Skip to content
Áudio do capítulo
0:000:00

8. Golpe do amor e "abate de porco" ​

O banqueiro de Elkhart ​

Em julho de 2023, uma pequena cidade no sudoeste do Kansas, nos Estados Unidos, perdeu seu banco. O Heartland Tri-State Bank, com cerca de US$ 139 milhões em ativos, foi fechado pelas autoridades estaduais em 28 de julho daquele ano, e o seguro de depósitos americano assumiu o rombo. A causa, que os promotores descreveram depois, era uma só: o presidente do banco, Shan Hanes, havia mandado dinheiro do próprio banco para carteiras de criptomoedas, em uma sequência de transferências feitas entre maio e julho de 2023. O total, segundo o Departamento de Justiça, chegou a cerca de US$ 47 milhões.

Hanes se declarou culpado, em maio de 2024, de desvio de recursos por dirigente de banco, e em agosto de 2024 foi condenado a 293 meses de prisão, pouco mais de 24 anos. Os promotores tinham pedido 264 meses. Seu advogado tentou uma pena menor com o argumento de que ele também era vítima. A imprensa americana, de forma ampla, descreveu o caso como um pig butchering, o golpe de investimento em criptomoedas que começa com uma relação de confiança. Segundo o que li, o dinheiro passou por carteiras controladas por terceiros não identificados. O seguro de depósitos teve um prejuízo de cerca de US$ 54 milhões, e acionistas perderam, pelas estimativas das autoridades, em torno de US$ 9 milhões.

Esta não é a história de um aposentado ingênuo. É a de um profissional do sistema financeiro, com formação, responsabilidade fiduciária e acesso a controles, que acreditou no que lhe diziam do outro lado de uma tela e continuou mandando dinheiro quando a lógica mandava parar. Ele cometeu um crime: desviou o dinheiro dos depositantes e dos acionistas, e foi condenado por isso. A pergunta que este capítulo faz é outra. Como alguém chega a esse ponto? A resposta que a pesquisa e as investigações oferecem tem pouco a ver com avareza ou burrice. Tem a ver com uma relação construída devagar, com paciência de meses, por pessoas cujo trabalho é exatamente construí-la.

Esse trabalho tem dois nomes quando se olha de fora. Quando o objetivo é extrair dinheiro por meio de um romance de mentira, chama-se golpe do amor, em inglês romance scam. Quando a relação, de amor ou de amizade, serve para levar a vítima a "investir" em uma plataforma falsa, em geral de criptomoedas, chama-se pig butchering, expressão que vem do chinês e que se traduz como "abate de porco". Os dois golpes compartilham o mesmo motor. O que muda é o pretexto para o dinheiro.

Este capítulo trata os dois do ponto de vista da vítima. O capítulo 3 já descreveu a indústria por trás: os complexos de golpe no Sudeste Asiático, a mão de obra traficada, a lavagem em escala. Aqui eu não vou repetir isso. Quero explicar por que a conversa funciona, o que ela faz com quem a vive e o que, de fato, protege.

O que você vai levar deste capítulo ​

O golpe do amor e o abate de porco são o mesmo golpe com dois pretextos. O afeto é a infraestrutura, e o pedido de dinheiro é só o último elo, depois de semanas ou meses de investimento do golpista.

Quem cai não está carente nem é ingênuo em um sentido que valha a pena. Cai quem passa meses em contato diário com uma pessoa que parece real, atenciosa e disponível, e esse contato produz laços que o cérebro trata como verdadeiros. A pesquisa sobre vítimas, discutida no capítulo 2, aponta para o momento e para o ritmo, e não para o QI.

A defesa que funciona é estrutural: regras que não dependem de a pessoa perceber a mentira, porque a característica do golpe é que ela não percebe. O desconfiômetro falha de propósito.

A saída da vítima é difícil por vergonha, por perda de um vínculo que parecia real e por golpes de recuperação que vêm em seguida. O tratamento respeitoso dessa fase é parte da defesa.

Dois golpes com um motor ​

Comece pela diferença, porque ela organiza a conversa. No golpe do amor clássico, a pessoa acredita estar numa relação, de namoro, de paixão ou de companhia, com alguém que mora longe, viaja a trabalho ou serve no exterior. O pedido de dinheiro aparece como emergência: uma passagem, uma taxa, um problema com a alfândega, uma doença, um prêmio preso, um presente retido. O dinheiro vai para a "pessoa amada" ou para quem intermedeia a emergência.

No abate de porco, o início costuma ser parecido, e muitas vezes começa com algo menos romântico, uma mensagem que parece ter sido enviada por engano, um convite de conversa, uma conexão numa rede profissional ou de namoro. O vínculo, afetivo ou de amizade, serve para abrir uma segunda conversa, sobre dinheiro: o novo parceiro ou a nova amiga mostra uma oportunidade de investir em criptomoedas, ouro ou outro ativo, por meio de uma plataforma ou aplicativo que na verdade é falso. A vítima vê lucros na tela, que não existem. Quando tenta sacar, é informada de que precisa pagar impostos, taxas ou uma "caução", e o dinheiro some.

O termo vem do chinês, shā zhū pán, algo como "prato de abate de porco". Segundo o verbete da Wikipédia que consultei, a imagem é a de engordar o animal, ou seja, ganhar a confiança da vítima, antes do abate, e a prática teria surgido na China por volta de 2016 ou antes, primeiro em sites de relacionamento. Em português, a expressão aparece em reportagens sobre o assunto, e eu a uso com aspas porque é jargão dos golpistas e porque a imagem desumaniza a vítima. A palavra importante é a paciência: o golpe se mede em semanas e meses, diferentemente do golpe de pressão, como o da falsa central, que se mede em minutos.

O FBI descreve o pig butchering em seu relatório anual do Internet Crime Complaint Center de 2025 como um golpe de investimento em criptomoedas "sofisticado e de longa duração", que usa manipulação psicológica, aparência de legitimidade e criptomoedas para levar as vítimas a investir grandes quantias. O relatório afirma que esses golpes são em grande parte praticados por organizações criminosas do Sudeste Asiático que usam como mão de obra vítimas de tráfico de pessoas, e descreve o padrão: contato por mensagem de texto, rede social, anúncio ou aplicativo de relacionamento, migração rápida da conversa para um aplicativo de mensagens, introdução a grupos de investimento, plataformas falsas que mostram lucros inventados, às vezes empréstimos oferecidos para que a vítima invista mais e, por fim, cobrança de impostos e taxas na hora de sacar. Depois vêm os golpes de recuperação.

Os números, e por que eles enganam ​

Quanto custa isso? Os dados mais completos vêm dos Estados Unidos, por conta do sistema de queixas do FBI e da Federal Trade Commission, e valem como indício de padrão, não como retrato do Brasil. Eles também subestimam, porque quem se sente envergonhado ou ainda acredita na relação não registra queixa.

Em 2025, o IC3 recebeu 23.159 queixas na categoria que chama de "confiança e romance" e registrou perdas de cerca de US$ 929 milhões. Na categoria "investimento", que inclui a fraude de investimento em criptomoedas, as perdas somaram cerca de US$ 8,6 bilhões, e o próprio relatório destaca a fraude de investimento em criptomoedas como a maior fonte de perdas financeiras de americanos em 2025, com cerca de US$ 7,2 bilhões. Para o grupo de 60 anos ou mais, o IC3 registrou cerca de US$ 584 milhões em perdas por golpe de confiança e romance, e cerca de US$ 3,5 bilhões em investimento. A FTC, em dados divulgados em 2026 e citados na imprensa, apontou perdas totais de fraude de cerca de US$ 15,9 bilhões em 2025, com investimento como a maior categoria, em torno de US$ 7,9 bilhões; esses números chegaram a mim por reportagem, e não pelo comunicado da agência.

A FTC também publica análises sobre golpe romântico. Em fevereiro de 2023, a agência informou que quase 70 mil pessoas haviam registrado golpes românticos em 2022, com perdas de US$ 1,3 bilhão e perda mediana de US$ 4.400. As perdas anuais registradas eram de US$ 493 milhões em 2019, US$ 730 milhões em 2020 e US$ 1,3 bilhão em 2021 e 2022. Cerca de 40% das pessoas que perderam dinheiro disseram que o primeiro contato foi por rede social. Criptomoedas e transferências bancárias respondiam por mais de 60% das perdas registradas, mas os cartões-presente eram o meio mais citado, por 24% dos que perderam. Em abril de 2026, a agência informou que perto de 60% das pessoas que perderam dinheiro em golpes românticos em 2025 disseram que tudo começou em rede social, com perdas de US$ 298 milhões nessa subcategoria.

Dois avisos de leitura. O primeiro é que a mediana de US$ 4.400 do golpe romântico esconde uma cauda enorme: as histórias de perda de centenas de milhares de dólares, e até de US$ 2 milhões, que a Receita americana (IRS) menciona segundo o verbete que consultei, vêm sobretudo do abate de porco, e não consegui conferir isso em fonte primária. O segundo é que a divisão entre "romance" e "investimento" nas estatísticas é arbitrária. Um mesmo caso pode entrar em uma categoria ou outra, dependendo de como a vítima o descreve ao registrar a queixa, e é comum que o golpe do abate de porco seja contado como investimento enquanto a vítima o sente como traição amorosa. As estatísticas por categoria subestimam, portanto, o peso do afeto.

No Brasil, não conheço série nacional que separe esses golpes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública conta estelionato em bloco, como os capítulos 1 e 3 mostram, e as polícias estaduais registram o "golpe do amor" apenas como estelionato. Qualquer número brasileiro específico que alguém lhe passe merece a pergunta: de onde veio, e qual é a definição?

O caso: o Golpista do Tinder ​

O caso: Simon Leviev ​

A história que popularizou o golpe do amor para o grande público é a de um homem que se apresentava como Simon Leviev. O documentário "O Golpista do Tinder", lançado pela Netflix em 2 de fevereiro de 2022, baseou-se numa investigação do jornal norueguês VG, publicada em 2019, e mostrou três mulheres que contaram ter sido enganadas por ele. Preciso separar o que é documentado do que é alegação, e dizer o que se sabe sobre ele hoje.

Segundo o verbete da Wikipédia, que lista suas fontes, ele nasceu como Shimon Yehuda Hayut, em Israel, em 1990. Foi condenado a três anos de prisão na Finlândia em 2015, depois de ser preso com documentos falsos. Em Israel, foi condenado em 30 de dezembro de 2019 a 15 meses de prisão, mais indenização e multa, e foi solto cerca de cinco meses depois, por causa da pandemia. Essas são condenações. O resto do que circula é alegação de jornalistas e do documentário: que ele adotou o nome Leviev, que se apresentava como filho do magnata de diamantes Lev Leviev, que ganhava a confiança de mulheres que conhecia em aplicativo de relacionamento, e que usava dinheiro de vítimas anteriores para manter a aparência de riqueza. Ele nega ter enganado as mulheres. Em entrevista à CNN em fevereiro de 2022, segundo o verbete, disse ser um "homem solteiro" que procurava gente no Tinder e atribuiu seu dinheiro a compras antigas de bitcoin. A família Leviev registrou queixas criminais em Israel por difamação e uso do nome. O Tinder, depois do documentário, o baniu, e o grupo Match também o baniu de outros serviços, de acordo com o verbete.

O desfecho é incompleto. Em 15 de setembro de 2025, ele foi preso no aeroporto de Batumi, na Geórgia, a pedido da Interpol, e em 14 ou 15 de novembro de 2025 foi solto, segundo seus advogados e reportagens internacionais, após a Alemanha retirar o pedido de extradição. Não consegui confirmar o desfecho do processo alemão em fonte oficial alemã. Não consegui saber se há processo em curso. Para fins deste livro, a situação é: condenado em Israel e na Finlândia, na década passada, por crimes que o verbete descreve, e investigado e alvo de pedidos internacionais depois disso, sem condenação por golpe do amor conhecida por mim.

A anatomia ​

Deixo de lado o personagem e olho a estrutura, que é a razão de o caso ser didático. O público-alvo era mulheres em aplicativo de relacionamento, um canal em que a abertura emocional é esperada e a identidade, difícil de checar. O contato era um perfil de aparência impecável, com a promessa de uma vida extraordinária. O pretexto, segundo o que foi contado, era a riqueza e uma ameaça externa: alguém "perseguia" o rapaz, o que o impedia de usar seus próprios cartões e contas. O gatilho é o mais antigo de todos, a combinação de generosidade excessiva no início e urgência no fim. Os presentes e as viagens, descritos no documentário, criavam reciprocidade: quem recebeu muito sente que deve. Depois vinha a emergência, a prova da confiança. O pagamento, segundo o relato das mulheres, saía de empréstimos bancários e cartões de crédito tomados em nome delas, o que ampliava o dano muito além da poupança. A estrutura é a de um esquema de Ponzi relacional: o dinheiro de uma vítima paga a encenação da riqueza que convence a seguinte. Segundo a Wikipédia, a GoFundMe aberta pelas três mulheres em fevereiro de 2022 servia para cobrir as dívidas que assumiram.

Não nomeio as mulheres, embora tenham se exposto no documentário. O que interessa é o padrão, não a pessoa.

A defesa ​

O caso ensina duas coisas de defesa. A primeira é que o perfil de quem cai não é o da pessoa solitária e crédula da caricatura. As mulheres do documentário eram adultas ativas, com vida social e profissional, e o que as pegou foi a combinação de um vínculo emocional intenso, construído rápido, com um pedido que parecia caber dentro dele. A segunda é que a defesa individual é fraca contra esse desenho, e a defesa mais eficaz é a que se coloca fora da relação: uma regra, combinada antes, que diz que dinheiro não circula entre quem se conheceu online e nunca se encontrou, e que há uma terceira pessoa, de confiança, a quem se conta qualquer pedido de dinheiro. Se a pessoa que ama a regra a violar, o fato já é sinal.

A anatomia do golpe do amor ​

O capítulo 1 descreve o roteiro universal, e o golpe do amor percorre cada etapa dele com vagar. Descrevo o princípio de cada uma, sem detalhar abordagem.

O alvo é escolhido por sinais públicos: perfil de relacionamento, situação conjugal, publicações que revelam luto, divórcio, solidão ou patrimônio. Quem monta o golpe em escala trabalha em volume, abordando muita gente, e para quando o retorno não aparece. O que se vê de fora como "azar de ter encontrado um golpista" é, do lado de quem opera, uma seleção estatística.

O contato vem de um perfil falso construído com fotos de outra pessoa, e o capítulo 4 já mostrou como a foto de perfil roubada ancora o falso parente. Aqui a foto é de alguém bonito, com profissão que justifica a distância: militar em missão, engenheiro em plataforma, médico em organização internacional, empresário no exterior. A distância é a característica estrutural do golpe. Ela explica por que o encontro nunca acontece e por que o dinheiro é sempre o único meio de aproximação.

O pretexto de afeto é uma intimidade acelerada. Mensagens diárias, longas, atentas, que lembram tudo o que a pessoa disse. Em português se fala às vezes de "bombardeio de amor", em inglês love bombing, que os especialistas descrevem como o excesso de atenção e declaração nos primeiros dias. A vítima se sente vista. Muitas vezes, pela primeira vez em muito tempo. Isso é produto, e quem o produz tem prática: nas grandes operações, segundo a descrição de relatórios que o capítulo 3 comenta, há quem seja treinado e supervisionado para isso.

O isolamento é o passo que torna o golpe viável. O golpista incentiva o sigilo: a relação é especial, os amigos não vão entender, a família vai ter ciúme ou preconceito. Desqualifica por antecipação as vozes que poderiam alertar. Quando a pessoa conta a um amigo e ouve "isso é golpe", já ouviu a previsão do que ia ouvir, e a previsão confirmada reforça a confiança no golpista. É um desenho psicológico elegante, e a vítima não tem como saber que foi plantado.

A mudança de plataforma ocorre cedo. A conversa sai do aplicativo de relacionamento, que tem moderação e denúncia, para um aplicativo de mensagens privado. Isso reduz a chance de o perfil ser derrubado e dá ao golpista um canal de uso exclusivo.

O pedido de dinheiro, quando vem, é pequeno, ou justificado, ou as duas coisas. A escalada é gradual, e cada pagamento muda a posição da vítima: quem já deu dinheiro tem agora algo a proteger. O princípio da coerência, descrito no capítulo 2, entra aqui. Desistir significa admitir que o dinheiro anterior foi perdido, e continuar mantém viva a hipótese de que não foi. Essa é a mesma falácia do custo afundado do capítulo 7, só que embrulhada em amor.

A saída do dinheiro segue o padrão descrito no capítulo 3: contas de passagem, conversão em criptomoeda, fragmentação. No golpe do amor há uma variante importante, que trato mais adiante: a própria vítima pode virar uma etapa da lavagem.

O abate de porco: o investimento que nasce do afeto ​

O segundo ato do pig butchering usa o vínculo como credencial. A pessoa que a vítima passou a admirar, ou a amar, menciona que ganha dinheiro com um investimento e mostra, às vezes, capturas de tela de ganhos. Ao longo do tempo, ela sugere que a vítima experimente com pouco. O primeiro depósito é pequeno, e a plataforma, que é uma vitrine controlada pelos golpistas, mostra um lucro. Em alguns casos, a vítima consegue sacar um valor modesto, o que serve de prova de confiança. Depois, os aportes crescem. A plataforma mostra números que sobem, e a vítima olha para eles como quem olha para um filho crescer.

O ponto de vista da vítima importa porque explica por que ela não vê o golpe. Tudo que a vítima olha é produzido para ser acreditado: o painel de lucros, a conversa com o parceiro, os grupos de "investidores" em que outras pessoas comentam ganhos, e o suporte técnico que responde com educação. Ela não está avaliando evidências independentes. Está avaliando um ambiente inteiro cenografado. E o ambiente inclui o afeto, que ela não quer perder.

O FBI, no relatório de 2025, cita um dado de resultados do trabalho de notificação de vítimas, a chamada Operação Level Up, que é um achado importante para quem pensa em defesa. Em 2025, a operação notificou 3.780 vítimas de fraude de investimento em criptomoedas, e 78% delas não sabiam que estavam sendo vítimas de golpe. O relatório estima economias de cerca de US$ 226 milhões para as vítimas notificadas, e, desde o lançamento em janeiro de 2024, mais de 8 mil vítimas notificadas e US$ 500 milhões em economia. O mesmo relatório registra que 38 vítimas foram encaminhadas a um especialista para intervenção de risco de suicídio. Os números são do FBI, e não os conferi com outra fonte, mas a lição é clara. Mais de três quartos das pessoas que estavam perdendo dinheiro não sabiam. A defesa por "desconfie" falha quando a pessoa não tem motivo para desconfiar, e a defesa por notificação externa, feita por alguém com acesso a dados que a vítima não tem, funciona.

O caso: o banco do Kansas, visto de perto ​

Voltando ao caso da abertura: o presidente do banco de Elkhart é um exemplo extremo do padrão. Os fatos que citei, 28 de julho de 2023 como data do fechamento do banco, US$ 47,1 milhões desviados, confissão de culpa em maio de 2024 e pena de 293 meses em agosto de 2024, constam de comunicados e reportagens que li. O que a imprensa disse sobre a motivação, que ele acreditava estar numa operação de investimento e continuava enviando dinheiro, ficou, nas fontes que acessei, na manchete e no resumo, e não consegui ler o detalhe de como ele chegou à convicção. Por isso, não descrevo a trajetória psicológica dele. A importância do caso é outra: mostra que o abate de porco, quando a vítima tem acesso a muito dinheiro, deixa de ser um problema da vítima e se torna problema de terceiros. Os depositantes foram protegidos pelo seguro, que é pago por todos os bancos. Os acionistas e a cidade pagaram o resto. Ele confessou o desvio, e a hipótese de que também tenha sido vítima de fraude não elimina o crime que cometeu contra o banco.

O caso: a apreensão de US$ 225 milhões ​

Em 18 de junho de 2025, o Departamento de Justiça americano anunciou uma ação de confisco civil de cerca de US$ 225 milhões em criptomoedas, no que descreveu como a maior apreensão americana de ativos digitais ligada a golpes de abate de porco, conforme o comunicado do Departamento. Os recursos estavam em moeda estável atrelada ao dólar e passaram por uma corretora, e a empresa emissora do ativo teria congelado carteiras que continham o dinheiro. As autoridades disseram que mais de 430 suspeitos de serem vítimas haviam perdido milhões de dólares e que pretendiam devolver os recursos. Trata-se de uma ação civil de confisco, que não é condenação de ninguém. O caso importa por mostrar o que a defesa do lado das plataformas e dos emissores de ativos pode fazer: congelar, quando há conexão entre o ativo e a fraude, é uma alavanca que a vítima individual nunca tem.

Em outubro de 2025, segundo as fontes que usei no capítulo 3, as autoridades americanas anunciaram uma ação contra o Prince Group, do Camboja, e de seu presidente, e um confisco muito maior, de mais de 127 mil bitcoins. Aquilo é alegação do governo americano, e remeto o leitor ao capítulo 3 para o contexto e as ressalvas.

A vítima que vira mula ​

Há uma consequência pouco discutida do golpe do amor que coloca o leitor perante uma verdade desconfortável. Em algumas variantes, a vítima não só perde dinheiro como passa a fazer parte da engrenagem da lavagem. A definição de fraude de confiança e romance do próprio FBI inclui o caso em que a pessoa é induzida a "lavar dinheiro ou itens para ajudar o autor" do golpe. O princípio é simples: o golpista precisa de contas que não sejam as suas para receber valores de outras vítimas, e uma pessoa apaixonada, que acredita ajudar o parceiro com um problema burocrático, empresta a conta, recebe um depósito e o repassa.

Para a vítima, isso é devastador porque o que parecia só dano financeiro passa a ter consequência penal. No Brasil, o texto compilado do artigo 171 do Código Penal, que consultei em 30 de outubro de 2026, equipara a estelionato, no parágrafo 2º, a conduta de ceder conta bancária para fraude, inciso incluído pela Lei 15.397/2026, e a Lei 9.613/1998 trata da lavagem. Não analiso como isso se aplica a quem foi enganado. Em geral, o elemento subjetivo, a consciência de participar de um crime, é decisivo, e a pessoa enganada tem um argumento forte. Mas é uma pessoa que pode ter a conta bloqueada, ser chamada a depor e passar meses explicando, e que tem vergonha dobrada. Para o perito, a primeira pergunta a quem aparece com esse quadro é: você recebeu ou repassou valores de terceiros? Quanto antes essa informação chega a um advogado, melhor.

A regra de defesa é, portanto, uma que as pessoas raramente ouvem em campanhas: ninguém que você não conheceu pessoalmente e não verificou deve usar a sua conta bancária, receber valores em seu nome, nem pedir que você os repasse, seja qual for o motivo. Isso é válido para o amor, para o emprego, que o capítulo 10 aborda, e para a oportunidade de negócio.

No Brasil: a Operação Philia Ficta e os outros ​

Em março de 2026, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a primeira fase da Operação Philia Ficta, voltada a golpes de estelionato amoroso, conforme reportagem do Correio Braziliense de 6 de março de 2026. A polícia cumpriu mandados de busca e apreensão em Embu das Artes, Guarulhos e Carapicuíba, no estado de São Paulo, e informou prejuízos superiores a R$ 500 mil. A reportagem descreve o método em linhas gerais: um contato que parecia casual, uma relação virtual construída por aplicativo de mensagens com fotos e áudios falsos, e depois a alegação de que uma grande quantia e um anel de noivado estavam sendo enviados, com cobrança de "taxas" de entrega e impostos. A vítima do caso descrito tomou empréstimos de juros altos para pagar. Não há prisões relatadas na matéria, só buscas, e os investigados são, até aqui, suspeitos.

A estrutura é a da encomenda retida, uma das variantes mais antigas do golpe do amor e uma das mais baratas de executar, porque dispensa a presença do golpista e usa a logística como pretexto. O interessante é que, no Brasil, ela se mistura com a falsa identidade de militar ou profissional estrangeiro em missão, uma figura que reportagens de 2025 e 2026 em vários estados descrevem, em operações da polícia, como recorrente. Cito essas operações apenas como indício de repetição, porque não consegui abrir o conteúdo completo de cada uma.

A lei brasileira dá respostas parciais. A fraude cometida com informações fornecidas pela vítima e por meio de redes sociais ou contatos telefônicos se enquadra no parágrafo 2º-A do artigo 171, com pena de reclusão de 4 a 8 anos e multa, e o parágrafo 2º-B aumenta a pena de um terço a dois terços quando o crime usa servidor fora do território nacional, segundo o texto compilado. O parágrafo 4º aumenta a pena de um terço ao dobro se o crime é cometido contra idoso ou vulnerável. O parágrafo 5º, que exigia representação da vítima em certos casos e foi introduzido em 2019, foi revogado pela Lei 15.397/2026, sancionada em 30 de abril de 2026 e publicada em 4 de maio, de modo que o estelionato voltou, em regra, a ser de ação pública incondicionada; não faço afirmação sobre a aplicação a fatos anteriores. Para a vítima, a consequência prática é que a polícia e o Ministério Público podem agir mesmo sem a manifestação dela, o que ajuda quando a vergonha a impede de representar.

O problema real é outro. Quando o golpista está fora do país, a investigação esbarra na cooperação internacional, nos prazos de bancos estrangeiros e na dificuldade de identificar quem está por trás de um perfil. O perito sabe que, nesses casos, a recuperação do dinheiro é a exceção. O objetivo realista é interromper a perda, preservar provas, proteger a pessoa de novas investidas e, quando a rota do dinheiro passa por uma conta brasileira, tentar o bloqueio rápido, como o capítulo 19 detalha.

O papel das plataformas e dos bancos ​

Os aplicativos de relacionamento e as redes sociais são o canal de entrada. O banimento do perfil do homem conhecido como Leviev pelo Tinder e pelo grupo Match só ocorreu, segundo o verbete, depois do documentário, que apontou na época que ele continuava ativo. Isso indica o quanto a ação da plataforma depende de pressão pública. Em 2025, a Meta divulgou, conforme reproduzido pela imprensa, que removeu mais de 6,8 milhões de contas de WhatsApp ligadas a complexos de golpe, o que cito do mesmo modo que no capítulo 4: como informação da empresa, com a ressalva de que não tenho como auditar. A remoção em massa e a velocidade com que novos perfis surgem mostram a escala do problema e a dificuldade de contê-lo só por moderação.

Os bancos e as corretoras de criptoativos ocupam um lugar diferente. Eles veem o dinheiro sair. O padrão de uma pessoa que nunca enviou criptomoedas, abre conta numa corretora e transfere sucessivamente quantias crescentes é um sinal que a instituição tem condições de perceber. A experiência da Operação Level Up americana, em que a notificação por um terceiro com acesso aos dados fez 78% das vítimas descobrirem o golpe, sugere que a intervenção por quem tem o dado é possível e eficaz. No Brasil, a regulação de prestadoras de serviços de ativos virtuais é recente, e eu não vou afirmar nada sobre o estado atual das obrigações dessas empresas, que não verifiquei. O que posso dizer é que o desenho ideal combina atrito proporcional ao risco (atraso, confirmação, conversa com um humano) com respeito à autonomia, o mesmo equilíbrio do capítulo 7. A decisão de uma pessoa adulta de mandar dinheiro a quem ama é dela, e o banco que bloqueia sem explicar a empurra para outra plataforma.

Quando a vítima descobre ​

Descobrir o golpe do amor é uma experiência de luto. A pessoa perde, de uma vez, o dinheiro e uma relação que, para ela, era real. Os sentimentos eram verdadeiros mesmo que o outro lado fosse falso. A literatura sobre o tema, que não detalho porque não é a minha área, descreve vergonha, raiva, depressão e, em alguns casos, ideação suicida. O FBI registrou, em 2025, 38 vítimas de fraude de investimento em criptomoedas encaminhadas a especialistas para intervenção de risco de suicídio, e relata ocorrências em que agentes ficaram em contato com a vítima até a chegada da polícia local. É um dado forte, que justifica tratar essa fase como assunto de saúde, e não apenas de finanças. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende pelo telefone 188, a qualquer hora.

Há uma segunda ameaça nesse momento: o golpe de recuperação. Quem acaba de descobrir uma perda está no estado mais vulnerável, e surgem ofertas de "recuperar" o dinheiro por meio de advogados, empresas de rastreamento de criptomoedas ou supostos agentes de órgãos, mediante pagamento antecipado. O capítulo 2 descreveu a estrutura. O IC3 também cita esse risco expressamente no caso do abate de porco. A regra é a mesma do capítulo 7: quem cobra antes para recuperar o que foi perdido repete a lógica do golpe original.

O que o perito faz com essa vítima é, antes de mais nada, parar a perda. Se o contato continua, ele deve ser interrompido sem confronto, porque o confronto pode levar o golpista a intensificar a pressão. Depois, preservar tudo: conversas, perfis, números de carteira, comprovantes, endereços de sites. O capítulo 17 trata da preservação de provas e o 19 das primeiras horas. Por fim, e isto é o que o texto pode oferecer, tratar a pessoa como vítima de um crime organizado, e não como alguém que "devia saber". A vergonha, como insisto desde o capítulo 2, é o ativo mais valioso do golpista.

Para quem está do lado de fora ​

Filhos, amigos e colegas que percebem que alguém próximo está numa relação suspeita enfrentam um dilema. Dizer "isso é golpe" costuma falhar, e o motivo é o desenho do golpe: o isolamento preparado antecipa a reação e a transforma em prova de que "eles não entendem". A pessoa que contesta passa a fazer parte do problema aos olhos da vítima.

O que costuma funcionar melhor, segundo a experiência de quem trabalha com o tema, é fazer perguntas em vez de afirmações. Perguntar como se conheceram, o que a pessoa faz, se já falaram por vídeo, e o que ela pensaria se um amigo lhe contasse a mesma história. Propor uma verificação conjunta, sem acusação, como um teste simples que a própria pessoa possa conduzir, por exemplo conferir se as fotos do perfil aparecem em outros contextos por meio de busca reversa de imagem, uma técnica que o perito usa e que está ao alcance de qualquer um. Manter o vínculo, para que a pessoa não precise escolher entre a família e o namorado virtual. E, quando houver dinheiro envolvido, convidar um terceiro neutro, como um gerente de banco, um advogado ou um policial especializado, para olhar o caso, porque a autoridade de fora da família não carrega o peso emocional.

Nada disso é garantia. Há casos em que a pessoa, mesmo vendo as evidências, continua. A recusa em acreditar é um mecanismo conhecido e o capítulo 2 o explica. Quando a pessoa é adulta e capaz, a decisão é dela, e a família pode apenas reduzir o dano: ajudar a limitar as quantias, manter a porta aberta para o dia em que ela perceber, e proteger o patrimônio dos demais, como o de um cônjuge ou filhos dependentes, com orientação jurídica.

Verdades desconfortáveis ​

A primeira é que o golpe do amor funciona porque as pessoas querem ser amadas, e nenhuma educação financeira muda isso. Quem diz que basta "não confiar em estranhos online" ignora que boa parte das relações da vida adulta começa com estranhos, e que o próprio mercado de aplicativos de relacionamento depende de gente confiar em quem não conhece. A defesa tem de conviver com o desejo, não pregar contra ele.

A segunda é que as plataformas lucram com a atividade em que o golpe prospera. Aplicativos de relacionamento e redes sociais ganham com engajamento e assinaturas, e o custo de cada golpe recai sobre a vítima. Isso não quer dizer que elas não façam esforços de moderação, e eu não tenho como avaliar a intensidade deles. Quer dizer que o incentivo econômico não está alinhado à proteção, e que melhorias costumam vir sob pressão pública ou regulatória.

A terceira é que o dinheiro quase nunca volta. As apreensões grandes, como a de US$ 225 milhões nos Estados Unidos, são exceções que dependem de rastreamento por uma empresa de ativos digitais, de congelamento rápido e de jurisdição favorável. Para a vítima comum, a perda é definitiva, e prometer o contrário é vender esperança, o que alimenta o golpe de recuperação.

A quarta é que a vítima pode ter ajudado, sem saber, o golpe a continuar. A conta emprestada e o dinheiro repassado são parte da engrenagem. É desconfortável porque a vítima é também alguém que a lei pode olhar, e porque a compaixão pública tem um limite quando o dinheiro de outro passou pela sua conta.

A quinta é que a indústria que está por trás tem trabalhadores que também são vítimas. Os relatórios da ONU e do próprio FBI descrevem, nos complexos do Sudeste Asiático, gente traficada e forçada a conversar com vítimas. A pessoa do outro lado da tela pode estar presa. Isso não torna o golpe menos real para quem perde, e complica qualquer ideia simples de culpa. O capítulo 3 já trata do assunto.

Protocolo de defesa ​

Para a pessoa:

  • Combine, antes de qualquer relacionamento online, uma regra pessoal: dinheiro não circula com quem você não conheceu pessoalmente, seja qual for o motivo, e esta regra vale mesmo quando o motivo parecer excelente.
  • Exija a realidade cedo. Videochamada ao vivo, com a pessoa respondendo a algo que você pedir na hora, e encontro presencial dentro de um prazo razoável. Quem sempre tem um motivo para não aparecer está dizendo algo.
  • Pesquise as fotos do perfil por busca reversa de imagem e confira se a história de vida é coerente. Isso não prova que seja verdadeiro, mas desmonta boa parte dos falsos.
  • Trate qualquer indicação de investimento que venha de alguém que você conheceu online como alerta máximo, por mais bonita que seja a relação. Não instale aplicativo de investimento indicado por pessoa, e confira a empresa nos canais oficiais do regulador, como a lista de entidades não autorizadas e os alertas da CVM, antes de qualquer depósito.
  • Nunca receba, guarde ou repasse dinheiro, criptomoeda, encomenda ou documentos em nome de quem você conhece só online.
  • Escolha uma pessoa de confiança a quem você conte qualquer pedido de dinheiro, e combine isso antes de precisar. Se for difícil contar para ela, isso também é um sinal.
  • Se perdeu dinheiro: pare de enviar, não confronte, preserve todas as provas, avise o banco imediatamente, registre boletim de ocorrência e procure orientação jurídica, sobretudo se sua conta recebeu valores de terceiros. O capítulo 19 detalha as primeiras horas.
  • Cuide de você. Se a vergonha ou a tristeza estiverem muito pesadas, o CVV atende pelo 188, e a conversa com alguém de confiança é parte do tratamento.
  • Desconfie de quem oferece recuperar o dinheiro mediante pagamento antecipado.

Para quem acompanha alguém:

  • Pergunte, não acuse. Peça para conhecer a pessoa, para ver a conversa por vídeo, e deixe claro que o vínculo familiar não depende de a relação acabar.
  • Ofereça uma verificação neutra, feita por um terceiro, como um gerente, advogado ou policial especializado.
  • Ajude a limitar o dano financeiro sem tomar o controle: um limite de transferência combinado, uma segunda pessoa na conta, e a lembrança de que a pessoa pode voltar atrás sem julgamento.

Para bancos, corretoras e plataformas:

  • Trate o primeiro envio relevante de um cliente a uma corretora de criptoativos, sobretudo se crescente e seguido de outros, como evento de risco, com atrito proporcional e conversa humana.
  • Ofereça canal de denúncia simples e resposta rápida para perfis de relacionamento, e derrube perfis que reutilizam fotos já denunciadas.
  • Notifique o cliente quando houver indício de fraude, em canal que o golpista não controle.

Sinais de alerta ​

  • Alguém que você nunca encontrou pessoalmente declara amor ou compromisso em dias ou poucas semanas.
  • Profissão ou situação que impede o encontro e a videochamada: missão no exterior, plataforma de petróleo, trabalho humanitário, hospital remoto.
  • A conversa migra rapidamente do aplicativo de relacionamento para um aplicativo de mensagens privado.
  • Pedidos para manter a relação em segredo, ou comentários desqualificando amigos e familiares que "não entenderiam".
  • Uma emergência financeira, sempre grande, sempre urgente, sempre com uma explicação que impede a pessoa de resolver por conta própria.
  • Pedido de ajuda com uma encomenda retida, um prêmio, uma herança ou uma taxa de liberação.
  • Indicação de investimento, sobretudo em criptomoedas, por alguém que você conhece há pouco tempo, com capturas de tela de ganhos.
  • Plataforma que mostra lucros e dificulta ou nega o saque, cobrando imposto, taxa ou caução para liberar o valor.
  • Convite para receber valores em sua conta e repassá-los a terceiros, ou para guardar uma encomenda.
  • Fotos de perfil que aparecem em outros contextos, ou histórias que mudam em detalhes ao longo do tempo.

Exercícios ​

  1. Teste de realidade de um perfil. Escolha um perfil de aplicativo de relacionamento ou rede social que lhe pareça atraente, e que não seja de pessoa conhecida. Sem entrar em contato, faça uma busca reversa de imagem das fotos e anote o que encontrou. Entrega: uma lista dos sinais de consistência e de inconsistência, e uma conclusão de uma frase.
  2. A regra escrita. Escreva, em meia página, as suas regras pessoais sobre dinheiro e relacionamentos online, incluindo o que você fará se alguém pedir um valor. Entrega: o texto, e o nome da pessoa de confiança com quem você o compartilhou.
  3. Análise de uma operação. Pegue a Operação Philia Ficta, o caso do banco do Kansas ou o do Golpista do Tinder, e monte um quadro com as etapas do roteiro universal, do capítulo 1, que aparecem em cada um. Entrega: um quadro com as etapas, o que se sabe e o que é alegação.
  4. Conversa de ajuda. Escreva um roteiro curto de como você abordaria um amigo que parece estar numa relação suspeita, sem acusá-lo, com três perguntas abertas e duas coisas que você evitaria dizer. Entrega: o roteiro e uma reflexão de cinco linhas sobre por que a acusação direta costuma falhar.
  5. Política de atrito. Se você trabalha em banco, corretora ou plataforma, descreva uma regra de atrito para o primeiro envio relevante a um destino de risco, com o que o cliente vê, quem conversa com ele e o que fica registrado. Entrega: o procedimento, em uma página, e um critério para medir se funciona.

Prompt de estudo ​

Vou descrever a evolução de uma relação que começou online, sem dados pessoais reais: como nos conhecemos, o que a pessoa diz que faz, como é a frequência e o conteúdo das conversas e se já falou de dinheiro ou investimento. Atue como perito em fraudes. Diga quais elementos são compatíveis com golpe do amor ou abate de porco, quais perguntas posso fazer a mim mesmo e como verificar a realidade da pessoa por canais independentes. Não escreva mensagens de golpe nem roteiros para persuadir alguém.

Quero montar um combinado de segurança com a minha família sobre relacionamentos e investimentos online. Pergunte-me como a família conversa sobre dinheiro e proponha cinco regras curtas que preservem a autonomia de cada um e reduzam o risco de golpe, incluindo o que fazer ao receber um pedido de dinheiro ou uma indicação de investimento de alguém que só conhecemos online.

Fontes e leituras ​

  • Federal Bureau of Investigation, Internet Crime Complaint Center. 2025 IC3 Annual Report, em ic3.gov: perdas por tipo de crime em 2025, seção sobre fraude de investimento em criptomoedas, Operação Level Up, Scam Center Strike Force e queixas de pessoas com 60 anos ou mais.
  • Federal Trade Commission. Data Spotlight de 9 de fevereiro de 2023 sobre golpes românticos em 2022, e de 27 de abril de 2026 sobre golpes que começam em redes sociais, em ftc.gov. Os totais da FTC para 2025 (US$ 15,9 bilhões e US$ 7,9 bilhões em investimento) vieram de reportagem; confira no comunicado da agência.
  • U.S. Attorney's Office, District of Kansas, e reportagens (American Banker, NBC News, Banking Dive) sobre o caso Heartland Tri-State Bank e a condenação de Shan Hanes, agosto de 2024.
  • Departamento de Justiça dos Estados Unidos (comunicado de 18 de junho de 2025, justice.gov/opa) e reportagens sobre o confisco civil de cerca de US$ 225 milhões em criptomoedas.
  • Wikipédia. Verbetes sobre Shimon Hayut ("Simon Leviev"), "The Tinder Swindler" e "Pig butchering scam", usados como ponte para as fontes primárias; a investigação do jornal VG (2019) e o documentário da Netflix (2 de fevereiro de 2022) são as fontes originais do caso.
  • Correio Braziliense, 6 de março de 2026, e Polícia Civil do Distrito Federal, sobre a Operação Philia Ficta.
  • Presidência da República. Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), art. 171, texto compilado consultado em 30 de outubro de 2026; Lei 14.155/2021; Lei 15.397/2026; Lei 9.613/1998.
  • Capítulos 1, 2, 3, 4, 7, 17 e 19 deste livro, para o roteiro universal, a psicologia da vítima, a indústria dos complexos de golpe, a preservação de provas e as primeiras horas depois do golpe.
  • Centro de Valorização da Vida (CVV), telefone 188, em cvv.org.br.