Tema
13. Poder sem perder a alma
O incêndio e a folha de pagamento
Na noite de 11 de dezembro de 1995, um incêndio destruiu três prédios da Malden Mills, uma fábrica de tecidos em Lawrence, no estado americano de Massachusetts. A empresa era a criadora do Polartec, o tecido de fleece, e pertencia à família de Aaron Feuerstein, neto do fundador, que a dirigia como presidente-executivo. O Boston Globe contou, anos depois, que o fogo deixou cerca de 1.400 trabalhadores sem o lugar onde trabalhavam. Nos dias seguintes, a pergunta que qualquer dono de fábrica faria era a mais antiga do mundo empresarial: o que fazer com a folha de pagamento de uma fábrica que não existe mais.
A resposta de Feuerstein virou lenda. Ele manteve os salários por noventa dias e estendeu os benefícios de saúde enquanto reconstruía. O Globe estimou o custo dessa decisão em 25 milhões de dólares. Um ex-vice-presidente da empresa, Robert Himmel, lembrou depois que o patrão disse, em palavras que o jornal reproduz na língua original, algo que em português fica assim: não vou mandar três mil pessoas para o desemprego duas semanas antes do Natal. A frase é uma lembrança de terceiro, e as contagens divergem: o Globe fala em cerca de 1.400 trabalhadores sem lugar de trabalho, enquanto uma cronologia do jornal Eagle-Tribune, de Lawrence, publicada em 2015, fala em quase três mil sem trabalho. Ao fim de 1996, segundo o mesmo jornal, todos os trabalhadores, menos uns quatrocentos, tinham voltado. A fábrica nova abriu em 1997.
Esta é a cena que escolhi para fechar o livro porque ela recusa duas versões fáceis. A primeira é a do conto de fadas, em que o dono bom é recompensado. A segunda é a do cinismo, em que o gesto era só relações públicas. Feuerstein tinha poder concentrado: era presidente-executivo e o principal decisor de uma empresa da família, embora não o único dono nem livre de conselho e de administração. Usou esse poder para absorver um custo que a prática normal teria transferido para os empregados. Isso aconteceu, está documentado e custou caro. Há ainda uma leitura operacional, que não o diminui: reter mão de obra qualificada é uma forma de preservar a capacidade de voltar a produzir. Motivo ético e motivo prático podem coexistir no mesmo homem, e este livro não pede que você escolha um deles.
O desfecho é o que os livros de liderança costumam cortar. Em novembro de 2001, a Malden Mills pediu proteção contra credores, em meio a dívidas assumidas na reconstrução. O Globe conta que a empresa saiu dessa recuperação em 2003; reportagens da época registram que saiu sob controle dos credores, e, segundo a cronologia do Eagle-Tribune, os credores, liderados pela GE Capital, afastaram Feuerstein em 2004. Em janeiro de 2007, a empresa pediu nova proteção, para viabilizar a venda a um fundo de investimento da Filadélfia, a Chrysalis Capital Partners, que a rebatizou de Polartec. Feuerstein morreu em novembro de 2021, aos 95 anos. O gesto de 1995 protegeu famílias durante um intervalo, e não salvou o negócio.
O que esse intervalo vale é a pergunta deste capítulo. Os doze anteriores ensinaram a ler o poder, a construí-lo, a disputá-lo e a reconhecer quando ele apodrece. Falta dizer para que serve, até onde ir e como saber a hora de parar.
O que você vai levar deste capítulo
Poder sem propósito vira manutenção do próprio poder, e é aí que o apodrecimento do capítulo 12 começa. Perguntar a quem e a quê você serve não é enfeite moral. É o freio mais barato que existe.
Há mais de um caminho até a influência. Um experimento com grupos de desconhecidos mostrou que dominância e prestígio compram influência, e que só o prestígio comprou também simpatia. É um resultado de laboratório, com limites que o capítulo explica.
Humildade e serviço aparecem associados a bons resultados em pesquisas sobre liderança, mas esses estudos medem percepção e vínculo, não santidade, e a tese de que executivos éticos duram mais não tem evidência que eu tenha encontrado.
Proteger quem está abaixo de você é a forma mais concreta de usar poder bem. Também é a que mais custa, e o caso de Feuerstein é a prova.
Sair é uma decisão de poder, e não uma derrota. Quem não consegue sair não tem escolha, e quem não tem escolha só tem a versão da empresa.
O que o livro disse, em dez frases
Vale juntar o que foi dito, porque o fechamento só funciona se a síntese for honesta. O livro partiu de uma tese: toda organização é um sistema político, com recursos escassos, objetivos em conflito e informação desigual, e desempenho é necessário e insuficiente para subir (cap. 1). Poder é uma relação de dependência, e não um traço de personalidade nem um cargo; o organograma mostra o poder formal, e o real passa por canais que ele não desenha (cap. 2). Informação é moeda, e a moeda de longo prazo é a confiança, de modo que reter para ser indispensável acaba mal (cap. 3). Redes dão acesso, mas rede não resolve desigualdade, e patrocinador pesa mais que mentor (cap. 4).
Promoção é uma decisão de poucas pessoas, com informação incompleta, e pedir critérios funciona melhor que pedir título (cap. 5). Visibilidade é tradução do trabalho para quem decide, e o crédito se recupera com fatos, nunca com retaliação (cap. 6). A relação com o chefe é de dependência mútua, e há chefes que são apenas ruins e chefes que abusam, que são outra coisa (cap. 7). Quem controla pauta, ata e orçamento molda a decisão antes da reunião (cap. 8). Muito do que parece rivalidade pessoal é produzido pelo desenho de metas e avaliações (cap. 9), e nas guerras de cúpula a versão que chega a você já foi escolhida (cap. 10). As 48 Leis de Greene são um mapa do cinismo, útil para se defender e perigoso como código de conduta (cap. 11), e o poder apodrece quando os contrapesos faltam e quem sabe se cala (cap. 12).
O fio que costura tudo é uma ideia simples e pouco confortável. O poder não é bom nem mau. Ele amplia o alcance do que a pessoa já faria, e reduz o custo de fazê-lo. Quem tem poder consegue proteger mais gente ou prejudicar mais gente com o mesmo esforço. Por isso a pergunta sobre a alma, que soa solene, é na verdade uma pergunta técnica sobre o que você faz com a margem que o poder lhe dá.
Dois caminhos até o topo
O caso: dominância e prestígio
Em 2013, Joey Cheng, Jessica Tracy, Tom Foulsham, Alan Kingstone e Joseph Henrich publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um artigo cujo título, "Two ways to the top", resume a ideia. A pesquisa trabalhou com duas estratégias que a literatura evolutiva descreve para subir numa hierarquia. A dominância é o uso de força, intimidação e medo para induzir deferência. O prestígio é compartilhar conhecimento e habilidade para ganhar respeito. No primeiro estudo, pessoas que não se conheciam foram reunidas em grupos para uma tarefa e, depois, avaliaram umas às outras. No segundo, observadores assistiram a trechos desses vídeos enquanto um equipamento registrava para onde olhavam.
O resultado, segundo o resumo do artigo, foi que as duas estratégias elevaram a influência percebida e também a influência real sobre o comportamento dos outros, medida por um indicador comportamental. Os dois tipos de participante atraíram mais atenção visual do que os demais. A diferença apareceu na simpatia: quem usou prestígio foi visto como agradável, e quem usou dominância não foi bem avaliado. Os autores descrevem as duas como estratégias distintas e viáveis.
O mecanismo: o que o estudo mostra e o que não mostra
Este é um resultado interessante e limitado, e é bom tratá-lo assim. Os grupos eram pequenos, a tarefa era uma só, o ambiente era de baixo risco e as pessoas eram, em sua maioria, estudantes. O estudo não diz que a dominância não funciona; diz que ela funcionou, no sentido de gerar influência, e que não gerou simpatia. Em crise, em ambientes com muito medo e em relações que não se repetem, a dominância pode render por mais tempo do que o experimento sugere. O estudo também mede reputação e influência, e não integridade. Prestígio pode ser cultivado como imagem, e o especialista que encena generosidade para ser admirado produz o resultado do prestígio sem a virtude.
A utilidade prática está no custo de manutenção, que é raciocínio meu, e não achado do estudo. Dominância exige vigilância e coerção contínuas, porque o respeito dura enquanto o medo dura. Prestígio depende de o grupo continuar atribuindo valor ao que você sabe e oferece, e isso se renova ensinando, esclarecendo e assumindo erro, que é o que os capítulos 3 e 6 recomendaram por razões políticas. A conclusão que o livro tira é modesta. Se os dois caminhos funcionam, a escolha entre eles deixa de ser tática e passa a ser de caráter, e o resultado do capítulo 11 sobre jogos repetidos diz que o caráter cobra juros em relações que voltam a se encontrar.
Humildade e serviço: o que a pesquisa permite dizer
A literatura de liderança tem muitos nomes para o que este capítulo trata: liderança ética, autêntica, servidora, humilde. Convém olhar com cuidado o que dois trabalhos importantes mostram.
Bradley Owens e David Hekman publicaram em 2012, no Academy of Management Journal, um estudo indutivo baseado em 55 entrevistas em profundidade com líderes de contextos variados, entre eles presidentes-executivos, gerentes de nível médio e líderes de linha de frente. O que eles descrevem como humildade é um conjunto de comportamentos: admitir limites e erros, destacar a contribuição dos outros e mostrar-se disposto a aprender. A ideia central do artigo é que o líder humilde ensina, pelo exemplo, como crescer, e com isso torna legítimas, no trabalho, a incerteza e o desenvolvimento dos seguidores. O trabalho também registra uma contingência desconfortável: líderes jovens e mulheres relataram ter de provar competência o tempo todo, o que tornava seus gestos de humildade mais esperados e menos valorizados do que os de líderes mais velhos e homens. Ou seja, segundo esses relatos, a mesma humildade pode ter preços diferentes conforme quem a pratica, assunto que os capítulos 4 e 6 já tinham tocado.
Os limites são claros. É um estudo qualitativo, com amostra que não pretende ser representativa, baseado em relatos dos próprios entrevistados. Não estima tamanho de efeito nem testa causalidade, e a definição de humildade vem de um contexto corporativo ocidental.
O segundo trabalho é uma metanálise de Julia Hoch, William Bommer, Jason Dulebohn e Dongyuan Wu, publicada em 2018 no Journal of Management. Ela compara liderança ética, autêntica e servidora com a liderança transformacional, em nove desfechos organizacionais. Pelo resumo, ética e autêntica têm correlação alta com a transformacional e pouca variância adicional a explicar. A servidora foi a que mostrou mais promessa como abordagem independente. Aqui também há um limite que o leitor precisa guardar: os desfechos são, na maior parte, de percepção, como satisfação, confiança e comprometimento, medidos muitas vezes na mesma pesquisa e pela mesma fonte. Não vi nessa pesquisa evidência de que líder servidor produz resultado financeiro melhor. Vi evidência de que a ideia explica algo sobre como as pessoas se sentem trabalhando com ele.
E a pergunta que o leitor faria, sobre se executivos éticos duram mais ou chegam mais longe, tem resposta curta: não localizei estudo longitudinal que compare a duração no cargo de executivos classificados como éticos e antiéticos. Há literatura sobre húbris e narcisismo de CEO, como a do capítulo 12, e sobre o que acontece depois de escândalos, mas os desfechos são outros e a classificação moral é difícil de operar. Qualquer frase do tipo "quem é ético vai mais longe" é hipótese. O livro não a afirma, e desconfia de quem vende essa promessa.
Os dois riscos
Há dois riscos nessa literatura. O primeiro é a servidão. O discurso do serviço pode justificar autoexploração, apagar limites e fazer o líder carregar sozinho um sistema que está errado. Servir não é aceitar tudo: um gestor que protege a equipe precisa, em algum momento, dizer não à chefia. Também não revisei a literatura crítica sobre servidão e esgotamento, e o argumento aqui é de mecanismo, não de dado. O segundo é a humildade como técnica. Comportamentos observáveis podem ser encenados, e humildade encenada para influenciar é o oposto do conceito. Existe pesquisa sobre humildade sentida e humildade exibida, que não li em detalhe, e o aviso vale pelo senso comum: se você pratica humildade para ser promovido, o outro percebe, mais cedo ou mais tarde.
Poder a serviço de quê
O mecanismo: a pergunta que o poder dispensa
O poder tem uma propriedade traiçoeira, e o capítulo 12 a descreveu pelo lado dos contrapesos: ele dispensa quem o detém de ouvir a pergunta "para quê". O chefe com poder não precisa justificar-se a cada passo. Por isso, a pergunta tem de ser colocada por você mesmo, de propósito, antes de a situação exigir.
Uma formulação útil é a de três círculos, que é minha, não de um autor. No primeiro círculo está você, com suas ambições, e não há nada de errado nelas; o livro inteiro as trata como legítimas. No segundo está o seu time, quem depende de você e tem a ganhar ou a perder com o que você decide. No terceiro está o propósito do trabalho, o que a organização existe para fazer, seja um produto, um serviço ou uma política pública. Poder bem usado tende a servir aos três ao mesmo tempo. Quando os círculos entram em conflito, o conflito é informação: ele mostra onde o seu poder está sendo pago por alguém.
Exemplo hipotético, sem empresa nem nome. Uma gerente corta uma despesa que atrapalhava o time e a poupa de um trabalho que ela não suportava. Os três círculos coincidem. Outro gerente corta a mesma despesa, mas esconde da equipe a razão e o efeito, para que a economia apareça na sua avaliação. O círculo um cresceu, o dois encolheu, e o três ficou indiferente. O ato é igual, o uso do poder é outro.
Na prática
Antes de uma decisão com efeito sobre outras pessoas, faça três perguntas por escrito, em duas linhas cada uma. Quem ganha com isto, e quem paga? Se o meu chefe, a minha equipe e uma pessoa da imprensa lessem esta justificativa, algum deles discordaria de que ela é verdadeira? Se eu estivesse do outro lado, aceitaria que fizessem isto comigo? O segundo é o teste do capítulo 12 posto em primeira pessoa: a justificativa em que você mesmo não acredita é o sinal mais confiável de que o círculo um está comendo os outros dois.
Usar o poder para proteger os outros
O caso: o que Feuerstein fez e o que não fez
O gesto de 1995 mostra duas coisas sobre usar poder para proteger. A primeira é que proteger exige que alguém tenha margem para absorver custo. Feuerstein comandava a empresa da família, e por isso tinha margem para pagar salários sem pedir licença a um chefe. A maioria dos leitores deste livro não é dona de nada, e o ponto prático é outro: toda pessoa tem alguma margem, menor ou maior, e proteger é gastar essa margem em benefício de quem tem menos. A segunda é que a proteção tem limite, e esse limite é o negócio. O gesto cobriu um intervalo e não resolveu a viabilidade. Há quem leia isso como "virtude não paga" e quem leia como "virtude é o que importa", e as duas leituras são preguiçosas. A leitura útil é estreita: havia poder, havia escolha, ele escolheu absorver o custo, a escolha protegeu famílias por um período e não garantiu futuro. Proteger não é investimento com retorno garantido. É decisão de valor, e quem a toma sabe o preço.
O mecanismo: as formas de proteção que cabem num cargo comum
Para quem não é dono, a proteção ganha formas menores e mais frequentes, e todas aparecem em capítulos anteriores. A primeira é ser patrocinador, não só mentor: falar bem de alguém em sala onde essa pessoa não está e onde a decisão acontece (cap. 4). A segunda é dar o crédito certo, nomeando quem fez o quê, em vez de absorver o trabalho do time no seu nome (cap. 6). A terceira é ser a pessoa que explica ao time os critérios de promoção e de avaliação, em vez de guardá-los como vantagem informacional (caps. 3 e 5). A quarta é segurar a linha quando o nível acima pede o que não deveria: o gestor que absorve a pressão em vez de repassá-la integralmente. A quinta é receber um relato de assédio ou retaliação e levá-lo ao canal competente, sem investigar por conta própria, sem prometer sigilo que não pode cumprir e sem deixar a avaliação de quem relatou mudar sem razão documentada e conferida por alguém de fora da linha (cap. 12). Essa última é a que mais pesa e a que menos se cobra.
Nenhuma dessas ações exige heroísmo. A pesquisa que conheço não mede o efeito de cada uma, e o argumento é de mecanismo: quem tem menos poder depende de quem tem mais para ser visto, ouvido e protegido, e cada uma dessas ações reduz a assimetria que o capítulo 7 descreveu na relação com o chefe. Por simetria, também é um dever de quem está no meio: o gestor é chefe de alguns e subordinado de outros, e a mesma régua vale para os dois papéis. É a posição do livro desde o primeiro capítulo, de mesma régua para empregado, chefe, dono e investidor.
Cenário ilustrativo: Luciana e a reunião de quinta-feira
Cenário ilustrativo. Na Distribuidora Planalto Sul, empresa fictícia de materiais de construção, Helena lidera o time de planejamento. Numa reunião de quinta-feira, um diretor, Valter, interrompe Luciana, analista júnior do time, e diz diante de todos que a previsão dela "não serve nem para papel de embrulho". A previsão, na verdade, tinha um erro de método, mas corrigível em um dia. Helena percebe duas coisas: o erro é real e a forma é inaceitável. Na reunião, diz apenas que o time reapresenta a previsão corrigida na segunda-feira, o que desloca o assunto do plano pessoal para o plano técnico. Depois, conversa com Luciana a sós, explica o que foi dito e o que será feito, e confirma que o erro de método existe e precisa ser tratado. Escreve para si, com data, o que ouviu e o que fez. Na semana seguinte, pede a Valter uma conversa de dez minutos, descreve o episódio em termos de efeito na equipe e pergunta como ele prefere receber correções. Se o padrão de humilhação se repetisse, Helena levaria o assunto ao canal competente e a seu próprio chefe, e sabe que isso pode custar-lhe capital político. A escolha não é grátis: ela gastou um pouco da relação com Valter para proteger Luciana, e está disposta a gastar mais se for preciso.
Quando sair
O mecanismo: sair como decisão de poder
Em nenhum capítulo deste livro a saída foi tratada como derrota, e este é o momento de dizer isso de forma direta. O capítulo 5 disse que lealdade sem reciprocidade é contribuição a fundo perdido. O capítulo 7 apontou que há chefes ruins de verdade, e que nenhuma técnica de comunicação os resolve. O capítulo 9 citou a saída como uma opção que deve permanecer viva, e o 10 recomendou reserva financeira e rede para quem pode estar do lado que perde. Sair é, nesse sentido, a ferramenta de poder que sustenta todas as outras: quem não pode sair negocia, discorda e denuncia com a corda no pescoço.
Não existe estudo que diga o ponto exato da saída, e não encontrei nenhum. Há critérios, e os que ofereço são meus, derivados do que o livro mostrou. O primeiro é o que você teria de fazer para continuar. Se a permanência exige mentir, assinar o que não viu, calar sobre assédio ou fraude, retaliar ou apropriar o trabalho alheio, a conta já mudou de natureza. O segundo é quem paga esse custo. Se o preço de ficar é seu, é uma escolha pessoal que você pode fazer. Se o preço é pago por alguém que depende de você ou por quem não tem voz, ele não é só seu. O terceiro é o que sobra de você depois. Isso inclui saúde, tempo, as pessoas que gostam de você e a imagem que você faz de si.
Sair também tem condições, e os capítulos anteriores deram a lista: reserva financeira, rede fora da empresa, registro dos fatos que importam, ordem das conversas. Em casos de assédio, discriminação ou retaliação, não escolha a saída antes de entender os caminhos formais e de ouvir orientação jurídica, porque a ordem das ações pode afetar direitos (cap. 12). Este livro não é aconselhamento jurídico.
Na prática
Uma regra simples ajuda: mantenha a saída viva em tempos calmos. Atualize o currículo uma vez por ano, mesmo feliz. Converse com uma pessoa de fora da empresa por trimestre. Saiba quanto tempo sua reserva dura. Quem faz isso decide melhor quando a crise chega, porque a saída deixou de ser um salto no escuro.
E há o outro lado, o de quem sai cedo demais. Nem todo desconforto é motivo. Os capítulos 7 e 9 insistiram que boa parte do que parece perseguição é desencontro de expectativas ou desenho ruim de metas. Antes de sair, tente a conversa, o esclarecimento por escrito e o aliado. Se tentou o barato e reversível, e o padrão continua, a saída deixa de ser fuga e passa a ser conclusão.
Os princípios
Reunidos, os princípios que o livro defende são poucos, e cada um deles remete a um capítulo.
Primeiro, trate o poder como relação. Quem depende de você tem algo a perder, e quem você depende tem algo a decidir. Esquecer isso, dos dois lados, é o começo dos problemas (cap. 2).
Segundo, use a mesma régua para todos. O que você condena no chefe, no dono ou no rival, não pratique com o seu time (tese do livro, cap. 12).
Terceiro, jogue o jogo repetido. Na maior parte das relações de trabalho, as pessoas voltam a se encontrar, e a cooperação rende mais do que a esperteza quando isso acontece. Não há garantia, e a rotatividade encurta esse horizonte, mas a aposta é razoável (cap. 11).
Quarto, compartilhe informação e crédito mais do que o instinto sugere. A moeda de longo prazo é a confiança (caps. 3 e 6).
Quinto, não cruze a linha dos ilícitos. Assédio, discriminação, retaliação e fraude não são jogo político. São ilícitos, e o livro os trata assim do começo ao fim (caps. 9 e 12).
Sexto, mantenha a saída viva. Ela garante a honestidade de todas as outras negociações (caps. 5, 7, 9 e 10).
Sétimo, use o poder para ampliar o espaço de quem está abaixo de você. É o princípio mais difícil, porque o custo é imediato e o retorno é incerto, como mostrou Feuerstein. Ainda assim, é o que dá sentido ao resto.
Entre os sete, nenhum é garantia de sucesso. O livro foi escrito contra a ideia de que existe receita que dispense risco, e este capítulo não vai contrariar isso no final.
Verdades desconfortáveis
A primeira é que a virtude pode custar a carreira. Há situações em que fazer o certo diminui suas chances de promoção, perde um aliado ou termina em demissão. O caso de Feuerstein mostra o custo no limite, e eu não conheço evidência de que, em média, a ética compense no prazo que importa para você. O que há é um argumento de mecanismo sobre reputação e jogos repetidos, e ele vale mais em uns ambientes do que em outros.
A segunda é que a fronteira entre usar e abusar é nebulosa. Quase ninguém se vê como abusador. Quem humilha em reunião acredita que está dando feedback duro, e quem toma o crédito acredita que está liderando. O teste de que a justificativa precisa passar por alguém que não é seu aliado é incômodo, e justamente por isso é útil.
A terceira é que o discurso moral serve a todos os lados, inclusive aos que exploram. "Vestir a camisa", "somos uma família" e "servir ao time" são frases que podem ser verdadeiras ou ferramentas de extração de sobrecarga. A pesquisa sobre liderança servidora mede percepção, e a percepção pode ser conduzida. Olhe o que a empresa faz com quem diz não.
A quarta é que ser bom não é tarefa solitária. Quem tenta proteger os outros sem aliados, sem registro e sem reserva paga sozinho e dura pouco. Poder bem usado é, em boa parte, poder coletivo: patrocinadores, pares, canais que funcionam.
A quinta é que este livro não tem como garantir que você vai usar o que aprendeu do jeito certo. Ele ensina a ler o terreno, e o terreno vale para quem quer se defender e para quem quer atacar. A única defesa que tenho é a franqueza sobre isso e a recusa, ao longo dos capítulos, de dar o manual do ataque.
Jogo sujo e defesa
O tema deste capítulo tem suas próprias manobras, e elas são mais difíceis de reconhecer porque vêm vestidas de virtude. Descrevo-as, como sempre, para que você as reconheça e se defenda.
A virtude como marca. A pessoa cultiva a imagem de generosa, ética ou humilde porque a imagem rende admiração e influência, sem que a prática acompanhe. Como a pesquisa sobre prestígio mede reputação e não integridade, a performance rende. A defesa é olhar para o que a pessoa faz quando ninguém está olhando e quando o gesto custa algo: quem divide crédito apenas quando há plateia está fazendo marketing.
O moralismo como arma. O colega que não tem argumento técnico acusa o rival de antiético para desqualificá-lo. A defesa é separar a acusação do fato: peça o fato, a data e a fonte. Acusação moral sem fato é tática de rivalidade (cap. 9), e quando o fato existe e envolve assédio ou fraude, o caminho é o canal competente, não a fofoca.
A servidão como chantagem. O chefe que apela à lealdade, ao espírito de equipe e ao sacrifício para extrair carga que não cabe no contrato. A defesa é a clareza de escopo e a conta feita em voz alta: o que isto custa em horas, o que não será feito se isto for feito, quem decide a troca. Dizer não a tudo é uma postura. Dizer não a algo, explicando o preço, é gestão.
A proteção como dívida. Quem protege para criar obrigação: o patrocinador que cobra lealdade cega em troca, o chefe que "salva" alguém e passa a tratá-lo como devedor. A defesa é diversificar apoios (cap. 4) e perceber a diferença entre uma proteção que amplia seu espaço e uma que o estreita.
A lealdade como armadilha de saída. O discurso que transforma ir embora em traição, para reter gente que deveria sair. A defesa é a conta fria do cap. 5, de que lealdade sem reciprocidade é contribuição a fundo perdido, e a manutenção da saída viva.
Plano de ação
Nos próximos trinta dias:
- Semana 1: escreva, em uma página, para que serve o seu poder hoje. Quem depende de você, o que você controla e o que faria com mais margem. Se não conseguir escrever, esse é o dado.
- Semana 1: releia o mapa de poder que você fez com o apêndice C e marque onde você é o mais poderoso na relação. Pergunte-se o que está fazendo com essa vantagem.
- Semana 2: escolha uma pessoa do seu time ou do seu entorno com menos poder que você e faça uma coisa concreta por ela: um patrocínio numa reunião, um crédito nomeado, um critério explicado.
- Semana 2: aplique as três perguntas da seção sobre propósito a uma decisão que você tomará esta semana.
- Semana 3: confira a sua saída: currículo atualizado, uma conversa fora da empresa, quanto tempo dura sua reserva.
- Semana 3: se você é gestor, descubra o que você faria hoje se uma pessoa do time relatasse assédio ou retaliação. Confira com o RH ou o jurídico se o seu plano está certo.
- Semana 4: escreva os seus três limites, o que você não faz mesmo que seja exigido. Guarde numa versão que só você veja e releia daqui a seis meses.
Exercícios
- Pegue o caso de Feuerstein e escreva duas versões de uma página: uma defendendo que o gesto foi um erro de gestão, outra defendendo que foi correto. Entregue as duas e, ao final, uma terceira página dizendo qual evidência faltaria para escolher.
- Faça uma lista de cinco decisões de poder que você tomou ou tomará no próximo mês, mesmo pequenas. Para cada uma, escreva quem ganha, quem paga e o que você diria se fosse perguntado por quem paga. Entrega: a lista com as três colunas.
- Identifique uma pessoa com menos poder que você que dependa de uma decisão sua. Escreva o que ela pode estar pensando sobre essa decisão e o que você pode fazer para reduzir a incerteza dela. Entrega: um parágrafo e uma ação com data.
- Aplique os três critérios de saída (o que teria de fazer para ficar, quem paga, o que sobra de você) à sua situação atual, em linguagem franca, só para você. Entrega: uma folha com as três respostas e a data para reler.
- Escolha dois capítulos entre o 1 e o 12 cujas "verdades desconfortáveis" mais o incomodaram e escreva um parágrafo sobre o que mudou, ou deveria mudar, na sua forma de agir. Entrega: o parágrafo, com um compromisso concreto.
Prompt de estudo
Vou descrever uma situação em que preciso decidir entre uma opção que favorece a minha carreira e outra que protege alguém do meu time. Atue como um conselheiro cético e cuidadoso. Faça as três perguntas do capítulo (quem ganha e quem paga, se a justificativa resistiria à leitura de um terceiro, se eu aceitaria isso do outro lado), aponte os custos que estou ignorando, diga o que eu não sei e sugira a conversa mais barata e reversível a ter antes de decidir. Não invente fatos nem me dê garantia de resultado.
Quero ensaiar uma conversa em que vou dizer ao meu chefe que não posso assumir mais uma tarefa sem retirar outra. Aja como o chefe, que está pressionado e acha que isso é falta de espírito de equipe. Responda de modo realista, sem ceder logo, e depois me diga o que funcionou, o que soou como queixa e o que eu poderia ter dito com mais clareza de escopo e de preço.
Fontes e leituras
- Boston Globe, "A hero to workers after Malden Mills fire, Aaron Feuerstein dies at 95", 5 nov. 2021: https://www.bostonglobe.com/2021/11/05/metro/hero-workers-after-malden-mills-fire-aaron-m-feuerstein-dies-95/
- Eagle-Tribune, "Malden Mills/Polartec timeline", 11 dez. 2015 (quase 3 mil sem trabalho em 1995; concordata de 2001 com cerca de US$ 140 milhões de dívida; saída em 2003; afastamento de Feuerstein pelos credores em 2004; venda à Chrysalis em 2007). Conferida: https://www.eagletribune.com/news/malden-mills-polartec-timeline/article_b36bbec4-9fd6-11e5-a3b2-fba062cbf66d.html
- Wikipédia, Malden Mills e Aaron Feuerstein (usada como ponte; os detalhes jurídicos não foram conferidos em registro de tribunal).
- Cheng, J. T.; Tracy, J. L.; Foulsham, T.; Kingstone, A.; Henrich, J. "Two ways to the top: Evidence that dominance and prestige are distinct yet viable avenues to social rank and influence". Journal of Personality and Social Psychology, 104(1), 2013, 103–125. Resumo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23163747/
- Owens, B. P.; Hekman, D. R. "Modeling how to grow: An inductive examination of humble leader behaviors, contingencies, and outcomes". Academy of Management Journal, 55(4), 2012, 787–818.
- Hoch, J. E.; Bommer, W. H.; Dulebohn, J. H.; Wu, D. "Do ethical, authentic, and servant leadership explain variance above and beyond transformational leadership? A meta-analysis". Journal of Management, 44(2), 2018, 501–529.
- Os demais capítulos deste livro, em especial 2, 4, 6, 7, 9, 11 e 12, e o apêndice C (Mapa de poder).