983, o que significa que o KGB citava, como se fosse fonte independente, um jornal que ele próprio havia criado.

Em 30 de outubro de 1985, a Literaturnaya Gazeta, que o estudo da CIA descreve como o principal canal do KGB na imprensa soviética para propaganda e desinformação, publicou um artigo de Valentin Zapevalov com o título "Pânico no Ocidente, ou o que se esconde por trás da sensação em torno da aids". O artigo descrevia a doença com exatidão, citava publicações americanas conhecidas e, a partir daí, conduzia o leitor ao laboratório de Fort Detrick. Era o desenho da fórmula do telegrama: fato verificável na entrada, mentira no miolo.

A segunda fase foi mais engenhosa, porque trocou a voz soviética por uma voz alemã e acadêmica. Jakob Segal, biólogo nascido em São Petersburgo em 1911 e radicado na Alemanha Oriental, publicou com a esposa, Lilli Segal, e coautores um estudo de 47 páginas intitulado "AIDS: Its Nature and Origins" ("Aids: sua natureza e origens"). Segundo o estudo da CIA, a Stasi forneceu material para o texto, e o serviço de inteligência externa da Alemanha Oriental, a HVA, tinha em Segal um colaborador de longa data. O Wilson Center descreve a etapa de 1986: um plano da Stasi, de 3 de setembro de 1986, para fornecer um estudo científico que "provasse" a origem americana da doença.

O estudo circulou em Harare, no Zimbábue, às vésperas da cúpula dos Países Não Alinhados (1 a 6 de setembro de 1986), onde, segundo a revista da CIA, havia representantes de mais de cem países do Terceiro Mundo, e entre eles quatro oficiais da HVA e vinte do KGB distribuindo o texto à imprensa e aos delegados. Daí a história passou para jornais ocidentais. O Sunday Express e o Daily Telegraph, dois jornais britânicos estabelecidos, reproduziram as "descobertas" de Segal sem muito ceticismo, de acordo com o estudo. Em 18 de fevereiro de 1987, o diário alemão tageszeitung publicou uma longa entrevista do escritor Stefan Heym com Segal. Ao final de 1987, afirma a revista, a história tinha circulado na mídia de 80 países, em mais de 200 periódicos e em 25 idiomas.

Esse número é do estudo da CIA, e eu o trato como estimativa de uma das partes. O que ele sugere, no entanto, bate com o resto do que se sabe: a mentira atravessou continentes porque cada passo parecia vir de um lugar diferente. Quem lia na África um jornal que repercutia o texto de Harare não via Moscou nem Berlim Oriental. Via "cientistas" e "revelações".

Há ainda o desfecho soviético, que muita gente desconhece. Em 23 de outubro de 1987, o secretário de Estado americano George Shultz, numa reunião com Gorbachev, acusou a União Soviética de espalhar "lixo" sobre a aids (a expressão em inglês foi bum dope). Pouco depois, a Academia de Ciências soviética, por meio do jornal oficial Izvestia, negou publicamente a tese de que a aids fosse criada artificialmente. No verão de 1988, o presidente da Academia, Vadim Pokrovskiy, disse numa entrevista que nenhum cientista soviético compartilhava aquela posição. Mas o jornal Sovetskaya Rossiya continuou a defender o direito da mídia soviética de "relatar visões diferentes", e a Rádio Moscou transmitiu, em 13 de fevereiro de 1988, uma entrevista sem crítica com Segal. A veiculação nos meios do bloco soviético diminuiu até o verão de 1988, mas a história seguiu aparecendo em jornais do Terceiro Mundo ligados a Moscou. Em 1992, o diretor do serviço de inteligência externa russo, Yevgeny Primakov, confirmou a participação do KGB. Antes disso, oficiais aposentados da inteligência da Alemanha Oriental, entre eles Günter Bohnsack, já tinham relatado a participação de seu departamento.

A técnica: como se constrói uma mentira que viaja ​

O caso é um laboratório limpo, e vale desmontá-lo em partes, porque elas aparecem em campanhas atuais com outras roupas.

O público era duplo. Havia o público de países do Terceiro Mundo, para quem a mensagem servia a um fim estratégico: fazer da presença militar americana um risco sanitário. O estudo da CIA diz que os soviéticos deram atenção especial a países que tinham bases militares dos EUA em seu território. E havia o público ocidental, que a campanha atingia via jornais que não eram comunistas.

A mensagem misturava fato e falsidade. A carta do Patriot usava a existência real de pesquisa biológica militar em Fort Detrick, e isso não era fantasia. O estudo da CIA lembra que, nos anos 1970, investigações da imprensa e do Congresso americano revelaram casos reais de pesquisa em guerra biológica no início da Guerra Fria, entre eles a atuação de uma divisão secreta em Fort Detrick que criou armas biológicas para a CIA, sob o codinome MKNAOMI. Uma mentira apoiada em fatos reais desconfortáveis para o adversário tem mais chance de pegar. O público que ouve "o Pentágono já fez experimentos secretos" não está errado; está sendo conduzido de uma verdade parcial a uma falsidade inteira.

A emoção era o medo de uma doença nova e sem cura, somado à desconfiança do governo americano. A aids carregava estigma, mortalidade alta e ausência de tratamento eficaz na época. Uma explicação com culpado é mais confortável do que a explicação científica, que diz que um vírus saltou de espécie por acaso.

O canal era o ponto de genialidade operacional: um jornal pequeno que o KGB controlava, depois um jornal soviético de prestígio, depois um cientista, depois a imprensa livre do Ocidente, que replicou. A cada etapa, a fonte parecia mais independente. É a técnica da lavagem de informação: o dado entra sujo por uma ponta e sai, na outra, com selo de credibilidade.

O mensageiro foi Segal. Ele tinha a credencial certa. Segundo o estudo da CIA, Segal era de origem judaica e tinha deixado a Alemanha quando os nazistas chegaram ao poder, de modo que um cientista alemão com essa biografia não parecia porta-voz de Moscou. O estudo considera a escolha dele uma jogada de mestre, e eu o cito com cautela: a fonte é uma das partes, e a interpretação "jogada de mestre" é de avaliação posterior. O fato documentado é que a HVA o usou e que ele aderiu com convicção. Ao longo dos anos, segundo a revista, Segal passou a se dedicar de forma genuína e apaixonada à tese. Não precisava ser cínico para servir à operação, e essa é uma das lições mais úteis do caso: o melhor mensageiro de uma mentira é alguém que acredita nela.

A repetição veio pelo efeito de ricochete. Cada veículo que repercutia a história servia de "fonte" para o seguinte. O estudo registra que a versão voltou à imprensa soviética citando a ocidental, e a literatura sobre o tema registra que círculos do Ocidente, como o de Lyndon LaRouche, propagaram a tese de forma independente, o que alimentava o ciclo. Trato esse último ponto como informação secundária, porque não reabri os documentos que o sustentam.

A medida de resultado era o eco. Um funcionário americano citado na revista resumiu: se a repercussão na mídia é um indicador, a campanha foi muito bem-sucedida. É o critério de quem mede alcance e não convencimento, e convém separar as duas coisas. Há uma segunda medida, que é a crença persistente. O estudo da CIA cita pesquisas americanas: em 1992, 15% de americanos escolhidos aleatoriamente consideraram definitivamente ou provavelmente verdadeira a frase "o vírus da aids foi criado deliberadamente em um laboratório do governo"; em uma pesquisa de 1997, 29% de afro-americanos consideraram verdadeira ou possivelmente verdadeira a frase de que a aids foi criada em laboratório para infectar pessoas negras.

Aqui cabe a honestidade epistêmica que o livro exige. Esses números mostram que a crença existe, mas não provam que ela veio da campanha soviética. A desconfiança de comunidades negras americanas em relação ao sistema de saúde tem raízes próprias e documentadas, como o estudo de Tuskegee, em que o serviço de saúde pública dos Estados Unidos acompanhou homens negros com sífilis sem tratá-los, entre 1932 e 1972. A campanha encontrou terreno adubado por abusos reais; não o criou. Dizer que a Operação Denver "causou" a crença é afirmar mais do que os dados permitem. Dizer que ela contribuiu, num ambiente de desconfiança já existente, é uma hipótese razoável.

A defesa: o que a história mostra ​

O primeiro ponto de defesa é a autoria. Em 1987, a pressão diplomática funcionou melhor do que o desmentido técnico: foi depois da reunião Shultz-Gorbachev que a Academia de Ciências se afastou publicamente da tese. Isso sugere que, contra uma campanha de Estado, a correção científica sozinha é fraca, e o custo político para o patrocinador é o que muda comportamento.

O segundo é o hábito de perguntar pela cadeia de citações. Cada elo da campanha citava o anterior, e nenhum levava a uma observação original. Um leitor que pedisse, para qualquer artigo, a fonte primária encontraria um jornal pequeno e uma carta anônima, e pararia ali.

O terceiro é a arquivologia. A campanha só é conhecida em detalhe porque os arquivos do Pacto de Varsóvia foram abertos depois de 1989. Essa é uma defesa de longo prazo: a transparência posterior de documentos é o que permite separar o que foi mito do que foi ordem. Ela não protege quem leu a notícia em 1986, mas permite que a história seja contada corretamente.

A régua aplicada ao outro lado: Rádio Europa Livre, a USIA e a CIA ​

Seria desonesto contar apenas o telegrama de Moscou. O bloco ocidental também fez propaganda, e uma parte dela foi encoberta.

Em 1953, o governo americano criou a United States Information Agency, a USIA, para a informação e a propaganda oficial externa. Essa parte era declarada: era uma agência do governo, com nome, orçamento e função públicos. A parte encoberta ficava com a CIA.

O exemplo mais claro são as emissoras Rádio Europa Livre e Rádio Liberdade (Radio Free Europe e Radio Liberty), voltadas a ouvintes atrás da Cortina de Ferro. A Rádio Liberdade começou, em 1951, com um comitê de cidadãos americanos formado a pedido do governo, com fundos confidenciais da CIA, conforme o texto de um periódico acadêmico da Georgetown University publicado em 2000. Allen Dulles foi membro fundador do comitê da Europa Livre. As emissoras se apresentavam ao público como iniciativas privadas, financiadas por doações de cidadãos, e foi assim por vinte anos. Em 1971, o senador Clifford Case confirmou publicamente que a CIA financiava a maior parte das emissoras, e o Congresso passou a financiá-las por dotação orçamentária aberta. O que era financiamento encoberto virou financiamento público.

O ponto que interessa à análise é o seguinte. A rádio, em si, não é uma mentira. Uma emissora que levava notícias a países de imprensa controlada prestou um serviço que muitos ouvintes valorizaram, e o texto da Georgetown registra que, durante a Revolução Húngara de 1956, as emissoras evitaram exagerar a importância da revolta. O problema de transparência estava na origem do dinheiro, escondida do público. É uma diferença de natureza em relação ao telegrama sobre a aids, em que o conteúdo central era falso. Mas é uma semelhança de método: ocultar o patrocinador para que a mensagem pareça uma voz independente.

O caso: o Comitê Church e os jornalistas ​

Em 27 de janeiro de 1975, seis dias depois de apresentada, o Senado americano aprovou a resolução que criou a comissão presidida por Frank Church para investigar atividades de inteligência. O relatório final saiu em abril de 1976. No Livro I, o relatório diz que a CIA "mantinha relações encobertas com cerca de 50 jornalistas americanos ou funcionários de organizações de mídia dos EUA" (p. 192). A citação é reproduzida por um arquivo acadêmico de estudos de propaganda e confere com o que a literatura sobre o tema repete; a tradução é minha.

O mesmo documento mostra o que aconteceu depois. Em 11 de fevereiro de 1976, o então diretor da CIA, George Bush, anunciou que a agência não faria relação paga ou contratual com nenhum correspondente de notícias em tempo integral ou parcial credenciado por um veículo de notícias americano. A restrição deixava de fora quem não tinha credencial, como freelancers. O Comitê observou que menos da metade das cerca de 50 relações teria acabado com a regra de Bush. Em outras palavras, a prática foi limitada, não encerrada.

Há um segundo número que circula, bem maior. O jornalista Carl Bernstein publicou na Rolling Stone, em 20 de outubro de 1977, um longo artigo afirmando que mais de 400 jornalistas americanos "cumpriram secretamente missões" para a CIA ao longo de 25 anos. Esse número não aparece no relatório do Comitê Church com essa escala. Bernstein fala de resumos de arquivos da CIA que o Comitê não publicou. Os dois números não estimam a mesma coisa. O do Senado conta relações encobertas identificadas pelo Comitê até fevereiro de 1976, com jornalistas ou empregados de veículos americanos. O de Bernstein é uma alegação retrospectiva, de uma reportagem, sobre 25 anos de colaboração, com critério próprio e apoiada em arquivos não publicados. O relatório do Comitê trata, à parte, de contatos no exterior, que descreve como bem mais numerosos que as cerca de 50 relações domésticas. Por isso não os trato como estimativas rivais da mesma população, e não escolho entre eles. O leitor pode guardar a conclusão mínima: houve relação encoberta e paga entre a CIA e jornalistas americanos em número que o próprio Senado considerou relevante.

O caso: o que "Mockingbird" foi, e o que não foi ​

"Operação Mockingbird" virou, na cultura popular, sinônimo de uma conspiração permanente em que a CIA controlaria toda a imprensa americana. Esse é o ponto em que o mito ultrapassa o documento.

O que está comprovado: nos "Family Jewels", o conjunto de relatórios internos da CIA compilado em 1973 e liberado em 2007, há um projeto chamado Mockingbird. Ele cobre o período de 12 de março a 15 de junho de 1963 e consiste em grampos telefônicos instalados em dois jornalistas baseados em Washington, suspeitos de receber material sigiloso. A compilação não os nomeia. Os nomes de Robert S. Allen e Paul Scott, assim como a cadeia de autorização (o diretor da CIA, John McCone, com conhecimento de Robert Kennedy e Robert McNamara), vêm de documentação secundária e de relatos retrospectivos, não do texto desclassificado, e os dou com essa ressalva. Esse é o caso que carrega esse nome nos documentos: um grampo, de três meses, em dois jornalistas, para descobrir vazamentos.

O que não está nos documentos: um programa único e permanente, chamado Mockingbird, que "controlava" a imprensa. A palavra "Mockingbird" não aparece no Livro I do Comitê Church nem no artigo de Bernstein. O que o Comitê descreveu foi uma teia de relações individuais da CIA com jornalistas e veículos, de natureza variada. Isso é suficiente para uma crítica séria. Não precisa do nome emprestado para ser grave.

Convém frisar por que essa distinção importa para o leitor. O mito da imprensa totalmente controlada tem um efeito prático: desmoraliza todo jornalismo, e a descrença generalizada é, ela própria, um efeito que serve a quem quer confundir; o capítulo 5 volta a isso. Quem acredita que toda a imprensa é controlada deixa de distinguir um veículo que errou de um que mentiu. Quem leva a sério o que o Comitê Church mostrou consegue exigir transparência sem concluir que não existe jornalismo independente.

Um terceiro exemplo, que cito com mais cautela porque não o conferi diretamente neste trabalho: pesquisas de história cultural indicam que a CIA financiou, por intermediários, o Congresso pela Liberdade Cultural e revistas ligadas a ele, e que isso foi revelado em meados dos anos 1960. Isso aparece no registro das reportagens que expuseram a relação, mas não verifiquei datas e valores, e por isso trato como exemplo adicional, sem números.

O caso brasileiro: IBAD, IPES e a CPI de 1963 ​

A Guerra Fria chegou ao Brasil por muitas portas. Uma delas foi a eleição parlamentar de 1962.

O IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática, era uma entidade anticomunista que, segundo a Câmara dos Deputados, atuava na disputa eleitoral por meio de um braço, a ADEP, Ação Democrática Popular. O IPES, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, era uma entidade de pesquisa e articulação ligada a empresários e a setores conservadores. Em 1963, a Câmara instalou uma comissão parlamentar de inquérito, presidida pelo deputado Ulysses Guimarães, para investigar candidatos que teriam recebido financiamento do IBAD e do IPES. O registro da Rádio Câmara diz que os depoimentos mostraram a participação de empresas multinacionais, e cita Texaco, Esso, Coca-Cola, Bayer e IBM. O IBAD foi fechado em dezembro de 1963, e o registro da Rádio Câmara, uma formulação retrospectiva, atribui o fechamento a atividade ilegal.

O que a apuração da CPI documentou, segundo a Câmara, foi uma operação de dinheiro empresarial, em parte estrangeiro, canalizado para influenciar a eleição de 1962. Aqui é preciso a cautela que o dossiê recomenda. A própria Câmara registra que os valores exatos por candidato nunca foram provados. Não houve prova do valor repassado a cada candidato, e não há, nessa história, um recibo que ligue um dólar americano a um candidato específico em juízo. Frases como "a CIA comprou o Congresso" vão além do que a documentação sustenta. O que se pode afirmar é que houve uma CPI, que ela documentou participação de capital estrangeiro nas atividades do IBAD, e que o instituto foi fechado.

Há um segundo elemento, posterior, e ele reforça a conclusão sem a exagerar. O embaixador americano no Brasil entre 1961 e 1966, Lincoln Gordon, reconheceu em declarações posteriores que o governo americano deu assistência financeira a candidatos favoráveis aos Estados Unidos. Os detalhes, como a data da declaração e o que exatamente ele disse, variam conforme a fonte: um estudo da Câmara aponta entrevista de 1977 à revista Veja e memórias de 2002, e outras fontes situam a revelação de comunicações do embaixador em 1976. Não consegui abrir a entrevista original e por isso registro a admissão em termos gerais, sem aspas e sem valores. Os números que circulam, de pouco mais de um milhão a cerca de cinco milhões de dólares, variam conforme o método de conversão, e eu não os adoto.

Quanto à régua, um registro de honestidade. Este capítulo mostra o lado ocidental da disputa no Brasil porque existe uma investigação parlamentar publicada, depoimentos e uma admissão posterior. Não encontrei, nos materiais que usei, documentação equivalente sobre dinheiro soviético ou de partidos comunistas em campanhas brasileiras da época. Isso não quer dizer que não existiu; quer dizer que este capítulo não tem fonte para afirmar. O leitor que quiser testar a simetria pode procurar essa documentação, e o autor registra a lacuna em vez de preenchê-la com suposição.

Outro cuidado com a história. O IBAD e o IPES são frequentemente apresentados como a "base da conspiração" que levou ao golpe de 1964. A Rádio Câmara usa essa expressão. Mas atribuir a queda de João Goulart a uma única causa financeira é uma simplificação. A CPI documenta financiamento de campanha. O golpe teve fatores militares, políticos, econômicos e sociais que fogem ao escopo deste capítulo, e propaganda é só uma parte, relevante, do conjunto.

Um dado adicional vem de um estudo de 2007 da Câmara dos Deputados, que compara o episódio do IBAD, de 1963, com o do mensalão, descoberto em 2005, ambos objeto de inquéritos parlamentares. O resumo do estudo aponta como pontos de comparação a origem obscura dos recursos e o uso de agências de publicidade para ocultar o dinheiro. Não li o texto integral, apenas o resumo, e o cito como indicação de que a mecânica de propaganda e dinheiro encoberto reaparece em governos e épocas diferentes. O capítulo seguinte volta a esse tema com a propaganda oficial brasileira.

Mesma régua, resultados diferentes ​

Para o leitor que gosta de ver lado a lado, segue uma tabela pequena. Ela compara mecanismos, não valores morais.

MecanismoLado soviéticoLado ocidental
Canal que esconde o patrocinadorPatriot, jornal indiano criado com participação do KGBRádio Europa Livre e Rádio Liberdade, financiadas pela CIA até 1971
Mensageiro com credencialJakob Segal, biólogo de prestígioJornalistas e veículos em relação encoberta com a CIA (cerca de 50, segundo o Senado)
ConteúdoFalsidade central (a aids como arma) misturada a fatosMensagem anticomunista em rádio e imprensa, de conteúdo variável
Dinheiro em eleiçãoSem documentação encontrada neste trabalhoIBAD e IPES no Brasil, CPI de 1963 e admissão posterior do embaixador

A tabela ajuda, mas não substitui a leitura do que veio depois, que é onde as histórias divergem. Quando o Comitê Church expôs a CIA, a exposição saiu do próprio Senado americano, em audiências, em relatório público. A CIA teve de aceitar regras novas em 1976, e o Congresso passou a financiar abertamente as rádios. Quando a campanha da aids foi exposta, a União Soviética negou por algum tempo, sua Academia de Ciências se afastou da tese em 1987 sob pressão diplomática, e o reconhecimento do papel do KGB só veio em 1992, já depois do fim do Estado soviético, da boca do diretor do serviço sucessor.

Essa diferença não é um julgamento moral sobre pessoas. É uma observação sobre instituições: onde há imprensa livre e comissões legislativas independentes, o segredo tem prazo de validade menor. Também não é uma absolvição. O Comitê Church documentou, ao lado do problema da imprensa, ações encobertas contra o governo de Salvador Allende no Chile e tentativas de assassinato de líderes estrangeiros. Dizer que os dois lados usaram propaganda encoberta é verdade. Dizer que o resultado e a prestação de contas foram idênticos é falso. As duas frases cabem no mesmo parágrafo.

Verdades desconfortáveis ​

Para quem prefere pensar nos Estados Unidos como o lado transparente: o país financiou em segredo emissoras de rádio que se apresentavam como iniciativas privadas, manteve relações pagas com jornalistas, e o Congresso só limitou isso depois que a imprensa e uma comissão expuseram o caso. A transparência veio por correção posterior, não por princípio de origem.

Para quem prefere pensar na União Soviética como o único lado que mentia: a campanha da aids é uma das operações de desinformação mais bem documentadas do século XX, mas a lição que ela dá sobre método vale também para quem a combate. Boa parte do que sabemos vem de um estudo publicado pela CIA, e isso não o invalida, mas exige que o leitor confira em fontes independentes, como arquivos búlgaros e alemães, o que o leitor deste capítulo pode fazer. Fonte interessada pode estar certa; só não deve ser a única.

Para quem acha que a verdade desmonta a mentira sozinha: a campanha da aids sobreviveu a desmentidos científicos, a um desmentido da Academia de Ciências soviética e à abertura dos arquivos. Pesquisas americanas dos anos 1990 mostram minorias significativas que acreditavam em versões da tese. A correção chega, mas não alcança todo mundo que ouviu a mentira.

Para quem acha que "conspiração" é sempre sinal de ignorância: houve conspirações reais e documentadas, com número de telegrama, data e destinatário. A atitude de quem rejeita qualquer relato de operação encoberta por reflexo também falha. O trabalho do leitor é pedir documento, e aceitar o que o documento sustenta, nem mais, nem menos.

Para quem acha que "tudo é propaganda dos dois lados, então nada é verdade": o capítulo mostra o contrário. Distinguir Denver de Mockingbird, 50 de 400, grampo de controle total, exige exatamente o tipo de precisão que o relativismo dispensa.

Como se defender ​

  • Pergunte pela cadeia. Para uma afirmação forte e política, procure a fonte primária. Se cada link leva a outro veículo que cita o anterior, e nenhum chega a um documento ou a uma observação original, trate como rumor.
  • Separe o fato verificável do salto. Muita desinformação começa com um fato real, como a existência de laboratórios militares, e dá um salto sem prova. Anote onde termina o fato e começa a inferência.
  • Observe o mensageiro e quem o financia. Credencial acadêmica não elimina interesse. Procure de onde vem o dinheiro do veículo, do instituto, da rádio, e se isso aparece de forma clara para o público.
  • Desconfie de números muito redondos ou muito precisos que aparecem sem fonte. O telegrama de 1985 citava números de casos nos EUA dentro da própria operação; números inseridos em desinformação não são série epidemiológica independente.
  • Desconfie igualmente da narrativa totalizante, de qualquer lado. "A imprensa inteira é controlada" e "a imprensa nunca é manipulada" são duas frases falsas.
  • Datar tudo. Operação de 1985 não é operação de 2026, e documento de 1963 não prova nada sobre o presente. Use história para entender mecanismos, não para condenar por analogia.

Para redações e instituições: declare financiamento, publique a política de fontes e trate a correção como parte do processo. O custo da transparência é pequeno comparado ao custo de uma revelação posterior. Para o Estado: quanto mais financiamento de comunicação for aberto, auditável e sujeito a comissão independente, menos espaço sobra para o tipo de operação que o Comitê Church encontrou.

Sinais de alerta ​

  • Uma tese grande, com culpado claro, apoiada em um documento "vazado" que ninguém consegue localizar na origem.
  • Um veículo desconhecido, de tiragem pequena, citado como "fonte" por vários outros.
  • Um cientista ou especialista que aparece só em uma frente e só em um sentido, sem passar por revisão de pares.
  • Números precisos sobre casos ou dinheiro, sem série, sem data, sem método.
  • Uma explicação que dispensa o acaso: tudo foi planejado, nada foi erro.
  • Um patrocinador que não aparece na página "sobre" do veículo ou da organização.
  • A pressa em atribuir a um único documento ou a um único culpado um fenômeno que teve muitas causas.

Exercícios ​

  1. Leia o resumo do telegrama KGB nº 2955 no Wilson Center. Liste três elementos verdadeiros e dois falsos ou não comprovados que a operação misturava. Entrega: uma lista de cinco itens, cada um com uma frase explicando por que o fato verdadeiro dava credibilidade à tese falsa.
  2. Escolha uma notícia política que circulou na última semana e faça a cadeia de citações até a fonte primária. Entrega: um esquema em texto, de trás para frente, com o número de passos até o documento ou o dado original, e a conclusão de quanto da notícia é sustentado por ele.
  3. Compare dois casos deste capítulo, um de cada lado, nos seis critérios da técnica: público, mensagem, emoção, canal, mensageiro e repetição. Entrega: uma tabela de seis linhas, mais um parágrafo dizendo onde os casos diferem de modo essencial.
  4. Releia a seção sobre Mockingbird. Escreva um parágrafo de cinco linhas que um amigo, convencido do mito, consiga aceitar sem se sentir enganado. Entrega: o parágrafo, começando pelo fato comprovado.
  5. Procure, em fonte primária, como outro país ou outra época tratou a transparência do financiamento de comunicação oficial. Entrega: uma página com a fonte, a data e uma conclusão sobre o que mudou.

Prompt de estudo ​

Vou colar um texto de opinião sobre política internacional. Atue como analista de desinformação e identifique: (1) as afirmações verificáveis e as inferências; (2) a cadeia de fontes citadas e se alguma é circular; (3) o que o texto omite sobre o patrocinador de cada fonte; (4) como o texto trataria o mesmo mecanismo se o lado fosse trocado. Não reescreva o texto nem produza versão persuasiva; apenas analise.

Vou colar o resumo de um episódio histórico de propaganda. Compare-o com a campanha soviética sobre a origem da aids em seis critérios: público, mensagem, emoção, canal, mensageiro e repetição. Aponte o que é diferente e o que é parecido, e diga o que eu precisaria verificar em fonte primária para confirmar cada comparação.

Fontes e leituras ​